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Análise | O que há por trás do desfile militar organizado por Bolsonaro e as Forças Armadas?

A chamada Operação Formosa, exercício militar realizado anualmente pela Marinha, ocorre no dia de hoje, 10/08. Longe de ser mais uma manobra militar corriqueira, a operação se dá no contexto de escalada da retórica golpista de Bolsonaro e dos militares em resposta aos ataques de parte do regime político, além de ocorrer em meio a votação da PEC do voto impresso, elemento central da política do governo nesse momento.

João SallesEstudante de História da Universidade de São Paulo - USP

terça-feira 10 de agosto | Edição do dia

Imagem: Reprodução/Twitter

O tema da Operação Formosa tomou as redes sociais e tem gerado uma série de questionamentos sobre sua realização. Isso porque vem combinada de uma série de fatores que agregam complexidade ao cenário político. Desde 1988, ano que marca a consolidação da Constituição pactuada com os militares na transição da ditadura militar, e que deu início a realização do exercício, a operação contará com dois fatos que poderíamos dizer inéditos: A participação das outras forças militares (Exército e Aeronáutica), e também um desvio de rota no trajeto em mais de 30 anos, justamente o desfile em frente ao Palácio do Planalto.

É evidente que uma ação desse tipo acende um alerta a todos nós. Como viemos analisando, o oficialato das FA segue sendo um dos principais pilares de sustentação do governo de extrema direita de Bolsonaro e seu clã obscurantista. Vimos Pazuello participar ilegalmente de manifestação convocada pelo presidente e ser inocentado pelo Superior Tribunal Militar, é também o governo com maior número de militares, da ativa e reserva, desde o fim da ditadura no país. Desde 2018 o Ministério da Defesa emite notas oficiais celebrando o golpe de 1964 e os gastos do Estado com os privilégios das altas patentes é também histórico.

Um fator com distinção de qualidade nesse cenário foi justamente o alinhamento entre militares como Walter Braga Netto, atual Ministro da Defesa, com a defesa do voto impresso auditável como condição para realização das eleições de 2022, sem o qual não ocorreria. Essa tem sido a principal política de Bolsonaro nesse momento, acusando as eleições de fraude e que tem gerado uma crise institucional, sobretudo com o judiciário pela via do TSE e do STF. No marco de um derretimento recorde da aprovação do governo, das denúncias de corrupção na aquisição de vacinas envolvendo também militares, e pesquisas apontando uma eventual derrota nas eleições de 2022, alegar fraude e ameaçar uma ruptura institucional atende aos interesses de ambos setores nesse momento.

Por um lado é funcional para Bolsonaro esse discurso porque arma um contra-ataque às forças opositoras do regime político que vinham de desgastar seu governo pela via da CPI, das notícias-crime tramitando nas instâncias superiores da justiça envolvendo o presidente e figuras do governo. O cálculo aqui nunca foi de causar uma derrocada de Bolsonaro, mas se utilizar desse debilitamento para discipliná-lo pelo avanço na agenda de ataques neoliberais e também de aumentar o preço equivalente à sustentação do governo em um momento de impopularidade recorde e atos de rua expressivos.

O importante de se notar nesse xadrez político da República do Golpe é que, tanto as denúncias do governo, como a própria retórica golpista estridente de Bolsonaro, falam muito mais sobre 2022 do que sobre o agora por assim dizer. Se a ideia da oposição institucional é desgastar o presidente e derrotá-lo em 2022, Bolsonaro se prepara para o cenário de eventual derrota com esse questionamento das eleições. Ao mesmo tempo, o discurso estridente serve para manter sua base social coesa e mobilizada e manter o atual presidente como ator político proeminente no ano que vem mesmo com revés eleitoral.

Já os militares definitivamente não se encontram em um correlação de forças favorável a um golpe militar de tipo clássico, mas ao mesmo tempo é inegável a ampliação da ingerência no regime político que protagonizam. Desde de o golpe institucional de 2016 tem tutelado as decisões políticas de maneira autoritária e encontraram em 2018 com Bolsonaro a chance de enriquecerem como nunca. O cálculo agora parece ir no sentido de demonstrar sustentação do governo e essa política de favorecimento de interesses militares, evitar um desprestígio com uma eventual deposição e também sinalizar claramente, mostrando os dentes e o poderio bélico, de quem quer que seja o presidente terá de lidar com o oficialato organizado e consciente dos seus interesses e de que não cederão maiores posições.

Esse recado se fez presente no dia de hoje, onde no contexto de uma votação importantíssima, e que Bolsonaro inclusive já declarou que é provável que perca, o desfile vem como uma forma de pressão aos parlamentares mascarada de um convite excepcional ao presidente e ao ministro da defesa para estarem presentes na operação. Mas mais do que isso, serve para marcar uma posição contundente de que os militares “chegaram para ficar” e demonstra o nível de degradação bonapartista do regime político brasileiro.

