Teoria

HOMENAGEM A LEON TROTSKY

O ritual materialista e a distração

quinta-feira 20 de agosto de 2015| Edição do dia

Não é de se admirar a recepção crítica que os textos de Leon Trotsky sobre arte e cultura têm tido ao longo do século XX: de amplamente ignorados por parte substancial dos militantes e artistas, até aceitos como a palavra final em crítica literária por outros, eles constituem uma espécie de ponto cego da historiografia marxista, objetos nunca discutidos e raramente lidos. Apenas celebrados ou odiados. Triste fardo de um material tão rico, o de ser obscurecido pela cortina de fumaça dos pogroms estéticos do século XX.

Um fato notável deste “embaralhamento” historiográfico é que, mesmo os mais importantes biógrafos de Trotsky, como Isaac Deutscher e Jean-Jacques Marie, não trataram com o rigor necessário (ainda que sejam autores bastante relevantes em muitos momentos) as elaborações culturais do dirigente bolchevique: não estabeleceram os interlocutores de Trotsky em textos como “Literatura e revolução” (1924) e não analisaram as mudanças de posicionamento entre textos como “Questões do modo de vida” (1923) e outros subsequentes.

“Questões do modo de vida”, por exemplo, chega-nos hoje como uma espécie de manual para escoteiros bolcheviques sobre como não jogar lixo na rua ou outros “detalhes” absolutamente tediosos. Nada mais injusto. O livro, que é na verdade uma coletânea de ensaios, objetivava combater o psiquismo burocrático da maioria da cúpula partidária, que realizava a repressão do movimento operário em favor de um projeto de modernização acelerada, bem como lutar contra a cultura da NEP. Ele discutia a reorganização da cultura material na recém-criada URSS e inseria-se num debate aberto, meses antes, pelos artistas construtivistas. [1]

Mas não abordarei isso: o livro merece ser lido, e não resenhado – ao menos não aqui. Quero chamar a atenção do leitor, porém, para um aspecto que quase nos passa batido, e é um dos aspectos menos comentados deste já tão pouco comentado texto. Trata-se do posicionamento de Trotsky sobre a necessidade, para a produção de um novo tipo psíquico, da criação de rituais materialistas. A proposição poderia ser chocante para o leitor desavisado, e imagino-o esbravejando algo como: “Mas rituais são, por excelência, idealistas! São ligados à Igreja! Como poderia o bolchevique mor, braço direito de Lênin, propor uma besteira dessas?”.

Acalme-se, meu leitor imaginário: Trotsky mesmo não estava confiante destes termos, e entendia este aparente paradoxo como ninguém. Eu, por outro lado, acho o termo ótimo, pois ele será um precedente de algumas das ideias artísticas que julgo mais interessantes. Dirá Trotsky, para explicar este “absurdo” que propunha:

“Os argumentos teóricos agem apenas sobre o espírito, enquanto que a teatralidade ritual age sobre os sentimentos e a imaginação; a sua influência, portanto, é muito maior. É por isso que, no próprio meio comunista, torna-se necessário opor a esse antigo ritual [religioso] novas formas e um novo simbolismo, não só ao nível oficial em que já se encontram implantadas em larga escala, mas também ao nível da família.” (TROTSKY, 2009, p. 47)

Em “Questões do modo de vida”, a luta contra o ritual religioso estendia-se ao combate à cultura capitalista em seus diversos aspectos. O ritual materialista, proposto por Trotsky, opunha-se ao culto da mercadoria ou de Deus a partir da noção do ritual como distração. Conforme ele:

“O divertimento e a distração representam um enorme papel nos ritos da Igreja. A Igreja age por métodos teatrais sobre a visão, o ouvido e o olfato (o incenso!) e, através deles, age sobre a imaginação.” (Idem, p. 38)

Tratava-se, assim, da elaboração de um novo esquema ritualístico, que reordenaria em chave materialista os cultos capitalistas ou medievais. O líder bolchevique encontrava no cinema a matriz deste novo ritual. Ele seria um dispositivo privilegiado da distração, o meio “mais poderoso” e “mais democrático”, na medida em que sua recepção era pública e coletiva:

“O cinema não carece de uma hierarquia diversificada de brocados ostentosos etc.; basta-lhe um pano branco para criar uma espetaculosidade muito mais penetrante do que a da igreja, da mesquita ou da sinagoga mais rica ou mais habituada às experiências teatrais seculares. (...) O cinema diverte, excita a imaginação pela imagem e afasta o desejo de entrar na igreja.” (Idem, ibidem)

O conceito de distração, conforme elaborado por Trotsky, parece ser um precedente das noções de distração formuladas por Bertold Brecht na Alemanha de 1930 ou, ainda melhor, parece ter inaugurado a ideia sobre o cinema desenvolvida por Walter Benjamin, segundo o qual

