Sociedade

HIDROXICLOROQUINA

O uso demagógico e burocrático da hidroxicloroquina na cidade de Campina Grande (PB)

O prefeito de Campina Grande deu aval para que a secretaria municipal de saúde permitisse a implantação de um protocolo para a aplicação de hidroxicloroquina em pacientes em estágio inicial.

Kleiton Nogueira

Doutorando em Ciências Sociais (PPGCS-UFCG)

domingo 17 de maio| Edição do dia

Crédito da imagem: https://jpimg.com.br/uploads/2020/05/fta20200412029-1024x682.jpg. Acesso em: 17 Maio. 2020.

O prefeito da Cidade de Campina Grande, Romero Rodrigues (ex- PSDB e agora PSD) não esconde seu apreço pelo presidente da república, Jair Bolsonaro. Em diversas ocasiões, inclusive, o então prefeito apoiou a candidatura de Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018. Romero é um filho político da família Cunha Lima, de grande influência no Estado da Paraíba e na Cidade de Campina Grande, cujo patriarca: Cássio Cunha Lima já teve o mandato cassado por envolvimento em casos de corrupção e compras de votos. Politicamente, mesmo tendo mudado de sigla partidária, não perdeu o vínculo com a família Cunha Lima, sendo praticamente um fantoche político no município.

No tocante ao combate à pandemia de Covid-19 no município, como uma de suas últimas medidas, o prefeito deu aval para que a secretaria municipal de saúde permitisse a implantação de um protocolo para a aplicação de hidroxicloroquina em pacientes em estágio inicial. Segundo análises que já realizamos no Esquerda Diário, buscando superar as visões estritamentes ideológicas sobre o uso ou não uso do medicamento, e especificamente com base na minuta científica que tivemos acesso no Esquerda Diário, compreendemos que até o mês de Março de 2020 não havia nenhum tipo de medicamento conhecido pela medicina que tivesse eficiência contra o Sars-Cov-2, pelo contrário, para a grande mídia, os antivirais da prática clínica são inválidos e não recomendados. Contudo, ao refletir de modo mais crítico, podemos considerar com base nessa minuta científica que pesquisas sobre Cloroquina e hidroxicloroquina já haviam sido realizadas antes. Essas pesquisas por exemplo, nos informam que a cloroquina é comercializada desde os anos 1930 para o tratamento antiinflamatório e antifebril. Contudo, como é da ordem da medicina do capital, muitos desses estudos não são aprofundados, especialmente porque a descoberta de insumos médicos baratos não é de interesse da esfera cumulativa desse tipo de medicina:

Apesar de a hidroxicloroquina ser o foco dessa minuta, não é possível deixar de mencionar que várias outras substâncias, de potencial bem menos tóxico e muito mais seguras terapeuticamente que a hidroxicloroquina estão disponíveis no combate ao COVID-19. Novamente, não constituem hierarquia para a medicina e a pesquisa dominantes. Mas é possível prever que, em uma medicina não submetida ao mercado e à Big Pharma, opções outras seriam seriamente examinadas, levadas em conta, a exemplo do azul de metileno, progesterona, tireóide dessecada, emodina, AAS, ciproheptadina, vitamina D e A, inibidores do SRAA seguros e antiinflamatórios confiáveis [1]

Frente a pandemia, esse ativo bioquímico é retomado, especialmente pelos Chineses, população que primeiro sofreu com os impactos da pandemia. De acordo estudos científicos que datam desde o ano de 2003, a hidroxicloroquina já apresentava sinais positivos para o tratamento de determinadas comorbidades clínicas. A minuta também cita exemplos de estudos controlados que mostraram diminuição da carga viral em pacientes acometidas pelo Sars-Cov-2. Contudo, mesmo diante de tais demonstrações, precisamos refletir sobre o uso político da negação desse medicamento.

No caso de Campina Grande, ao ser incluído num protocolo que prescreve seu uso para pacientes em estágio inicial da doença, tal decisão foi tomada após uma reunião do prefeito com o secretário de Saúde. Aqui, encontramos um dos primeiros elementos que gostaríamos de chamar atenção e que está incluso na lógica do Estado Burguês: seu elemento antidemocrático. Nesse caso em específico, tal decisão não deve ser realizada pelas mãos de um grupo específico, isso é o que difere a verdadeira democracia proletária. No uso da hidroxicloroquina por exemplo, seu uso, estudo e averiguação pela própria classe trabalhadora, a única classe que de fato pode dar uma resposta efetiva a essa crise orgânica que vivenciamos, poderia ser realizada através de comitês com a participação de todos na escolha das deliberações que devem ser realizadas para a tomada de decisão, evitando o uso indiscriminado do medicamento.

Segundo informações epidemiológicas do município de Campina Grande há um total de 280 casos confirmados e 7 óbitos de Covid-19 no dia 16 de Maio de 2020. Esses dados a uma primeira vista podem parecer pequenos para um município que segundos dados do Instituto Brasileiro de Geografia possui um total de 409.731 habitantes. Contudo, cabe destacar outro faceta desse problema, a ausência de testes massivos e subnotificações, o que proporciona a falsa ideia de que a cidade possui poucos casos.

