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O suicídio de Zina, filha de Trótski, vítima de Stálin

Gabriela Liszt

O suicídio de Zina, filha de Trótski, vítima de Stálin

Gabriela Liszt

Em 5 de janeiro de 1933, a primeira filha de Trótski cometeu suicídio. No dia 11 de janeiro, após dias de confinamento, este escreve uma carta na qual, desde seu exílio em Prinkipo (Turquia), responsabiliza o Partido Comunista da URSS.

Trótski teve duas filhas em seu exílio siberiano, com sua primeira esposa, Aleksandra Sokolóvskaya: Zinaida (1901 – 1933) e Nina (1902 – 1928). Posteriormente, ajudado por Aleksandra, empreenderia sua fuga rumo à Europa. Em Paris, conheceu aquela que seria sua segunda esposa, Natasha (ou Natália) Sedova. Com ela, teve dois meninos, Leon Sedov (1906 – 1938) e Serguei (1908 – 1937).

Desde que iniciou sua luta contra a burocratização da URSS em 1923 e contra a teoria do “socialismo em um só país”, ambas representadas pela figura de Stálin, Trótski não somente foi perseguido politicamente, como em sua vida pessoal, incluindo a sua família, também ativa politicamente.

Isso se incrementou a partir de 1927, quando foi expulso da Internacional Comunista, do Comitê Central do Partido Comunista da URSS e do partido. A princípios de 1928, Trótski é desterrado a Alma-Ata (Almatý, Cazaquistão) e em janeiro de 1929 é expulso da URSS. Em 20 de fevereiro de 1932 ele e toda sua família têm a nacionalidade cassada. Isso será um fator no suicídio de Zina. O único país que lhe concedeu visto foi a Turquia. Não podendo instalar-se em Istambul, mudaram-se para a ilha de Prinkipo, no mar de Mármara.

Sua filha Nina morre de tuberculose em 9 de junho de 1928. Trótski dedica a ela a obra “Crítica ao Programa da internacional Comunista” para o VI Congresso com o cabeçalho “À memória de milha filha Nina, morta em seu posto de combate aos vinte seis anos de idade”. Ela havia colaborado com a Oposição de Esquerda desde sua formação. Após a deportação de seu marido Man Nevelson (que seria fuzilado em 1937) e privada de seu emprego, adoeceu gravemente.

Zinaida e sua irmão mais nova, Nina, foram criadas principalmente por seus avós paternos, David e Anna Bronstein. Depois, por sua tia Elizaveta, irmã mais velha de Trótski, após o divórcio de seus pais. Zinaida se casou pela primeira vez com Zajar Moglin (assassinado pelos processos de Moscou em 1937) com quem teve uma filha (Aleksandra Moglina) e depois com Platón Volkov (deportado à Sibéria em 1928, retorna nos anos 30, é preso em 1935 e fuzilado em 1936) com quem teve Vsevolod (diminutivo Sieva, ou Esteban) Volkov, nascido em 1926. Hoje, Esteban é o único sobrevivente da família Trótski, vive no México e se mantém ativo como cuidador do Museu Casa Leon Trótski.

Dois meses após sua chegada, Trótski, Natália e Liova se instalaram em Prinkipo, uma ilha no mar de Mármara. Zinaida, ou Zina, como era conhecida, a filha mais velha de Trótski, de seu primeiro casamento, havia deixado a Rússia nos fins dos anos 1930 e chegado a Prinkipo em 8 de janeiro de 1931, com seu filho Vsievolod (ou Sieva, diminutivo de seu nome). Liova [Leon Sedov, NdE] deixou Prinkipo em 18 de fevereiro de 1931 para ir a Berlim, buscando retomar seus estudos em engenharia e participar na política revolucionária. Zina, por sua vez, deixou a Turquia em 22 de outubro de 1931, também com destino a Berlim para seguir seu tratamento médico, deixando Sieva em Prinkipo. [1]

Em novembro de 1932, Trótski (junto a Natalia e Sieva) realiza uma breve viagem a Copenhague, convidado a uma conferência por estudantes socialdemocratas da cidade. Tinha intenção de que Sieva chegasse, por essa via, a Berlim, mas isso foi negado. Os três tiveram que retornar a Prinkipo. Embora tenham conseguido em 1932.