A influência dos militares no regime político podre e golpista do Brasil é tamanha que recentemente o imperialismo dos EUA, agora com o democrata Joe Biden, lançou mão de uma proposta de aprofundamento da “cooperação” militar entre os países para buscar angariar um aliado político de peso aos seus interesses na América latina. Nesse movimento podemos destacar o apoio dos EUA para que o Brasil se torne um sócio global da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e uma recente comitiva da alta cúpula do governo democrata no Brasil com membros do Departamento de Estado e do Conselho de Segurança dos EUA.

Se tratando da primeira proposta, confirmada pelos estadunidenses, é uma moeda de troca para a última tentativa de barrar a participação da Huawei, gigante chinesa de telecomunicações, no leilão do 5G no Brasil. Esse tema é de extrema sensibilidade para os interesses do imperialismo dos EUA e também da China em sua geopolítica. As FA brasileiras teriam acesso a equipamentos militares de última geração e a possibilidade do envio de tropas em missões internacionais, além da utilização de bases estrangeiras para treinamento, em troca os militares e o governo barrariam a China do leilão.

Já a reunião da comitiva parece não ter terminado muito bem, aparentemente a retórica golpista e o trumpismo de Bolsonaro e seu clã foram fator importante nisso. Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA acompanhado de membros do alto escalão do governo Biden, visitaram o Brasil para se reunir com Bolsonaro, Mourão e diversos de seus ministros para tratar dos interesses do imperialismo aqui e em toda América latina. O fato de Eduardo Bolsonaro ter se encontrado com Trump, além do anúncio de que participará de um evento pelos EUA com defensores da tese de que Trump é o vencedor das eleições de 2020, causaram extremo desconforto.

Vimos recentemente um episódio de questionamento da lisura das eleições nos EUA que chegou ao ponto da invasão do capitólio por fanáticos trumpistas que se recusaram a aceitar os resultados. Se por um lado a linha do imperialismo aqui é de evitar possibilidades disruptivas com uma eventual deposição do presidente, é notória a pressão extrema para “destrumpizar” sua gestão e refundá-la em maior alinhamento com os interesses democratas. As declarações de Sullivan sobre a confiança dos EUA no sistema eleitoral brasileiro passam um recado de que não aceitarão interferências no processo e sinalizam que as eleições de 2022 serão tuteladas pelo imperialismo com um nível de ingerência estrangeira cada vez maior, justamente para aprofundar os traços semi-coloniais e a subordinação do Brasil a seus interesses.

Esses são alguns breves apontamentos sobre elementos que se fazem notar por detrás desse desfile militar, como podemos observar apesar de não caracterizar a iminência de um golpe militar, o avanço do autoritarismo, da degradação do regime político e da ingerência externa do imperialismo dos EUA são evidentes. Mas é importante ver que combinado a tudo isso uma série de ataques tem avançado em caráter de urgência. A privatização dos Correios; a PL da grilagem; o “distritão”; a tramitação da reforma administrativa, são todas medidas que unificam esses setores do regime político em disputa interna nesse momento para descarregar a crise nas costas da população trabalhadora e pobre. E é justamente por isso que nossa luta deve ser independente, uma luta antiimperialista contra a interferência dos EUA na política, contra o autoritarismo de Bolsonaro e dos militares, mas sem qualquer confiança na justiça golpista que persegue ativistas como Galo e que junto aos partidos do Centrão apoiam ataques contra nós para colocar os lucros capitalistas acima das vidas.

Veja também: Liberdade para Galo e o enfrentamento ao autoritarismo judiciário

Mas a política do PT e de Lula, que se colocam hoje como principal oposição ao Bolsonaro, vai na contramão completa de uma luta independente. É sabido que o PT tem tentado abrir diálogo com a cúpula reacionária das FA, com diversos encontros que até agora parecem não ter rendido frutos ao projeto de conciliação petista. Os militares querem que em uma eventual vitória de Lula esse se submeta aos interesses dos militares, que por sua vez não querem saber de qualquer compromisso nesse momento com o petista. Além disso, são cada vez mais declarações de empresários e capitalistas em apoio a sua candidatura, o que já deixa bem claro para onde caminhará uma eventual presidência de Lula em aliança com reacionários como Sarney e Renan Calheiros.

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É urgente que possamos dar uma demonstração de forças contundente e que coloque esse projeto de país que unifica a direita e a extrema direita em cheque. Nesse sentido, nós do MRT e do Esquerda Diário propomos a todos os setores de esquerda a conformação de um Comitê Nacional que batalhe em exigência as Centrais Sindicais por espaços democráticos e assembleias de base em cada local de trabalho para preparar uma Greve Geral contra Bolsonaro, Mourão e os ataques. Dessa força social que se possa emergir uma alternativa política independente dos trabalhadores que não espere 2022, nem confie em uma candidatura de Lula tutelada pelos militares e em aliança com os reacionários que nos atacam. Batalhando por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que possa mudar não somente os jogadores, mas as regras do jogo desse regime político e a partir da nossa auto organização impor medidas de combate às crises em curso, de combate a fome no país, de reversão das reformas e ataques neoliberais que custam vidas as milhares no país.




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