Opinião

COLUNISTA

O rosto da rejeição a Bolsonaro: Mulheres, negros e nordestinos

A última pesquisa Data Folha sobre a popularidade do presidente Jair Bolsonaro expressou em dados o que conseguimos ver nitidamente na nossa realidade cotidiana. Somos as mulheres, negros e nordestinos a grande maioria entre os que rejeitam este governo.

quarta-feira 24 de março| Edição do dia

Segundo a pesquisa [1], entre as mulheres ouvidas, 61% apontam Bolsonaro como incapaz de governar o país. Entre negros (somando pretos e pardos, que a pesquisa da Folha divide), somos 45% os que declaramos este governo incapaz e entre nordestinos, 63% dos entrevistados.

Estes números não saltam ao acaso. Fechamos o ano de 2020, com o número de desempregadas sendo 45% maior entre as mulheres; no estado de Pernambuco, não só o desemprego é maior como também a recuperação dos postos perdidos na pandemia é mais lenta entre as mulheres - 99,5% dos que seguem fechados, eram postos de mulheres - .Dentre as categorias de trabalhadores mais golpeadas pela pandemia, estão o setor de serviços turísticos como hospedagem e alimentação e o setor de trabalho doméstico como os dois maiores prejudicados - ambas categorias representadas por uma esmagadora maioria de mulheres - .

No caso das trabalhadoras domésticas vale um adendo: representam a maior categoria de trabalhadores do país, com 6 milhões de pessoas, sendo 92% mulheres e destas, 68% negras [2], contingente de trabalhadoras que se viram em situação de extrema precarização durante a pandemia: dados de novembro/2020 mostram que 1 milhão e setecentas trabalhadoras domésticas perderam o emprego formal.

Em maio do ano passado, um dos piores meses da pandemia no país até então, o presidente [genocida] Jair Bolsonaro decretou o trabalho doméstico como “serviço essencial”, obrigando milhões a se exporem ao vírus. Como consequência disso, aqui na cidade do Recife, no dia 02 de junho de 2020 a trabalhadora doméstica Mirtes Renata, que trabalhava para Sarí Corte Real e Sérgio Hacker, então prefeito do município de Tamandaré pelo PSB, que vivem em um dos metros quadrados mais caros da cidade, no edifício Píer Maurício de Nassau, onde estão apartamentos que valem cerca de 2 milhões e meio de reais, foi obrigada a comparecer ao trabalho. Enquanto todos diziam que para se proteger do vírus era necessário ficar em casa, Mirtes teve que ir trabalhar. Mesmo com o risco de ser contaminada no trajeto de ida e volta. Mesmo tendo que levar seu filho Miguel Otávio para o trabalho pois por causa da pandemia, não estava tendo aulas. A história é conhecida de leitores do Esquerda Diário: Mirtes teve que sair para levar o cachorro dos patrões para passear, deixando seu filho Miguel sob a custódia da patroa, que julgou ser mais importante fazer as unhas do que cuidar da criança - a criança negra - por alguns minutos, deixando-o sozinho em um elevador e apertando o botão que o levou ao nono andar do prédio, de onde caiu.

O caso Miguel é um exemplo extremo da combinação do racismo da burguesia brasileira herdeira da casa grande com os níveis de precarização que atinge milhões de trabalhadoras. Frente aos dados de rejeição que se mostram ao governo Bolsonaro, não é coincidência que seja uma mulher negra, nordestina e trabalhadora doméstica em luta por justiça por seu filho, que se torne um dos principais símbolos da resistência antirracista que vem atravessando a pandemia no Brasil. Também se mostra que não foi um detalhe que a maior mobilização de trabalhadores que ocorreu durante a pandemia tenha sido dos entregadores de aplicativos, uma maioria de jovens, negros e moradores da periferia; ou que tenha sido aqui no nordeste, também na cidade do Recife, onde as mulheres colocaram a extrema direita bolsonarista de Sara Winter e Damares Alves para correr de frente do hospital onde uma menina de apenas 10 anos que sofreu por anos abuso sexual por parte de um parente precisou realizar um procedimento de aborto.

