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China | O regime de Xi Jinping sai em resgate da Evergrande em nome da estabilidade capitalista

O regime de Xi Jinping está combinando distintas manobras financeiras para salvar uma das empresas capitalistas mais importantes da China.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

quarta-feira 29 de setembro | Edição do dia

A Evergrande, gigante imobiliário chinês, anunciou a venda de uma participação de 19,93% no banco comercial Shengjing Bank a um conglomerado estatal por 10 bilhões de yuans (US$1,545 bilhão), que poderia ser o primeiro de vários movimentos para empresas ligadas a Pequim. O Shengjing Bank é um banco ligado à empresa de Xu Jiayin, dono da Evergrande, cuja dívida de US$300 bilhões coloca em complexa exposição instituições financeiras importantes como o Minsheng Bank.

A venda das ações fo destinada ao Shenyang Shengjing Finance Investment Group, que é de propriedade das autoridades públicas da cidade de Shenyang. Em uma declaração à Bolsa de Hong Kong, a Evergrande disse que sua participação no Shengjing Bank cairá de 34,5% para 14,57% após a transação de venda.

Xu Jiayin manterá uma participação de 15% no Shengjing Bank, que está "exigindo" que a receita líquida da venda seja usada para saldar passivos que o grupo deve ao banco, de acordo com um registro regulatório.

O regime de Xi Jinping está combinando distintas manobras financeiras para salvar uma das empresas capitalistas mais importantes da China. Diversas empresas governamentais e promotores imobiliários apoiados pelo estado, como a China Vanke Co. Ltd, a China Jinmao Holdings e a China Resources Land Co., foram “convidados” a comprar ativos da Evergrande para robustecer a arrecadação de fundos pela empresa. A burocracia do Partido Comunista Chinês espera que as compras de bens evitem, ou pelo menos reduzam, qualquer agitação social que possa ser gerada se a Evergrande sofrer um colapso desordenado.

Ademais, o Banco Popular da China (PBoC, o BC chinês) injetou 100 bilhões de yuans (US$ 15,46 bilhões) em recursos no sistema financeiro chinês através de operações de recompra reversa de 14 dias. É uma operação ordenada por Xi em pelo menos duas ocasiões anteriores, com injeções de 110 bilhões de yuans para dar liquidez ao sistema financeiro diante da crise imobiliária.

“Manter a estabilidade social e do setor financeiro ainda é o objetivo geral da política do governo chinês”, disse Nicholas Zhu, analista sênior da Moody’s Investors Service. “Com tantos pagamentos de cupons chegando até o final do ano, a venda de ativos não essenciais é a maneira mais eficiente de a Evergrande levantar fundos”, disse Steven Leung, diretor executivo da UOB Kay Hian.

A utilização de dinheiro público para a compra de ativos inessenciais dessa gigante capitalista chinesa é uma das formas de intervenção “indireta” levada a cabo por Xi Jinping. Outra ferramenta utilizada é a responsabilização de outras empresas públicas pelas obras inacabadas a serem realizadas pela Evergrande. A segunda maior empresa de desenvolvimento imobiliário tem ainda 800 projetos em quase 250 cidades da China, sendo que 1.6 milhão de apartamentos já foram vendidos sem terem sido entregues. Em um distrito da cidade sulista de Guangzhou, um departamento do governo local afirmou que as receitas de uma subsidiária da Evergrande devem ser colocadas em uma conta do governo para que "os interesses dos compradores de casas possam ser protegidos".

Como relatado pela agência Reuters, um punhado de empresas estatais já se prepara para arrebatar os ativos da Evergrande na cidade de Guangzhou, capital de Guangdong, uma das províncias mais industrializadas do sul do país. Em um exemplo emblemático, o Guangzhou City Construction Investment Group está perto de adquirir o estádio de futebol Guangzhou Football Club da Evergrande e projetos residenciais vizinhos.

A salvação da empresa se combina com a crescente pressão sobre Xu Jiayin. Xi Jinping busca um terceiro mandato no 20º Congresso do PCCh, a ser celebrado em 2022, e não pode aparentar aos milhões de desempregados e trabalhadores pobres da China que seus esforços se dirigem a salvar especuladores bilionários. Xu Jiayin se encontra “do lado errado” da campanha da prosperidade comum, que como discutimos em profundidade nesse artigo, tem como objetivos essenciais diminuir a enorme desigualdade social a fim de evitar explosões sociais que minem a estabilidade política num momento delicado do conflito entre Pequim e Washington, e expandir a capacidade de consumo da nova classe média e o potencial mercado interno chinês.

Isso não tem correlação com uma suposta campanha de expropriação dos capitalistas chineses, cujos segmentos mais ricos são parte cada vez maior dos processos de decisão política na China. A reacionária burocracia do Partido Comunista Chinês, com efeito, incorporou nas altas fileiras do partido-estado muitos dos principais magnatas do país (como Jack Ma da Alibaba, e Ma Huateng da Tencent), tendo a China superado confortavelmente os Estados Unidos em número de bilionários.