É importante ter em mente que nesse momento a Alemanha se encontrava em pleno processo de ascensão do fascismo. Nas eleições presidenciais de abril de 1932, Hindenburg ganha e Hitler cresce fortemente, graças à política ultra esquerdista do Partido Comunista Alemão (ditada pela III Internacional) de negar-se a enfrentar o fascismo em uma frente única com a socialdemocracia, à qual chamavam de “socialfascismo”.

Em 5 de janeiro, Zina se suicidou com gás em Berlim. Foi encontrada morta às duas horas da tarde. Liova envia um telegrama a Natália, que chega a ela dia 6, havíamos acabado de nos levantar da mesa, depois do almoço. Se me lembro bem, era Pierre Frank que estava conosco e levou o telegrama a Natália, quando ela chegou ao primeiro piso. Trótski e Natália se trancaram em sua casa, sem dizerem nada. Nos demos conta de que algo grave havia se passado, não sabíamos o quê. Nos inteiramos da notícia no noticiário da tarde. Nos dias que se seguiram, Trótski abria de tempos em tempos a porta de seu quarto para pedir uma xícara de chá. Quando, alguns dias depois, saiu para pôr-se novamente a trabalhar, seus traços estavam devastados. Duas profundas rugas haviam se formado a cada lado de seu nariz e marcavam sua boca. Seu primeiro trabalho foi ditar uma carta pública dirigida ao Comitê Central do Partido Comunista Russo, na qual dizia recair sobre Stálin a responsabilidade pela morte de sua filha.
[...]
Os primeiros seis meses de 1933 marcaram, igualmente, uma grande mudança física em Trótski. Já relatei como, com a morte de Zina, duas rugas se formaram em seu rosto. A vida recomeçou seu curso, mas as rugas não desapareceram e, pouco a pouco, tornaram-se mais profundas. Quando cheguei a Prinkipo, em outubro de 1932, Trótski tinha, certamente, cabelos grisalhos, mas ainda tinha alguns fios pretos. O rosto e a cabeça ainda não eram tão diferentes dos visíveis nas fotografias de 1924 ou 1925. Nesses primeiros meses de 1933, os cabelos tornaram-se brancos. Com frequência, em vez de puxá-los exageradamente para trás, ela os penteava direto para o lado. Em poucos meses, quase em poucas semanas, ele adquiriu a aparência de que estava próximo à morte [2]

O suicídio de minha filha [3]

A todos os membros do Comitê Central do Partido Comunista da URSS
Ao Presidium do Comitê Executivo Central da URSS
A todos os membros da Comissão de Controle Central do Partido Comunista da URSS

Considero necessário informar-lhes como e porque minha filha se suicidou.

Em fins de 1930 vocês autorizaram, por pedido meu, minha filha, Zinaida Volkova, doente de tuberculose, a vir por um tempo à Turquia, acompanhada de seu filho Vsevolod [Stevan], de cinco anos de idade, para submeter-se a um tratamento. Não suspeitei que por de trás desta atitude liberal de Stálin se ocultava uma intenção ulterior.

Minha filha chegou aqui em janeiro de 1931, sofrendo de pneumotórax em ambos os pulmões. Após dez meses de estadia na Turquia, conseguimos obter – apesar da oposição constante dos representantes soviéticos no estrangeiro – permissão para que ela fosse se tratar na Alemanha. A criança ficou conosco na Turquia, para não incomodar a paciente. Após algum tempo, os médicos alemães consideraram possível remover o pneumotórax. A paciente começou a se recuperar e sonhava apenas com a volta à Rússia junto a seu filho, onde estavam sua filha e seu marido – um bolchevique leninista exilado por Stálin.

