Opinião

DECLARAÇÃO DE BOLSONARO

O que mudou e o que continua na podre boca de Bolsonaro

Jair Messias Bolsonaro foi ao ar na noite de ontem (02). As palavras do reacionário presidente se agarraram ao seguinte contexto: os mais de 468 mil mortos por Covid no país e a tentativa do regime político em lavar suas mãos através da CPI, desgastando à conta gotas o governo; por outro lado, no Congresso e STF, é encaminhado conjuntamente pelos adversários na Comissão um verdadeiro pacote de ataques, entre privatizações e a reforma administrativa; não houve nada próximo à uma celebração da Copa América, ofuscada pelo principal fator político do momento, a demonstração de forças da classe trabalhadora e juventude no último sábado contra o governo.

quinta-feira 3 de junho| Edição do dia

Para quem a declaração falou?

Algumas características se mantiveram em seu discurso. Primeiramente, não vamos nos atentar à veracidade de suas afirmações, mas sim a lógica do conteúdo expresso pela podre boca de Bolsonaro. O governo mantém sua busca em combinar um discurso público “pró vacinação” - um recuo em relação à postura anterior do governo - à sua marcada política “pró-economia”, após a pressão de cartas e reuniões com magnatas do capital financeiro no início do ano e a a CPI da Covid nas últimas semanas.

Os dados sobre a vacinação no Brasil foram acompanhados pela defesa da liberdade econômica, em especial apoio aos proprietários do comércio e da educação privada, além dos ricos pastores, fiéis componentes da bolsonarista. Buscou também dialogar com os setores mais precários da classe trabalhadora que foram brutalmente atingidos pela crise. Bolsonaro faz uma lista de gastos federais com o auxílio emergencial, aos estados, municípios, e a esses setores do comércio. Aproveitou também para alfinetar Lula, ao dizer que o dinheiro despendido durante o auxílio equivaleria a 10 anos de Bolsa Família, e remarcar sua delimitação contra as alas do regime que se aglutinam por trás do STF e governadores que adotaram medidas de restrição de circulação.

Antes de voltar sua língua para os grandes capitalistas que também o sustentam, Bolsonaro aproveitou para listar - algumas listas surgiram no discurso de ontem - dados e informações sobre a suposta retomada econômica: emprego, PIB e crescimento no primeiro semestre de 2021 demonstrariam a recuperação. O primeiro bloco foi voltado à dialogar com a base de patrões e trabalhadores que compõem, diretamente ou não, o comércio brasileiro mais afetados pela crise - restaurantes, bares, turismo, da fé, etc, que conseguem lucros enormes através do trabalho precário, muitas vezes informal.

No segundo bloco, Bolsonaro direcionou sua língua para os grandes capitalistas nacionais e imperialistas, e apresentou mais uma lista, reivindicando a unidade com o centrão que comanda o Congresso Nacional, mas também as alas de deputados e senadores que se portam como opositores mas votaram todos juntos pelas seguintes medidas: “Nova Lei do Gás, Marco Legal do Saneamento, MP da Liberdade Econômica, Banco Central independente, novo marco fiscal. Realizamos também leilões de rodovias, portos e aeroportos”. Alegremente, Bolsonaro afirma que a Bolsa de Valores bateu recorde histórico, que a moeda brasileiro se fortaleceu e que as privatizações das estatais avançam. Adversários na gestão da pandemia, rivais em mercados, dominantes e subordinados, as grandes frações da burguesia, entre banqueiros, acionistas e especuladores, empresários bilionários ou as grandes mídias como a Globo, estão juntos por este programa de ataques de Bolsonaro.

Não faltaria também, embora a relação não esteja tão forte como antes, o diálogo aberto com a cúpula militar, ainda que de forma indireta, e também com os caminhoneiros. Os planos e obras de infraestrutura foram reivindicados pelo governo, São Francisco, rodovias e ferrovia. É o Exército brasileiro, como uma grande empreiteira, que vem ganhando verbas milionárias para estes projetos, nos quais os oficiais controlam o dinheiro e aumentam sua força social e política e os praças apenas executam as ordens.

As mentiras e mais mentiras

É uma obviedade que Bolsonaro nunca deu a mesma atenção ao combate à pandemia e à economia. O presidente desde o início da pandemia fez declarações obscurantistas, caçoou da doença, minimizou as mortes e ridicularizou as vítimas. Mas, na mesma medida que adotou uma política que no final das contas desejava o contágio em massa, também nada fez pelo lado trabalhador da economia, pelo contrário, decretou cortes nos direitos, diminuiu salários e deu a liberdade para a demissão em massa, por outro lado, os banqueiros receberam centenas de bilhões de reais. O mesmo que faz demagogia com os trabalhadores informais, implementou todos os ataques que aumentaram a informalidade, a uberização e precarização do trabalho nos últimos anos.