Visto com cuidado, esse tipo de reestruturação da Evergrande não é novo na China de Xi, e segue o padrão de empresas como a Huarong e a HNA, que foram alavancadas financeiramente pelo governo quando em crise. Nesse esquema de reestruturação, salva-se a empresa capitalista, mas pune-se a gerência. Chen Feng e Adam Tan, presidente e CEO da HNA, foram presos recentemente pela polícia chinesa, um destino que pode se abater sobre Xu Jiayin.

No caso da HNA, a empresa convocou uma reunião presencial e remota de "mais de 2.700 membros do partido, quadros e representantes do pessoal" que foi presidida por Gu Gang, um funcionário do governo de Hainan que foi nomeado presidente executivo da HNA e que lidera um comitê de trabalho responsável pela reestruturação. Em setembro, a HNA havia anunciado que, caso conseguisse sair com sucesso da falência, operaria como quatro unidades independentes focadas em aviação, operações aeroportuárias, finanças e comércio. A repartição da Evergrande é discutida também pelo governo. Em troca, a empresa sobrevive, com maior participação estatal, e preserva o lucro dos acionistas. Na China, como no ocidente, também há empresas “too big to fail”.

Isso é mais certo ainda tendo em vista a magnitude da Evergrande, cujo peso no conjunto da economia chinesa é muito superior ao de empresas como a Huarong e a HNA. O ramo imobiliário é responsável por entre 25-30% do PIB chinês, o que tornaria um default desordenado da Evergrande um problema de proporções que poderia infectar o sistema financeiro chinês, exposto em considerável medida à dívida da empresa.

A complexa situação do governo chinês tem aspectos conjunturais e estruturais. Conjunturalmente, é explicável porque Xi Jinping está reduzindo o impacto da queda da Evergrande, comprando seus ativos. O governo, que controla o setor bancário, quer infligir dor suficiente na Evergrande para mostrar que "está falando sério” sobre a necessidade do ramo imobiliário reduzir seus níveis de endividamento e cessar sua dependência do financiamento estatal. Mas, ao mesmo tempo, não pode admitir choques recessivos na economia, num momento de disputas internacionais acaloradas com Washington – que acaba de cerrar o acordo de submarinos nucleares com a Austrália e o Reino Unido, chamado AUKUS.

Os problemas estruturais são mais graves. A crise da Evergrande foi, em boa medida, “incentivada” pela política do governo chinês. No marco da crise econômica mundial, Xi Jinping está sendo obrigado a constatar que o ramo imobiliário não pode mais ser o principal motor dinâmico da China, como foi nos últimos 40 anos. O modelo de construção ininterrupta de infraestrutura e de bens imobiliários, que ajudou a quadruplicar o PIB chinês na década de Hu Jintao (2002-2012) parece ter chegado ao limite.

Em primeiro lugar, o quadro da demanda por imóveis urbanos mudou completamente desde a época em que Deng Xiaoping impulsionou as reformas pró-capitalistas, a partir de 1980 mas que adquiriram força na década de 90, responsáveis pelo maior boom imobiliário da história da humanidade. Depois de 30 anos em que milhões de trabalhadores deixaram suas aldeias rurais para as cidades, a maior migração da história humana agora diminuiu substancialmente.

Em segundo lugar, a população da China parou de crescer. Em 2020, nasceram apenas 12 milhões de bebês, contra 15 milhões em 2019, em um país de 1,4 bilhões de pessoas. A tendência poderá seguir na próxima década, algo que a burocracia do PCCh quer evitar ao preço de dificultar o acesso das mulheres ao direito ao aborto.

Em terceiro lugar, ao encolhimento das cidades e à redução populacional, se liga a mudança do padrão de crescimento chinês, que pós-2008 passou a transitar para centrar-se no mercado interno e na produção de alta tecnologia, afastando-se da dependência do investimento estatal em iniciativas industriais baseadas em trabalho intensivo, orientadas à exportação.

Assim, múltiplas forças estruturais estão operando na China, muito além da crise da Evergrande.

Xi Jinping não deseja ver uma comunhão de tormentas antes de ver garantida sua preservação no cargo de secretário geral do PCCh pelo terceiro mandato no 20º Congresso. Mas, como dissemos anteriormente, três crises podem disparar fora do controle. As greves operárias na construção civil, as mais numerosas em províncias como Henan, Guangdong e Jiangsu, podem se alastrar se a crise da Evergrande (e de empresas análogas como a Sunac China Holdings, de Zhejiang) sair do controle. A raiva popular diante da não entrega dos apartamentos prometidos pode levar a estragos muito maiores do que as vidraças da sede da Evergrande. Finalmente, um default desordenado da Evergrande pode desatar uma crise financeira, o “inferno de Dante” na cabeça de Xi Jinping (juros da ordem de US$84 milhões na semana passada não foram pagos, assim como de US$47 milhões essa semana).

A saga da Evergrande tem muita coisa a dizer sobre os problemas da China, a despeito da cegueira seletiva de certa intelectualidade stalinista.




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