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Peru | O que há por trás do chamado de Pedro Castillo pela unidade nacional?

Depois de ter sido reconhecido formalmente como o vencedor do segundo turno, Pedro Castillo Terrones, fez um chamado à construção de um "governo de unidade nacional" onde todos têm vez, esquecendo o papel nefasto dos grandes empresários e dos políticos a seu serviço, que são os responsáveis pela atual crise sanitária, econômica e política que o país atravessa.

quinta-feira 22 de julho | Edição do dia

O professor dirigente Pedro Castillo foi oficialmente proclamado na última segunda-feira, 19 de julho, como presidente do Peru. Isso ocorreu depois que o Júri Eleitoral Nacional (JNE) teve que resolver um número sem precedentes de contestações e apelações sobre registros de votação que foram apresentados pela Fuerza Popular com a finalidade de estender a proclamação da lista de vencedores. Esse prolongamento da proclamação dos resultados do segundo turno ajudou a direita e os setores empresariais a se aproximarem de Pedro Castillo, a tal ponto que o ex-dirigente docente acabou mantendo à frente do Banco Central de Reserva ninguém menos do que Julio Velarde, um dos mais conspícuos representantes do neoliberalismo peruano.

É com base neste curso que Castillo, após ser oficializado como vencedor da votação de 6 de junho, em sua conta no Twitter fez um chamado para esquecerem os borrões e pediu uma folha em branco, chamando para "construir juntos um Peru inclusivo". Estas declarações vão ao encontro do breve discurso que proferiu minutos antes onde havia assinalado que: “Invoco os nossos adversários políticos e agradeço por terem se aproximado. Invoco a dirigente da Fuerza Popular, senhora Fujimori, para que não coloquemos mais barreiras nesta caminhada e não coloquemos mais obstáculos para fazer este país avançar”.

Desta forma, fica evidente o que a imprensa já havia anunciado em relação ao fato de que, após o segundo turno, Castillo se relacionou intimamente com figuras da direita política nacional como Daniel Salaverry, George Forsyth, Ollanta Humala, Julio Guzmán, entre outros.

Da mesma forma, Castillo chamou a Keiko Fujimori para "trabalharem juntos pelo país". Este chamado representa não apenas um aceno para o fujimorismo, mas também uma abordagem do que este setor representa em questões econômicas. A isto também se deve o chamado a Julio Velarde e as declarações de seu assessor econômico Pedro Francke para manter intacto o capítulo econômico da constituição de 1993 e a própria constituição, que é a principal camisa de força a serviço dos grandes empresários, que legaliza o saqueio do país e a precariedade dos trabalhadores.

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Tudo isso tem a ver com a estratégia de conciliação de classes baseada na construção de um “governo de unidade nacional”, que tanto Pedro Francke do novo Peru quanto a esquerda reformista e stalinista, propõem como a saída de fundo para a atual crise política econômica. Este posicionamento de Castillo caiu bem nos setores estruturalmente ligados ao grande capital, por isso suas últimas declarações foram aplaudidas por diversos meios de comunicação, que até poucas semanas atrás usavam suas plataformas para implementar campanhas racistas e macartistas contra o professor cajamarquino e seus eleitores.

Em outro ponto de seu discurso, Castillo disse: “Neste momento chamo a unidade mais ampla do povo peruano, chamo à unidade para forjar e abrir a porta para o próximo Bicentenário, selando este Bicentenário com todas as suas diferenças, com todos os seus problemas e com tudo o que vivemos [...] Nesse baú não há ressentimento, não há indiferença, assim como em todos os companheiros e irmãos que sempre sabem que o Peru vem primeiro, que vocês vêm primeiro, que em primeiro está a raça peruana. Os peruanos estão em primeiro lugar, primeiro a gente”.

Esta chamado abstrato de unidade nacional baseado na defesa de uma suposta “raça peruana” ignora as grandes desigualdades sociais que existem no país, que foram aprofundadas com a implantação de 30 anos de neoliberalismo, que não só permitiu a superexploração e o desemprego de milhões dos trabalhadores, mas também promoveu a pilhagem dos recursos naturais, a poluição ambiental e a descapitalização do Estado através do pagamento fraudulento da dívida externa. É em decorrência da hegemonia neoliberal que os diversos poderes do Estado, os funcionários públicos e as principais lideranças políticas acabam servindo de forma contundente aos interesses do empresariado e, com isso, a corrupção se tornou lugar-comum.

É justamente esse modelo econômico e esse regime político sustentado na Constituição de 1993, que agora está em crise, e é justamente essa crise orgânica que levou Pedro Castillo à presidência da República. Por isso, seu posicionamento atual e o fato que em seu discurso após a oficialização da sua vitória não tenha dito absolutamente nada sobre a mudança da Constituição via Assembleia Constituinte e não tenha questionado o neoliberalismo e os grandes empresários nacionais e estrangeiros, é contraproducente com a vontade e as expectativas de seus eleitores.




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