O Brasil só aparece em quarto lugar de vacinação no mundo caso seja considerado os números absolutos, uma outra deturpação do presidente. Segundo o Aos Fatos, o país aparece na 79a posição caso o percentual seja analisado em relação à população. Outra mentira é o pertencimento do Brasil a uma “elite” de cinco países que produzem vacinas, há muito mais. Essas deturpações servem para inflar a política sanitária do governo e defender-se da CPI, que é a principal medida de oposição institucional ao governo.

O governo deturpa também sobre os dados de recuperação econômica. Os 900 mil empregos criados, ou os mais empregos formais em 2020 que em 2019 são mentiras não só pela mudança metodológica do Ceged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) , como também desconsidera as milhões de demissões que ocorreram e os níveis recordes de desemprego que mês a mês atingem maiores patamares, além de que metade da população economicamente ativa está sem trabalho.

As estimativas do PIB de crescimento também estão longe de indicar recuperação econômica, e menos ainda da recuperação para os trabalhadores. Além de mentir, afirmando que o crescimento seria de mais de 4% (na verdade o Relatório de Mercado Focus divulgou 3,96%), tal afirmação desconsidera a queda vertiginosa da economia em 2020 e a estagnação nos anos anteriores. Os analistas burgueses esperam uma recuperação de fato, mas, como indica o superávit no comércio exterior neste primeiro semestre, puxado pelas exportações do agronegócio à China e o que dizem ser a aproximação de um novo boom das commodities, enquanto os latifundiários lucram trilhões, a população enfrenta o encarecimento da comida, a inflação, a crise hídrica anunciada que aumentará ainda mais os preços e as contas, a fome e o desemprego.

Uma declaração e uma nova situação

Bolsonaro apenas informou de maneira protocolar a decisão de que a Copa América terá o Brasil como sede. A declaração do presidente teve como uma reação imediata um dos panelaços mais fortes desde que eles se tornaram uma ferramenta política na pandemia. O defensismo do presidente, que passou por seu discurso inteiro lendo listas como se tivesse prestando contas à sua base social e também a seus adversários, indica que, apesar da esperada etiqueta e conduta mais formal, menos tosca e bronca que com toda certeza continuará nas duas declarações contidianas, ele foi obrigado a adotar uma postura mais recuada.

Da mesma maneira que Bolsonaro e aliados buscaram desde sábado fugir de qualquer comentário sobre as manifestações de sábado como o fogo foge da água (apenas comentários nada ofensivos sobre maconha), o dia 29 não apareceu em seu discurso, nem mesmo uma mínima crítica indireta. A ausência dessa crítica, assim como a falta de delimitações mais brandas às alas do regime que são oposicionistas da gestão sanitária, indicam o impacto político e de correlação de forças causados pelo evento de sábado.

Não é por acaso que, buscando manter seus apoios de poder, Bolsonaro recorreu a grande parte de seu discurso para mostrar as afinidades com as diversas alas do regime golpista. Golpistas, figuras políticas dos partidos burgueses tradicionais, liberais, as grandes mídias estão do lado de Bolsonaro quando se trata da agenda econômica, lhes agrada sua reivindicação das privatizações e ataques aos direitos trabalhistas, a continuidade da imposição do programa econômico e político do golpe. Por isso, apenas usam o impeachment por aquilo que ele é: um instrumento de desgaste e pressão para que o governo aplique as reformas que prometeu em sua campanha e pelas quais Bolsonaro foi levado ao poder pelas eleições manipuladas de 2018. Caso não cumpra tal programa como esperado, não por falta de vontade, mas por oportunismo eleitoral, Mourão será o resultado de um impeachment, dando uma nova unidade ao regime golpista para que os trabalhadores continuem a pagar pela crise.

É por isso que o Esquerda Diário defende que a saída deve se dar através da demonstração de forças da classe trabalhadora e da juventude na luta de classes, e não a aposta, como vem fazendo diversas correntes do PSOL, de que a CPI sirva como desgaste ou, pior, desviar o processos de lutas que podem se desenvolver a partir do dia 29 para uma saída institucional, protagonizada por figuras reacionárias e golpistas do Congresso e STF.

O protagonismo deve vir das mulheres, negros, jovens e trabalhadores que ainda enfrentam o divisionismo imposto pelas centrais sindicais e estudantis, como CUT e UNE, respectivamente lideradas por PT e PCdoB. Uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana imposta pela luta contra todo este regime podre em seu conjunto é uma alternativa para que os processos de luta não sejam desviados pelo Impeachment ou pelas eleições de 2022, que preservariam e dariam nova legitimidade a este regime do golpe, das reformas e privatizações.




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