Opinião

ANÁLISE NACIONAL

O que está por trás da carta dos 500?

Mais que uma ruptura taxativa, a carta mostra tensões e divisões em setores da classe dominante, fissuras que precisamos aproveitar para resistir a todo o regime do golpe institucional.

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 22 de março| Edição do dia

A jornada amanheceu com a notícia, já divulgada em alguns meios financeiros no final de semana, de que 500 banqueiros, empresários e economistas haviam assinado carta de exigência de implementação de medidas eficazes contra a pandemia do coronavírus.

A carta continha sugestões de medidas tais como a aceleração da vacinação, o uso de máscaras, implementação do distanciamento social, e a conformação de uma coordenação entre entes federativos para atuar como comitê de emergência na pandemia (caso o Ministério da Saúde não o assumisse, um consórcio de governadores deveria fazê-lo, segundo os que assinam a carta). Depois de quase 300 mil mortos e a cumplicidade com Bolsonaro e o regime do golpe institucional (governadores, militares, STF, parlamentares) na organização da catástrofe, esses capitalistas surgiram para dispensar a responsabilidade própria. Sobre isso, tratamos aqui e aqui.

Mas o que está por trás da carta publicada? Há setores graúdos da burguesia urbana que de fato rompem com o governo Bolsonaro, ou não se chega a tanto? Quais são esses setores?

O número de abaixo-assinados (500) chama a atenção, mas devemos olhar com calma para a qualidade das assinaturas. Não há empresários de monta que assinam essa carta, que não colheu apoio nos altos cumes das federações industriais de São Paulo (Fiesp) ou do Rio de Janeiro (Firjan). Do ponto de vista qualitativo, o setor mais importante que encabeça a carta de pressão é composto pelo Itaú Unibanco e representantes ideológicos do tucanato no período do Plano Real (Pedro Malan, Pérsio Arida, Armínio Fraga, etc.). Esses são os principais articuladores, ambos que não nutrem pela figura de Bolsonaro um carinho especial, para além do amor dedicado aos ajustes que aplica junto ao Congresso e ao STF. A presença desse setor vultoso do capital financeiro é, portanto, determinante, e mostra divisões importantes dentro desse segmento da classe dominante. Nomes importantes da classe dominante, como Luiza Trajano, apesar de não figurarem na carta, apoiam seu conteúdo (no caso da magnata do Magazine Luiza, há seu próprio projeto político).

Agora, que setores do capital financeiro? O próprio contingente do capital financeiro presente chama a atenção pela falta de variedade. O Itaú, maior banco privado do Brasil, colocou peso no documento: Roberto Setúbal e Moreira Salles, co-presidentes do conselho de administração do banco, e Gustavo Loyola, que era do comitê de auditoria do Itaú. O banco suíço Credit Suisse também figura com destaque, tendo as assinaturas do presidente da instituição, José Olympio Pereira, o presidente do conselho de administração e também ex-presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, e a economista-chefe do banco, Solange Srour. Basicamente, termina aqui o rol dos bancos na carta. Não estão presentes diversos bancos privados de peso que atuam no Brasil: Bradesco, Santander, Votorantim, BTG Pactual, Banco Safra e XP Investimentos, para mencionar os maiores, logo em seguida do Itaú. Esse dado é tão importante quanto as presenças, já que mostra que o setor financeiro está longe de alcançar homogeneidade nessa política. Ao menos, converte em exagero a ideia de uma “ruptura da Faria Lima” com o Palácio do Planalto.

Recentemente, ao final de janeiro, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, deu entrevista ao Estadão anunciando que o segundo maior banco do Brasil é contrário à saída de Bolsonaro, questionando inclusive a viabilidade de um novo auxílio emergencial.

Desse ponto de vista, ainda que o descontentamento seja maior em segmentos do capital financeiro, Bolsonaro não parece ter perdido apoio naqueles que o sustentavam. Ao menos, não aparenta haver um movimento de ruptura mais coordenado entre as principais instituições financeiras privadas do país. Internacionalmente, as preocupações são comunicadas mais através de advertências do que de exigências terminantes.

Talvez por isso a carta não seja taxativa sobre que medidas políticas pretende defender para enfraquecer Bolsonaro, uma intenção que atravessa todo o conteúdo. O que fica claro é que apostam nos governadores (“consórcio de governadores” contra a pandemia), pilares do golpismo institucional para desgastar Bolsonaro. Mas não há referência a, por exemplo, um processo de impeachment.

Indo ao setor produtivo. Na carta, há entre eles Pedro Parente, presidente do conselho de administração da BRF, que detém as marcas Sadia e Perdigão, e Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo e hoje presidente-executivo da Ibá (entidade que representa a cadeia produtiva de árvores, papel e celulose). Entre os investidores que endossam a mensagem estão Luis Stuhlberger, sócio da Verde Asset, que administra um dos fundos mais rentáveis da história do Brasil, e Fersen Lambranho, presidente do conselho de administração da GP Investments, que tem mais de US$ 5 bilhões (R$ 27,5 bilhões) aplicados em 17 setores.

