Internacional

Obama é contrário ao desfinanciamento da polícia, uma das demandas do Black Lives Matter

Em suas declarações, Obama disse que não devemos exigir o desfinanciamento da polícia, numa tentativa de cooptar e reprimir o movimento Black Lives Matter, em conformidade com seu apoio à polícia e ao sistema capitalista.

sábado 5 de dezembro de 2020| Edição do dia

Os candidatos políticos perdem apoio quando usam slogans “fáceis” como “tirar fundos da polícia”. Isto foi o que o ex-presidente Barack Obama disse nesta semana no Good Luck America, um programa do Snapchat com Peter Hamby. E seguiu “Você perde uma grande audiência no momento em que diz isto, o que torna muito menos provável que realmente obtenha as mudanças que deseja”.

Segundo Obama, a única forma de acabar com a violência policial é parar de falar sobre ela e deixar de lutar por isto. Não deveríamos esperar menos de um membro da classe dominante, especialmente de Barack Obama, um ex-presidente dos Estados Unidos e líder da maquinaria de guerra imperialista e racista. Apesar da popularidade de Obama, seus comentários não são conselhos amigáveis a qualquer ativista que compartilhe nossos objetivos. Obama representa um Estado capitalista que necessita uma força policial para sustentar um sistema de alguns poucos milionários que se beneficiam do trabalho e da miséria da grande maioria da classe trabalhadora.

Sua declaração é parte de uma estratégia mais ampla dentro do Partido Democrata de repressão dos movimentos sociais, nesse caso do Black Lives Matter [Vidas Negras Importam], e de persuadir os ativistas para que aceitem o status quo. Obama sugere manter o financiamento e a presença policial em sua totalidade. Contudo, essa estratégia vai muito além de Obama; a nível local, os políticos do Partido Democrata reprimem brutalmente o movimento. No entanto, em todos os níveis do governo, os democratas tentam cooptá-lo com gestos simbólicos, como o grafite que fizeram com a consigna “Black Lives Matter” nas ruas das cidades, entre outros exemplos. Com essa estratégia de duas caras, os democratas puderam tirar parte do movimento das ruas e levá-lo às urnas em novembro. O crescimento do BLM se refletiu no aumento do número de eleitores.

Biden ganhou as eleições em parte graças às ações e ao ativismo da comunidade negra e aos protestos antirracistas. Enquanto Donald Trump se dirigia aos supremacistas brancos para que “recuassem e se mantivessem à margem", os democratas se apoiaram no BLM, tuitando e falando sobre o racismo institucional. Biden, por exemplo, falou no funeral de George Floyd e viajou para Kenosha depois que Kyle Rittenhouse matou ativistas do BLM. Os democratas também repudiaram quando Trump ordenou a repressão com gás lacrimogêneo às manifestações na capital Washington, D.C., ao mesmo tempo em que ignoravam que funcionários democratas de todo o país também lançaram gases lacrimogêneos em manifestantes. Os democratas tentaram reivindicar o voto antirracista e se mostrar como o antídoto contra a supremacia branca de Trump, mas sem prometer qualquer mudança estrutural substancial. E funcionou.

Contavam com a rede do BLM, com os sindicatos e inúmeras organizações sem fins lucrativos locais para fazerem campanha a favor de Biden e a persuadir as pessoas a engolirem seu desprezo e suas políticas racistas, e o passado de Kamala Harris como promotora (papel no qual aumentou as penas e o número de presos), tudo para “tirar Trump”. Agora, após um desempenho pior do que o esperado nas eleições de 2020, o Partido Democrata busca responsabilizar o movimento Black Lives Matter pela perda de votos, e não o fato de que fizeram uma campanha baseada inteiramente na consigna anti Trump. Além disso, proclamaram que “nada mudará profundamente” e prometeram mais neoliberalismo, quando foi justamente o neoliberalismo que criou o trumpismo, assim como a crise econômica e sanitária que estamos vivendo.

Agora que Trump perdeu as eleições e os democratas já obtiveram o que queriam com o BLM, os democratas querem sufocar o movimento e qualquer ideia de que a polícia deva ser desfinanciada. Quem melhor para fazer esse serviço que o carismático primeiro presidente negro dos supremacistas brancos dos Estados Unidos da América? Agora que Biden ganhou e o movimento baixou sua intensidade nas ruas, temporariamente, é o momento de colocar Barack Obama como o “conselheiro amigo” do movimento. Querem pintar os ativistas como pouco realistas e nos convencer de que o melhor que podemos fazer é diluir nossas propostas e votar em democratas como ele em nome do pragmatismo.