A precarização e informalidade que obrigam milhões a irem para as ruas todos os dias não são exclusividade do governo de extrema direita de Bolsonaro. Governadores como Dória (PSDB) em São Paulo tentou mandar crianças, adolescentes e professores para as escolas sem nenhum plano sanitário sério; Fátima Bezerra (PT) no Rio Grande do Norte se diz feminista, mas manteve o trabalho doméstico como “serviço essencial”, fazendo coro com Bolsonaro. assim como Paulo Câmera (PSB) em Pernambuco; Rui Costa (PT) na Bahia utiliza do toque de recolher para reprimir a juventude trabalhadora.

A pandemia deixou descoberto aos olhos como os efeitos da precarização do trabalho e das condições de vida impostas pelo capitalismo são muito mais nefastos sobre o corpo negro. Somos negras e negros maioria entre os que vivem em condições precárias, em casas onde não é possível se isolar, muitas vezes sem água encanada ou esgoto. Somos maioria entre os mortos pela polícia e também pelo Covid-19. É dado já conhecido que inclusive o acesso à vacina está cruzado pelo racismo: o número de brancos vacinados é ao menos duas vezes maior do que o número de negros.

Antes de Bolsonaro ser eleito, fomos milhões de mulheres nas ruas dizendo #Elenão, força que encontrou limites nas direções representadas pelo PT, que em lugar de apostar na mobilização independente da classe trabalhadora junto às mulheres, apostou em aliança com setores da direita como Kátia Abreu, senadora pelo progressistas e então candidata à vice presidente pela chapa de Ciro Gomes do PDT; e Ana Amélia, do mesmo partido e na época concorrendo à vice na chapa com Geraldo Alckmin do PSDB.

Por isso não nos impressiona, mas não deixa de ser algo que precisamos colocar nossa atenção, que a principal orientação do PT colocada por Lula em seu primeiro discurso após sua reabilitação política, é a de esperar 2022 e perdoar os golpistas. O desemprego das mulheres no nordeste e em todo o país não espera. A fome de quem receberá um auxílio emergencial de 150 reais em um país onde a cesta básica ronda os 630 reais também não. A direita através do senador pelo Ceará Eduardo Girão (Podemos) não está esperando para atacar os direitos reprodutivos de mulheres e meninas, tentando aprovar no senado o projeto de lei 5435/2020, trazendo de volta em nova roupagem o perverso “estatuto do nascituro”, que prevê entre outras aberrações uma “bolsa-estupro” para obrigar mulheres e meninas a levarem adiante gestações fruto de estupro.

A realidade que se impõe deixa explícito que não podemos esperar. Saídas como impeachment não é opção para nossa classe, pois além de legitimar esse mesmo regime golpista, já que seria avaliado e votado por esse congresso e esse STF, manteria a agenda do golpe à salvo e nas mãos do reacionário general Mourão. Precisamos confiar em nossas próprias forças - a da classe trabalhadora, esta que é composta por milhões de mulheres, negras, negros, nordestinos - e exigir das centrais sindicais CUT e CTB, dirigidas pelo PT e PCdoB e que juntas dirigem mais de 40 milhões de trabalhadores, que rompam com a paralisia que vem levando a acúmulos de derrotas sobre as costas da nossa classe e convoquem a mobilização por um verdadeiro plano de lutas a ser imposto através da nossa luta em uma verdadeira assembleia constituinte, que seja livre e soberana, que responda às necessidades da classe trabalhadora e setores oprimidos; onde emerja como sujeito político aquelas e aqueles que veem se mostrando como a vanguarda da força que pode derrotar esse governo, os golpistas que o sustenta e impor a anulação de todos estes ataques.

Termino com um resgate de Patativa do Assaré, que cantando o Ceará, certa vez disse: “se ser político é reclamar das injustiças. Então, eu sou político”.

[1] Pesquisa Data Folha de março 2021, disponível em http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2021/03/17/6879812ac6be2a83138f6379ef5711cdabsnr.pdf

[2] Pesquisa Ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, disponível em https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/TDs/td_2528.pdf




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