Como vai acima, os empresários presentes, apesar da importância dos acima referidos, não chega aos cumes do “PIB” do setor. Paulo Skaf, presidente da Fiesp, chegou ao cúmulo de dizer que Bolsonaro “tem grande preocupação em ver a população vacinada”, depois de encontro com o presidente no início de fevereiro. Segundo Skaf, o setor privado organizado na federação se colocou à disposição para “ajudar no que for necessário” para a campanha de vacinação que nunca veio nem foi hierarquizada por Bolsonaro ou pelos governadores. Bolsonaro, em troca, nomeou Skaf, a 19 de fevereiro, como “Conselheiro da República”, cujo papel oficial é assessorar o presidente em momentos de crise. Já a Firjan manteve sempre bom trânsito com Bolsonaro.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, é famoso por participar de caravanas com Bolsonaro pelo país, para demonstrações de afeto entre os industriais e o presidente da extrema direita.

Para além da desfaçatez do setor empresarial, uma coisa parece certa: não há rupturas vindas daqui também.

Naturalmente não falamos nas grandes empresas do agronegócio, fiéis adeptas de Bolsonaro e fiadoras da sua popularidade nos interiores do país, especialmente nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Essa correlação de forças, expressa na carta, é um ponto importante para analisar as fissuras que rondam determinadas frações da classe dominante. Na carta, a comunhão entre os mandarins do Itaú com economistas ligados ao PSDB busca enfraquecer Bolsonaro como forma de preparar um político da direita tradicional que bloqueie um segundo turno entre o atual presidente e o ex-presidente petista, Lula. Esse movimento, no atual panorama político, parece preponderar. Mesmo por parte desse segmento do mercado financeiro, mais do que uma ruptura taxativa, o que a carta expressa é um sério tiro de advertência que prepare eventuais rupturas, caso a situação saia de controle.

É inegável que para esse setor da classe dominante, houve muitos ganhos com os ataques aprovados no governo Bolsonaro. Lucraram com a reforma da previdência, com as privatizações, com a PEC Emergencial, com a imposição da autonomia do Banco Central, entre muitos outros ajustes que se combinam com a já aprovada reforma trabalhista (durante o governo Temer, 2016-2018). Poucos setores das finanças estão dispostos a movimentações políticas bruscas que causem impacto nesses planos.

Mas essa carta de banqueiros, economistas e empresários traz, sim, um elemento a mais de preocupação parra o governo. Como tiro de advertência, revela que há fissuras e divisões no setor das finanças, agora abertamente. Essa fissura envolve o maior banco privado do país, e instituições internacionais como o Credit Suisse. Poderá ganhar terreno? Tudo depende dos efeitos sociais da catástrofe sanitária organizada pelos capitalistas, e da crise econômica.

Já tratamos em outras análises sobre a previsão de conflitos sociais e tensões de classes que podem, eventualmente, colocar o Brasil não apenas no centro da crise pandêmica mundial, mas no centro da luta de classes. O Paraguai, que se mobiliza contra o presidente direitista Mario Abdo Benítez, é um exemplo próximo de mais para ser ignorado. Não apenas o FMI projeta tensões sociais agudas na América Latina, fruto da longa onda da COVID-19, mas articulistas como Marcelo Coelho antecipam a mesma tendência de lutas de classes no Brasil: “A Covid não impediu protestos em Hong Kong e no Chile (democracia e Constituinte), na Polônia e na Argentina (pelo aborto), na Bulgária (contra a corrupção), nos Estados Unidos (contra o racismo policial) e, agora, no Paraguai (contra a gestão da crise sanitária). Na eventualidade de manifestações contra Bolsonaro, há o risco de tudo ser visto como contraditório; aglomerar-se, por aqui, é coisa de bolsonarista. Não necessariamente; se os manifestantes saem com máscara e não se amontoam, é difícil confundi-los com a boiada fascista. Seja como for, não tenho dúvida de que manifestações irão acontecer, gigantescas, assim que amainar a pandemia”.

Um cenário semelhante poderia empurrar a “rupturas da Faria Lima”, mas não necessariamente seja necessário chegar até aí. O ciclo mórbido de quase 3 mil mortes diárias pelas COVID-19, e o aprofundamento da crise econômica, que jogou o Brasil nos resultados da década perdida de 1980 após a queda de 4,1% do PIB em 2020, podem ser detonadores.

Diante disso, o programa seria esperar que o mundo das finanças decida nossos destinos? O capital financeiro foi o sustentáculo econômico de toda a agenda do golpe institucional. Os governadores, o STF, os parlamentares, os militares, todas essas instituições golpistas estiveram a serviço dessa burguesia para garantir seus superlucros, e não em menor medida que Bolsonaro, a partir de 2018. Os “dissidentes” do mundo financeiro estão ou com os governadores, ou nos bastidores embaralham um saída com o reacionário general Mourão. Diante disso, Lula e o PT prometem mais alianças com a direita golpista, e ao atacar Bolsonaro querem atrair a seu seio o mesmo capital financeiro que lhes exige silêncio sobre as reformas trabalhista e da previdência. Silêncio religiosamente observado por Lula.

Ao contrário da política do PT de reintegrar-se ao regime do golpe, precisamos combatê-lo já. Não podemos esperar 2022, muito menos nos fiar dos movimentos do capital financeiro, como incrivelmente faz certo espectro da intelectualidade que se reclama de esquerda. As batalhas contra os efeitos da pandemia do coronavírus, o desemprego e os ataques econômicos dos golpistas devem andar lado a lado com a defesa dos nossos direitos democráticos. Essa batalha exige um programa emergencial contra a crise sanitária que ataque os capitalistas (ver aqui) e envolve para nós a imposição pela luta de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana como saída independente de todas as alas desse regime golpista, que permita ao povo desfazer todos os ataques e reformas impostas desde o golpe, e decidir sobre medidas para atacar todos os problemas sentidos pela maioria do povo.




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