Ao retomarmos a minuta científica, podemos compreender de uma forma mais clara o problema desse debate do uso e dos efeitos da hidroxicloroquina e ligarmos ao município de Campina. Fica evidente aqui, o uso eleitoral que o prefeito da cidade de Campina Grande busca com o medicamento. Se por um lado há evidências científicas de constatam a eficiência do medicamento, por outro vemos uma vontade excessiva de Bolsonaro e políticos como Romero Rodrigues usarem o medicamento como uma forma de alargar as possibilidade de fim do isolamento social, que em última instância não funciona se não for realizado de forma correta, com um tratamento específico, fato que não ocorre no Brasil uma vez que as condições de vida da classe trabalhadora é precária, especialmente pelas condições materiais, de saneamento básico, acesso a água potável, em resumo, um isolamento social e um ambiente insalubre é uma armadilha para que as pessoas adoeçam ainda mais.

Em meio a essa torrente de informações e negações científicas, precisamos, assim como Marx fez ao estudar o capital e a sociedade burguesa, realizarmos superações dialéticas, fugir das concepções binárias para que assim, possamos realizar saltos qualitativos e transicionais no debate. Dessa forma, entendemos que a grande farmácia não apresenta nenhum interesse no uso desse da hidroxicloroquina, uma vez que sua produção não engordaria as contas bancárias dos magnatas do ramo médico-farmacêutico. Por outro lado, há em setores da esquerda um voluntarismo anticientífico, que não buscam em evidências concretas argumentos plausíveis, preferindo apenas repetir o engodo da mídia brasileira e do ex-ministro da saúde como Nelson Teich, que alertou sobre o não uso da hidroxicloroquina.

O fato é, nenhum desses ministros, com interesses materiais próprios e ligados à corporações médicas privadas, irão incentivar estudos controlados sobre a eficácia desse medicamento, a esquerda débil, prefere repetir esse discurso ao fazer uma frente anti-bolsonaro de forma cega, sem ao menos se dar ao luxo de pesquisar a fundo e aprender sobre os reais efeitos e benefícios do uso medicamentoso. Além disso, muitos setores ainda acreditam no Estado burguês brasileiro e se enxergam como defensores de instituições político-estatais, como se nossas instituições tivessem algo de “neutralidade” e técnica. Além disso, é preciso que tenhamos claro que a medicina do capital não mede esforços quando o seu interesse é manter acumulação de capital à custa da vida de milhares de pessoas, por esse motivo, não há interesse na realização de estudos que não gerem patentes e muito menos lucros, afinal, a saúde é encarada como uma mercadoria para eles, e a sabotagem de pesquisas e resultados é algo que pode ocorrer quando se trata de formular opinião negativa sobre uso de determinado medicamento que pode ser acessível às massas.

Diante desses elementos, gostaríamos de apontar que no caso da cidade de Campina Grande, cujo núcleo reacionário bolsonarista já foi expresso em matéria da Folha de São Paulo, ao colocar funcionários de lojas de joelhos em pleno centro da cidade em um circo dos horrores, pedindo o retorno das atividades comerciais em plena pandemia, o uso do medicamento vai ser realizado sem o controle da classe trabalhadora, de forma burocrática e sem diálogo com a sociedade. Ao surfar no discurso demagógico de Bolsonaro, o prefeito Romero Rodrigues busca uma forma de atender fração empresarial da cidade, mostrar que os efeitos do medicamento poder servir para a reabertura das atividades comerciais.

Por esses motivos, o debate concreto, baseado em evidências científicas deve balizar sobretudo à esquerda brasileira, para que o voluntarismo seja extirpado, e além disso, para que a falsa imagem de “cientificidade” da medicina do capital se questionada como uma forma de qualificarmos a discussão naquilo que mais importa: salvar vidas, uma vez que para os capitalistas nossas vidas não valem mais do que o lucro deles. Apenas com uma gestão democrática da ciência realizada pela própria classe trabalhadora, além da recondução da base produtiva para produzirmos o que de fato é essencial, com a criação de leitos e áreas de recuperação salubres, com boa alimentação, trabalho coletivo e realização de testes massivos é que iremos estancar a sangria de mortes nessa pandemia, que já passa da cifra das 15 mil vidas ceifadas pela ganância capitalista.É preciso ir além dessa miséria capitalista que coloca como única alternativa a morte e a iatrogenia pela esfera médica interessada em patentes e lucros, é preciso ir além da burocracia de setores da esquerda que acreditam cegamente nessa medicina e na conciliação de classes.

REFERÊNCIAS

1. Minuta sobre a Cloroquina e o Covid-19. Disponível em: http://www.esquerdadiario.com.br/IMG/pdf/g-hidroxicloroquina-minuta-vers_publ_28-3-2020-corrig15-4.pdf. Acesso em: 17 Maio. 2020.




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