Opinião

DENÚNCIA

O rapa de colarinho branco

terça-feira 12 de julho de 2016| Edição do dia

Não fale em crise, trabalhe. Esse é o lema dos grandes empresários com o velho discurso da meritocracia, quem se esforça, trabalha bastante, vence na vida.

Sabemos que esse pensamento é uma desculpa para o crescimento econômico e socia daqueles que nasceram em berço de ouro e tiveram as melhores oportunidades para expandir sua riqueza.

Para Mário Valadares, a história não foi diferente, o dono do Shopping Popular Oiapoque se orgulha de dizer que comprou o prédio onde hoje é o empreendimento com o único imóvel que recebeu de herança.

Mário desfez de um patrimônio familiar para expandir ainda mais sua riqueza. Filho de família tradicional e com três graduações, inclusive uma Internacional, não se importa em enriquecer as custas da exploração da classe trabalhadora.

Pessoas que tentavam conquistar o pão de cada dia através do ofício de camelô nas ruas de Belo Horizonte, se viram encurraladas por um esquema obscuro.

O empresário, cunhado do então prefeito, se apropriou do imóvel e usufruiu do projeto "centro vivo" e do novo código de posturas da prefeitura para transformar os camelôs em inquilinos de uma empresa privada.

O trabalhador informal,gente simples, modesta,tomando chuva e sol e correndo do rapa, resistiu inicialmente à criação do shopping, mas o reajuste do código de posturas tornava o camelô um criminoso caso não fosse para o shopping popular.

Acreditava-se que o empreendimento era de administração pública em prol de um bem comum, assinaram um contrato e se encaixaram no sistema. O que não sabiam, é que a partir de então o trabalhador informal, com sua rotina, cálculo dos próprios ganhos e meios de produção, ganhava agora um feitor, um patrão do qual não se podia fugir.

Inicialmente os aluguéis e condomínio tinham baixo custo, por volta de R $100, a medida que o shopping ganhou fama a exploração acirrou, o aluguel que nunca se baseou no Índice Geral de Preços ou Inflação, hoje custa em media R $1000, um dos metros quadrados mais caros da capital mineira.

Com os sucessivos aumentos, muitos camelôs deixaram o shopping, perderam suas lojas por inadimplência ou se viram obrigados a passar o ponto para imigrantes asiáticos.

Atualmente os melhores pontos de venda pertencem a chineses, os brasileiros ficaram com as lojas mais baratas.

Enquanto a economia do país ia bem, a classe C ganhava fôlego e consumia como se amanhã não houvesse, Mário explorava cada vez mais seus inquilinos. Criou até mesmo uma bandeira de cartão de crédito popular, que por sorte não deu certo.

O cunhado do prefeito que antes dizia ter apenas o imóvel de família, agora era dono do maior empreendimento popular do país, arrecadado milhões por mês, adquirindo novos e ainda melhores negócios. Uma outlet multimarcas, um hotel em Miami, um terreno próximo à praça da estação para ser a nova feira do mineirinho e sociedade em outro shopping popular.

Seu patrimônio não parava de crescer e sua ganância e exploração dos mais pobres seguia no mesmo ritmo.

Mário se sentia tão popular que resolveu se candidatar a vereador, declarou ao TRE um patrimônio até mesmo menor do que declarava à mídia sobre o valor do shopping Oiapoque, o trabalhador explorado ja conhecia o empresário, que por sorte não venceu.

Declarar bens anaixo do que tem,não é mistério para o empresário, a empresa JAL Resende Costa, administradora do shopping Oiapoque é registrada como empresa de pequeno porte,porém, sua arrecadação mensal é praticamente o montante do que é declarado como faturamento anual.

Mário não se contentou em transformar o prédio em um shopping popular e construiu no mesmo espaço um estacionamento.

Mais uma dor de cabeça para os inquilinos. Mário quer obrigar os trabalhadores a trabalhar os sete dias da semana em períodos de trabalho superiores aos praticados no comércio.

Abrir aos domingos se tornou obrigatório, em caso de descomprimento o shopping cobra uma multa de R $65 por dia.

As condições de trabalho não ajudam ao pequeno empreendedor, muitas vezes as lojas são geridas apenas pelo dono do ponto, sendo impossível fazer o horário de almoço ou ir ao banheiro e deixar a loja em segurança.

O terceiro e quarto andar não têm banheiros e o segundo conta apenas com dois sanitários para a praça de alimentação, clientes e trabalhadores.

Mário pouco se importa com a saúde ou a queda nas vendas de seus inquilinos. O negócio é explorar e imprimir sua autoridade.

Em 2007 um grupo de camelôs resolveu fazer uma vaquinha para comprar o shopping e a instituição ser realmente popular. O dono aumentou o preço e ninguém conseguiu comprar. O povo recorreu à assembléia de Minas, mas o processo não caminhou.

Semana passada o empresário tentou reprimir uma manifestação dos trabalhadores pelo fim do aumento abusivo do condomínio e aluguel. A manifestação foi forte, resistente e pacífica , mesmo com a presença ostensiva do batalhão de choque.

É preciso apoiar esses trabalhadores para que o comércio popular volte para as mãos do povo e atenda realmente o bem comum.




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