Obama passou o último mês tentando injetar algum ânimo no setor do establishment do Partido Democrata. Este giro tem a intenção de fazer precisamente isso: acelerar o entusiasmo pelos “bons velhos tempos” da administração de Obama antes do caos dos anos de Trump. Está tentando apoiar a administração de Biden e do Partido Democrata para revitalizar seu governo neoliberal em meio a um clima social, político e econômico em transformação. No entanto, não está claro se essa estratégia funcionará, já que cada vez mais pessoas podem ver as intenções de Obama.

Obama nunca esteve do nosso lado

Barack Obama sempre foi nosso inimigo. Em relação aos problemas que mais afetam os trabalhadores, os negros, as mulheres e os pobres, já fez inúmeros discursos e várias declarações audazes sobre a necessidade de mudança, chegando até a dizer que Trayvon Martin poderia ter sido seu filho. Contudo, essas bonitas palavras que escondem promessas vazias foram feitas para enganar os negros e ativistas antirracistas que realmente querem “esperança e mudança”. Essas palavras e declarações audazes têm um só objetivo: continuar a perpetuar e a legitimar o sistema capitalista racista dos Estados Unidos que a presidência e as políticas de Obama fizeram todo o possível para defender. Vejamos algumas das políticas de Obama:

• Obama supervisionou e sustentou o maior complexo penitenciário industrial do mundo: 2,2 milhões de pessoas. Sob a gestão Obama, 9 milhões de pessoas estavam na prisão ou em liberdade condicional. Ao final de sua presidência, propôs algumas reformas ao sistema penitenciário, mas essas tentativas de se apoderar da primeira onda do movimento Black Lives Matter não fizeram quase nada para enfrentar a violência policial, mesmo pelos padrões burgueses.

• Durante sua administração, Obama promoveu grandes avanços do capitalismo estadunidense. Conhecido como o “rei dos drones”, Obama bombardeou mais países que o presidente Bush: sete países contra os quatro de Bush. Obama lançou 72 bombas por dia, o equivalente a três por hora em 2016.

• Em 2007, a renda média anual das famílias brancas era de US$ 58 mil. Esta foi reduzida para US$55 mil em 2013, enquanto o valor caiu de US$41 mil para $34 mil nas famílias não brancas. A diferença racial se ampliou escancaradamente durante a presidência de Obama, que escolheu salvar a Wall Street ao invés da classe trabalhadora. Para as comunidades não brancas, isto foi catastrófico.

• Obama deportou 5,6 milhões de pessoas, mais imigrantes que qualquer outro presidente na história dos Estados Unidos, e gastou bilhões de dólares fortalecendo este sistema de imigração que encarcera famílias e crianças em todo o país.

• Obama voltou a colocar Assata Shakur, ex-líder do Exército de Libertação Negra, na lista dos 10 mais procurados pelo FBI, décadas após ser eliminada.

O encanto e a retórica progressista de Obama estão destinadas a ocultar estas políticas imperialistas e muitas mais. Cada vez que a luta contra o racismo surge nas ruas, Obama sai para atrair todos de volta aos democratas. Em suas declarações, disse: “A conclusão é a seguinte: se queremos alcançar uma mudança real, a escolha não é entre o protesto e a política. Temos que fazer ambas as coisas. Temos que nos mobilizar para criar consciência e temos que nos organizar e emitir nossos votos para nos assegurar de que eligiremos candidatos que atuarão com reformas”. Em outras palavras, os protestos são perfeitamente aceitáveis, desde que ajudem o racista e capitalista Partido Democrata. Há apenas alguns dias, disse que estava orgulhoso de suas filhas por se unirem aos protestos do BLM.

Mas ele usa essa retórica identificável e “socialmente consciente” para se posicionar como parte do movimento, e depois virar as costas e reprimi-lo cada vez que este ameaçar sair dos limites da estreita gama de atividades aceitáveis pelos democratas.

Tomemos as declarações de Obama de 2016 sobre o Black Lives Matter. Citou especificamente uma ativista negra de Chicago, Aislinn Pulley, que se negou a reunir com ele, dizendo: “Você não pode gritar contra eles e negar a reunir-se com eles por medo de comprometer a pureza de suas posições… O valor dos movimentos sociais e do ativismo é colocar os problemas na mesa, e logo começar a averiguar como resolver este problema. Logo, você tem a responsabilidade de preparar uma agenda que seja alcançável, que permita institucionalizar as mudanças que busca e envolver a outra parte”.

