Opinião

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O que se esconde por trás do “fator Lula”?

De um dia para o outro, Lula, antes renegado pelas elites, ocultado pela Globo, difamado pelos tucanos, passou a ser reivindicado como tendo um efeito positivo para a política nacional. O “fator Lula” tem sido apontado como o responsável pela mudança de postura do governo Bolsonaro na questão das vacinas e das mascaras, pela saída de Pazuello e por uma renovada guinada ao centro. Mas o que é esse “fator Lula”, que de repente aparece tão poderoso, capaz de com um discurso fazer o que nem STF, nem Congresso, nem governador haviam feito até agora?

Thiago Flamé

São Paulo

quarta-feira 17 de março| Edição do dia

Nos permitam começar a explicação do fator Lula com uma pequena digressão histórica, bastante ilustrativa. Às vésperas da II Guerra Mundial Hitler fez uma ´serie de reuniões com o embaixador francês Coulondre. O embaixador Francês relata que na última reunião questionou Hitler: "Nós estamos tão convictos da nossa vitória quanto você da sua, mas já pensou que o verdadeiro vitorioso ao final da guerra pode ser o Sr. Trotsky?” Ao que Hitler teria retrucado furioso: “mas então por que França e Inglaterra deram a Polônia total liberdade de ação?”

Como os representantes de duas das potências mais poderosas do mundo cogitavam que o verdadeiro vitorioso da guerra na Europa poderia ser um homem exilado, perseguido, cujos apoiadores eram massacrados em todos os países? O próprio Trotsky explicou: “estes senhores gostam de dar um nome próprio para a revolução. Mas isso não é o essencial da conversa. ‘A guerra provocará inevitavelmente a revolução’ disse o representante da democracia imperialista para assustar o seu adversário, estando ele mesmo arrepiado até a medula dos ossos”.

Algo mais ou menos parecido ocorre nos dias de hoje, ao se falar tanto em fator Lula. Onde lemos “fator Lula” fez tal coisa, medo de Lula provocou tal recuo do governo, poderíamos substituir tranquilamente pelo termo “medo de revoltas descontroladas”. Pois essa é a verdadeira força social por trás do fator Lula.

Não que no caso Lula seja a expressão da possibilidade de revoltas populares como Trotsky era a expressão da revolução socialista, por isso a figura de Trotsky até hoje nunca foi “reabilitada”. Já Lula representa para as classes dominantes brasileiras a possibilidade de conter essas revoltas e evitar que ameacem a obra econômica do golpe institucional – isto é, as reformas e privatizações. Permite que os analistas da grande imprensa nomeiem o inominável, seu medo do movimento de massas, através de um figura de linguagem tranquilizadora: “fator Lula”.

Antes mesmo que os primeiros sinais de qualquer revolta social venham a tona com alguma força, quando essa é ainda apenas uma possibilidade inscrita na lógica e na dinâmica da situação, o processo de desvio já se expressa nesse deslocamento no campo semântico, que leva a identificar com a figura de Lula toda expressão de insatisfação popular com Bolsonaro que a direita neoliberal não consegue capitalizar. Dessa forma esperam, nas eleições de 2022, poder canalizar de volta a essas instituições carcomidas da decadente democracia brasileira a tempestade que se preparam para colher. O centrão, o PSDB, a Rede Globo já procuram se esconder embaixo do generoso guarda-chuva lulista.

Para barrar essa operação política que tenta expropriar nossa indignação antes mesmo que ela tome forma, é preciso em cada local de trabalho e estudo exigir das organizações de massas, sindicatos e entidades estudantis, que convoquem assembleias, que construam efetivamente uma grande jornada nacional de lutas. Nesse momento de indefinições e disputas políticas entre os de cima, a revolta por tanto tempo contida pode e deve tomar uma forma própria: a das greves, dos piquetes, das mobilizações, e manifestações da maneira que for possível nestes dias de explosão descontrolada da pandemia.

Em outros tempos, durante e logo após as jornadas de junho de 2013, o “fator ruas” era o que a classe dominante não podia deixar de nomear e temer explicitamente, até a operação Lava Jato conseguisse inverter essa relação. Se apenas o discurso de Lula parece ter provocado tantas mudanças e recuos por parte do governo que um ano de ações do Congresso e do STF não conseguiram, imaginem o que um dia de greve geral efetivamente construída nos locais de trabalho não poderia fazer.

Em 1939, no inicio da II Guerra Mundial, quando a Alemanha Nazi parecia invencível, Trotsky tirava viu neste simples dialogo a podridão que carcomia os dirigentes na burguesia, que não podiam evitar entrar numa guerra que sabiam que poderia selar sua derrota definitiva. Por isso se permitia olhar o futuro com justificado otimismo revolucionário mesmo no momento mais sombrio. O por que dessa derrota não ter se consumado extrapola completamente os objetivos desta nota. Aqui basta indicar que ela esteve colocada como possibilidade real quando o Reich que duraria mil anos começou a ruir.

Temos hoje tanta ou mais razão para olhar o futuro com otimismo revolucionário, vendo a burguesia brasileira se apressar tanto em lançar mão de sua carta mais forte, o único líder político do país com legitimidade para conter possíveis revoltas sociais. Se fazem isso é por que temem o que o futuro lhes reserva e tentam se preparar desde já. Nos preparemos também.




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