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América Latina | O que explica os protestos recentes no Equador?

Na última semana, duas manifestações ocorreram no Equador contra o aumento do preço do combustível e a possível privatização do setor energético. O plano de ajustes proposto por Guillermo Lasso é consequência de uma política neoliberal que se subordina às exigências do FMI, mesmo que isso signifique a piora de vida da classe trabalhadora equatoriana.

quinta-feira 4 de novembro | Edição do dia

O presidente do Equador, Guillermo Lasso, há pouco tempo atrás contava com uma aprovação de 70%. Hoje, três meses depois, o que se vê é uma aprovação de somente 34% e o rechaço do povo equatoriano ao seu Governo, que se expressou em dois protestos durante a última semana. Quais são os fatores que explicam essa mudança de cenário?

O fator principal que explica tamanha mudança é o plano de ajustes proposto por Guillermo Lasso para cumprir acordos com o FMI. O presidente, um banqueiro neoliberal que está sendo investigado por aparecer nos documentos vazados pela pandora papers com empresas no Panamá, não parece se preocupar com os efeitos do ajuste na vida da classe trabalhadora: um aumento de quase 20% no preço dos combustiveis já foi sentido pela população.

Além disso, o ajuste abre espaço para a privatização do setor elétrico. O Governo neoliberal não satisfeito, ainda planeja uma série de reformas, como a reforma trabalhista, que levaria a maior precariedade nos postos de trabalho. Por enquanto, as 13 das 137 cadeiras que o Governo controla no congresso não foram suficientes para avançar em tal reforma.

O aumento do custo de vida, a intenção de passar reformas que prejudicariam os trabalhadores equatorianos somados à crise do coronavírus explicam os protestos convocados pela maior central sindical equatoriana, com adesão de setores rurais e indígenas. As manifestações têm como “herança” a rebelião de 2019, onde a classe trabalhadora e os indígenas foram destaques na luta, fazendo tremer o governo de Lenin Moreno que, assim como Lasso, buscava aplicar uma série de ajustes. As manifestações estão longe de ter o mesmo peso, mas são uma demonstração de que o espírito de 2019 pode ser retomado.

Durante os protestos que se deram na terça-feira (26/10) e na quarta-feira (27/10), uma série de estradas foram fechadas pelos manifestantes. Os mais diferentes setores: trabalhadores, povos originários e estudantes compartilhavam lado a lado os piquetes.

A resposta do governo que se diz “aberto ao diálogo”, foi de repressão. O estado de sítio declarado sob o pretexto de combate ao narcotráfico, facilitou o aumento do aparato policial e militar nas ruas, o que levou a mais repressão aos manifestantes, e inclusive, à imprensa.

Imprensa sendo reprimida pela polícia de Lasso

Recentemente, Guillermo Lasso foi visitado por Antony Blinken, Secretário de Estado dos Estados Unidos, onde Blinken elogiou a “democracia” equatoriana. Diferente de Bolsonaro, que apesar de ter um governo neoliberal, precisa ser constantemente disciplinado pelo Partido Democrata por seus traços trumpistas, o governo neoliberal de Lasso é visto como um aliado mais imediato numa região importante onde a disputa estratégica de Estados Unidos e China vêm ganhando cada vez mais traços concretos.

Os ataques de Lasso e a indignação do povo equatoriano abrem a possibilidade de uma nova rebelião como a de 2019. As próximas semanas serão definitivas para apontar qual vai ser a resposta dos trabalhadores: se será lutando na rua contra os ajustes do FMI e de Lasso, ao lado dos povos originários e dos setores rurais, ou se será passiva, com a aprovação dos ataques. Nesse sentido, as centrais sindicais terão que ter uma política consequente, que permita à classe trabalhadora colocar seus métodos de luta em prática, diferente do que se deu no Brasil com a aprovação da Reforma Trabalhista em 2017, onde parte das centrais sindicais como a CUT e a CTB traíram os trabalhadores e aceitaram os ataques sem lutar.




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