O capitalismo precisa da polícia

Obama é contra o “desfinanciamento da polícia” porque esta constitui um pilar necessário ao capitalismo. A polícia é descendente direta dos caçadores de escravos, aterroriza as comunidades negras e mantém uma força de trabalho semi escrava nas prisões, cuja enorme maioria de presos é negra e latina. A polícia está destinada a defender um sistema racista de lucros capitalistas no qual Jeff Bezos aumenta exponencialmente suas riquezas durante a pandemia, enquanto a população (desproporcionalmente não branca) espera horas nas filas por alimentos. Isto tem uma relação direta, Bezos é rico porque se beneficia dos baixos salários de seus trabalhadores, e é super rico porque quase não paga impostos, ao mesmo tempo em que o governo afirma que simplesmente não há dinheiro para auxiliar a classe trabalhadora. No próximo período, à medida em que expirarem as moratórias de despejo e aumente o desespero econômico, o Estado necessitará que a polícia desaloje as pessoas de suas casas e reprima seus protestos.

Para manter a paz, é essencial para os políticos e os capitalistas que não questionemos por que a polícia aparece nos protestos vestida com equipamentos de alta tecnologia, enquanto após nove meses de pandemia ainda não há EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) suficientes para os trabalhadores da saúde, ou por que não há fundos para os desempregados, ou o por que o governo segue afirmando que não há dinheiro para Medicare (plano de saúde) para todos. A verdade é que quando se olha para o financiamento, o dinheiro está lá. Mas ele vai para os militares, para a polícia e para o bolso dos multimilionários que lucram em cima do nosso trabalho.

Por isso, como socialistas, devemos lutar para abolir a polícia e o sistema capitalista racista que ela protege.

Abolir o capitalismo, abolir a polícia

A estratégia de Obama parece ter funcionado para os democratas no passado, mas há um setor crescente que está se radicalizando com a pandemia, a crise econômica e o movimento Black Lives Matter, e está se intensificando para se manifestar contra seu legado. O rechazo às declarações de Barack Obama tem sido rápido e claro. As pessoas que o apoiaram anteriormente se expressaram no Twitter para denunciar sua declaração e deixar claro que o ex-presidente já não é tão popular entre a comunidade negra e os ativistas.

Até mesmo alguns políticos dentro do próprio Partido Democrata se pronunciaram, como Cori Bush tuitou: “Com o devido respeito, senhor presidente, vamos falar sobre perder pessoas. Perdemos Michael Brown Jr. Perdemos Breonna Taylor. Estamos perdendo nossos entes queridos pela violência policial. Não é um slogan. É um mandato para manter nosso povo vivo. Desfinanciemos a polícia”. Ilhan Omar disse: “Perdemos gente nas mãos da polícia. Não é um slogan, mas sim uma exigência política. E centrar a demanda por investimentos e orçamentos equitativos para as comunidades em todo o país nos traz progresso e segurança”.

Eles têm razão em suas críticas a Obama. Porém, apesar de sua retórica progressista, também são democratas, e sua retórica também desempenha o papel de levar os ativistas antirracistas ao Partido Democrata, o partido que atualmente está dirigido por nada menos que a “estratégia” de Biden “atirar na perna”. Obama sabe que, apesar de suas diferenças, são úteis para o partido. Depois de tudo, logo após falar contra o slogan de “desfinanciar a polícia”, Obama disse que Alexandria Ocasio Cortez (deputada latina e parte da ala esquerda do Partido Democrata em Nova York) deveria ter uma plataforma mais ampla. Afinal, ela é a ala mais carismática e dinâmica do Partido Democrata. Quando chegar o momento, ela fará tudo ao seu alcance para mobilizar a sua base em direção a figuras como Joe Biden e o establishment do Partido Democrata.

Para os ativistas de base, a lição é clara: não basta condenar as palavras de Obama. Não é suficiente condenar o histórico de Obama. Está na hora de finalmente romper com um partido que existe para atuar como cemitério dos movimentos sociais.

Os republicanos, que têm em suas fileiras pessoas que se proclamam abertamente supremacistas brancos, tampouco são uma solução, mesmo que apontem a desonestidade dos democratas. Precisamos da nossa própria organização política que represente a classe trabalhadora, a juventude nas ruas, as mulheres, os negros, os imigrantes, queer e não binários, e as pessoas de todos os setores oprimidos. Os democratas e republicanos representam somente o capitalismo, o imperialismo e seus interesses, mesmo que coloquem Barack Obama como seu porta-voz.

“Desfinanciar a polícia” pode até ser “alienante” (como disse Obama), mas para quem? Claramente para o sistema capitalista racista que defende a polícia para manter a desigualdade de riquezas e a exploração. Porém, como socialistas, não temos problemas em aliená-los. De fato, queremos derrotar suas políticas e todo o sistema que eles sustentam. E, para esta tarefa, não precisamos de Barack Obama nem do Partido Democrata. Na realidade, temos que ir mais além do desfinanciamento da polícia. Não devemos ocultar nossos objetivos e metas. É hora de abolir a polícia e este sistema miserável. E isto não é um “slogan ágil”. É por isto que lutamos.

Este artigo foi originalmente publicado no Left Voice, parte da rede internacional do Esquerda Diário.




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