“As técnicas de reprodução aplicadas à obra de arte modificam a atitude da massa a respeito da arte. Refratária, por exemplo, diante de um Picasso, esta massa torna-se profundamente progressista a respeito, por exemplo, de um filme de Chaplin”. (BENJAMIN, 2012)

A elaboração de “rituais materialistas”, portanto, deveria, conforme Trotsky, visar à politização por meio da distração, do envolvimento sensorial e da produção de uma nova “teatralidade”. Lembremos também que o espectador de um filme em 1920 era substancialmente distinto de um espectador dos nossos dias: eles levantavam-se, gritavam, vibravam com o filme. A ida ao cinema requeria, também, um engajamento corporal específico – fator que certamente entraria na equação de Trotsky sobre o novo rito. [2]

A construção de um sistema cultural crítico, conforme preconizado pelo bolchevique, deveria se estabelecer também por meios inconscientes, de reorientação do desejo social e de reformulação da sensibilidade. Tal ideia parece ter sido bastante influente no debate estético subsequente, como tentei argumentar brevemente.

Que poderia nos dizer tal ideia atualmente, quando nos encontramos tão distantes da experiência soviética? Em primeiro lugar, opino que desenvolver radicalmente a proposição de Trotsky implica em admitir que no pensamento do líder bolchevique existia um espaço para o reconhecimento do inconsciente como um fator estruturante e decisivo da vida social. Assim, não existe política sem desejo e sem o constante redirecionamento deste. Tal tese implica na derrocada de qualquer teoria da ideologia que a entenda como um fino véu de enganos. O “esclarecimento” do proletariado, portanto, será sempre um esforço político estruturalmente limitado, na medida em que a matéria prima da ideologia não são simplesmente as ideias, mas os rituais materiais nos quais as ideias se consubstanciam, que só podem ser combatidos efetivamente com a própria reordenação da cultura material.

Tais esforços foram realizados durante o processo revolucionário russo, com projetos arquitetônicos como o do Clube de Trabalhadores (1925) de Aleksandr Rodchenko, que visava promover uma nova lógica de circulação das pessoas nos espaços e uma nova relação dos trabalhadores com os móveis e objetos do Clube. Trotsky acompanhava tais experiências e tratava de algumas delas, precedentes, em “Questões do modo de vida”, comprometendo-se com a revolução cultural em curso.

A ideia de Trotsky parece fresca na medida em que põe em xeque, também, um certo modus operandi da militância. Não se trata de questionar sua eficácia ou importância, mas de apontar novos caminhos para a militância de esquerda, aparentemente hoje tão centrada em imperativos de racionalização, auto-balanços incansáveis e noções de convencimento que parecem simplesmente denegar os aspectos inconscientes do cotidiano, esses que estruturam o âmago das nossas práticas. Já é tempo, portanto, de revisitar “Questões do modo de vida”, material que permite uma visada mais totalizante do pensamento do líder bolchevique e de suas nuances.


Notas

[1] Trotsky vinculava-se, também, ao setor do proletariado que realizava uma revolução cultural na URSS, reelaborando os rituais de batismo, de casamento e de funerais. O historiador liberal Orlando Figes relatou que, desde 1918, alguns rituais religiosos como o casamento e o batismo foram espontaneamente secularizados. As descrições de Figes sobre tais processos, embora jocosas e difamatórias, mostram como, mediante o processo revolucionário, o proletariado russo reelaborava radicalmente o modo de vida. Ver FIGES, 1996, p. 747.
[2] Não posso deixar de lembrar que no primeiro kino-Pravda (“Cinema-Verdade”), série de documentários realizada a partir de 1922 sobre o cotidiano russo, o cineasta Dziga Vertov (1896-1954) registrou alguns camponeses confiscando os bens de uma Igreja Ortodoxa. Retrospectivamente, tal cena parecia sintetizar o projeto que Trotsky elaborava acerca de um novo ritual secular: o público, nas salas de cinema, praticava uma nova forma de ritual ao passo em que assistia à ruína da Igreja, dos antigos ritos, e dos rituais individualistas da cultura capitalista.

referências
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. Trad. Francisco Dea Ambrosis Pinheiro Machado. Porto Alegre: Zouk, 2012.
FIGES, Orlando. A people’s tragedy: the Russian revolution (1891-1924). New York: Penguin, 1996.
TROTSKY, Leon. Questões do modo de vida. A moral deles e a nossa. Trad. Diego Siqueira, Daniel Oliveira. São Paulo: Instituto José Luís e Rosa Sundermann, 2009.




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