Em 20 de fevereiro de 1932 os senhores publicaram um decreto em virtude do qual, não somente minha esposa, meu filho e eu, mas também minha filha Zinaida Volkov, éramos privados de cidadania soviética. No país estrangeiro ao qual os senhores lhe permitiram viajar com um passaporte soviético, minha filha se ocupou unicamente de seu tratamento. Não participou da vida política, não podia fazê-lo devido a seu estado de saúde. Evitou qualquer coisa que pudesse lançar “suspeitas” contra si. Privar-lhe de sua cidadania foi apenas um miserável e estúpido ato de vingança contra mim. Para ela, esse ato de vingança pessoal significava estar separada de sua filhinha, seu marido, seu trabalho e tudo que constituía sua vida normal. Sua condição mental, já abalada pela morte de sua irmã mais nova e pela sua própria doença, sofreu um novo golpe, tanto mais atroz, tendo sido totalmente inesperado e de nenhuma maneira provocado por ela. Os psiquiatras declararam unanimemente que somente o retorno a seu ambiente normal, com sua família e seu trabalho, poderia salvá-la. Mas o seu decreto de 20 de fevereiro cerceou precisamente esta possibilidade de salvá-la. Todas as demais tentativas foram, como os senhores sabem, em vão.

Os médicos alemães insistiam em que, ao menos, seu filho fosse trazido a ela o quanto antes; nisso, viam ainda uma possibilidade de restaurar o equilíbrio moral da mãe. Mas, uma vez que a criança de seis anos estava igualmente privada de cidadania soviética, as dificuldades de sua ida de Istambul a Berlim se multiplicaram. Meio ano se passou em constantes mas infrutíferos esforços em diversos países europeus. Apenas minha inesperada viagem a Copenhague nos brindou a oportunidade de levar o menino à Europa. Com a maior dificuldade, ele realizou a viagem a Berlim em seis semanas. Ele mal havia estado com sua mãe a sequer uma semana, quando a polícia do general Schleicher [4], em conluio com os agentes stalinistas, resolveu expulsar minha filha de Berlim. Para onde? Para a Turquia? Para a ilha de Prinkipo? Mas o menino precisava ir à escola e minha filha tinha necessitava de atenção médica contínua e condições de vida familiar normais. Este novo golpe superou a capacidade de resistência da enferma. No dia 5 de janeiro ela se asfixiou com gás. Tinha trinta anos.

Em 1928, minha filha mais nova, Nina [Nevelson], cujo marido está mantido encarcerado em solitária por Stalin há 5 anos, esteve encamada e foi hospitalizada por um curto período após meu exílio para Alma-Ata. Foi diagnosticada com tuberculose aguda. Uma carta puramente pessoal, sem sequer a menor relação com a política, endereçada a mim foi retida pelos senhores por setenta dias, para que minha resposta não chegasse a ela ainda viva. Ela morreu aos vinte e seis anos.

Durante minha estadia em Copenhague, onde minha esposa iniciou um tratamento para uma doença grave, e onde eu mesmo me preparava para iniciar um tratamento, Stálin, por intermédio da agência [de notícias] TASS, enviou uma caluniosa denúncia à polícia europeia de que uma “Conferência Trotskista” se reunia em Copenhague! Isso foi suficiente para o governo socialdemocrata dinamarquês prestar a Stálin o favor de me expulsar com uma pressa febril, interrompendo os tratamentos de que minha esposa necessitava. Mas neste caso, como em tantos outros, a unidade de Stálin com a polícia capitalista tinha objetivos políticos. A perseguição de minha filha não teve nem um traço sequer de sentido político. Tirar-lhe cidadania soviética – perdendo a única esperança de retorno a um ambiente normal e se recuperar – e, finalmente, sua expulsão de Berlim (sem dúvidas um serviço prestado a Stálin pela polícia alemã) foram atos sem objetivo político, para uma vingança miserável e estúpida, e nada mais. Minha filha conhecia perfeitamente sua situação. Sabia que não podia estar segura nas mãos da polícia europeia, que a perseguia a pedido de Stálin. Consciente disso, sua morte se deu em 5 de janeiro. Tal morte é chamada “voluntária”. Não, não foi voluntária. Stálin impôs a ela tal morte. Limitou-me a informar, sem tirar conclusões. O momento chegará para isto. O partido regenerado o fará.

Leon Trótski
Prinkipo, 11 de janeiro de 1933

Tradução: Alexandre Alves.

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FOOTNOTES

[1Jean Van Heijenoort, Com Trótski: De Prinkipo a Coyoacán, “Prinkipo”.

[2Jean Van Heijenoort, Idem.

[4Kurt von Schleicher (1882-1934): general “socialista” do exército alemão, foi eleito chanceler em dezembro de 1932 e substituído por Hitler em janeiro de 1933. Hitler fez com que fosse assassinado no “expurgo sangrento” de junho de 1934.
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