Política

ELEIÇÕES VITÓRIA 2020

O que está em jogo no segundo turno entre Pazolini e Coser e qual a saída para a esquerda?

Pazolini é um reacionário que merece todo rechaço, chegou a invadir hospitais durante a pandemia. Mas não podemos apoiar politicamente o PT de Coser por trás do fundamento de um “mal menor”. A política de conciliação de classes do PT abriu espaço para a direita nacionalmente e mesmo em Vitória quando Coser governou.

sexta-feira 20 de novembro| Edição do dia

Imagem: Reprodução/ Jovem Pan

Nas eleições do 1º turno, que aconteceram no domingo (15), foram para o segundo turno o Delegado Pazolini (Republicanos), que teve 30,95% (53.014) dos votos válidos e João Coser (PT), que teve 21,82% (37.373) dos votos. Os dois irão decidir a eleição no dia 29 de novembro. Segundo dados do TSE, as eleições em Vitória tiveram 25,46% de abstenção, 4,09% votos brancos e 4,54% votos nulos.


Imagem: Reprodução Facebook

O desafio de Pazolini é mostrar que não representa o Bolsonarismo e pode representar renovação, tendo em vista que Vitória está entre as capitais onde o governo Bolsonaro é reprovado pela maioria da população, segundo pesquisa do Ibope divulgada em outubro. Uma tarefa inglória para quem é um reacionário em toda a linha. O Lorenzo Pazolini, candidato do Republicanos, partido da Igreja Universal e de Crivella, é delegado de polícia e atual deputado estadual. Apesar de não declarar apoio ao Bolsonaro abertamente, por uma questão de estratégia, foi um dos deputados a invadir o Hospital Dório Silva, na Serra, para filmar os leitos destinados a pacientes de Covid-19, após Bolsonaro ter feito esse pedido para seus apoiadores, colocando em risco pacientes e servidores públicos ao quebrar os protocolos sanitários e transitando em áreas somente permitidas para funcionários.

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Importante recordar que Pazolini, junto com a comitiva que Damares Alves enviou ao Espírito Santo para acompanhar o caso da menina de 10 anos que sofreu estupro desde seus 6 anos durante quatro anos, tentou impedir em reuniões que o aborto fosse realizado, mesmo sendo autorizado por lei em casos de estupro e risco de vida. Esse candidato que destila seu ódio às vítimas do coronavírus, às mulheres do estado governará junto ao empresariado contra os trabalhadores e o povo pobre.
Não é de agora que Pazolini tem uma relação harmoniosa e amigável com Damares Alves. O mesmo já homenageou a ministra, a qual se pronuncia contrária aos princípios fundamentais dos Direitos Humanos, com a admissão da “Comenda Ordem do Mérito Domingos Martins”, honraria mais importante que um cidadão pode receber da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Diversos grupos se manifestaram em frente à Assembleia para repudiar tal ato, que foi declarado pelo Pazolini como sendo um protesto “a favor da pedofilia”.

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Como se não bastasse isso, Pazolini também tem uma relação um tanto “familiar” com Magno Malta, seu padrinho político, que mesmo após ser derrotado nas eleições de 2018, manteve um contato próximo com o delegado. Pazolini retribuiu a “amizade” nomeando a filha de Magno Malta, Magna Karla Santos Malta, para trabalhar em seu gabinete, com salário de R$4.900,00.

Esse delegado é um representante do braço armado do Estado e da militarização da política no ES, mais um sinal para a esquerda que se trata de uma utopia buscar humanizar esse braço armado do Estado e achar que estão ao lado da classe trabalhadora. Quando em todas as partes do mundo ocorreram levantes com a fúria negra a partir da morte de George Floyd, questionando profundamente o papel dessa instituição racista e assassina que é a polícia, expulsando policiais dos seus sindicatos, demonstrando o que deveríamos fazer e por que desmistificar o senso comum da humanização polícia.


Imagem: PT

O desafio de Coser será continuar enfrentando a alta rejeição da capital ao PT e ao Lula, tendo em vista que o antipetismo é forte no universo para além dos que votaram em Coser e setores da vanguarda regional tem repudiado bastante as coligações que o PT anda fazendo, até mesmo com o PSL.
O João Coser, candidato do PT, que já foi prefeito de Vitória durante 2005-2012, busca reconquistar a prefeitura, onde o partido não governa desde 2012. Coser foi denunciado em 2015 por licitação ilegal de quiosques em Vitória, e em 2016 foi citado na delação premiada de Fernando Moura para a Lava Jato.

O índice de Gini, que mede a concentração de riquezas, de 2000 a 2010 dimensiona uma Vitória mais desigual. Em 2000, o dado que vai de 0 a 1 era de 0,5853 e em 2010 de 0,6124. Quanto mais próximo de um, mais as riquezas estão concentradas em menos mãos, um indicador que os trabalhadores pagaram pela crise no ES e os capitalistas se tornaram ainda mais ricos. O candidato do PT tem parte de responsabilidade nisso, por ter governado por metade da década, durante dois mandatos.

Anos depois, foi também secretário estadual de Saneamento e Desenvolvimento Urbano, porém os esgotos continuam sem tratamento. Só em 2017, aconteceram mais de 26.570 vazamentos de esgoto na Grande Vitória.

Nas eleições, Coser tentou formar alianças com a REDE, PCdoB, PDT e PP, mas sem sucesso. Isso mostra o desespero do PT em reeditar sua política de conciliação de classes com partidos abertamente golpistas inclusive, partindo para o vale-tudo eleitoral e se coligando até com o PSL, antigo partido de Bolsonaro, em outras cidades.

O PT administrou por 13 anos o capitalismo, na estratégia falida de reformar o regime por dentro, tendo feito “frente ampla” com partidos burgueses, e inclusive aberto espaço para o golpe institucional, recentemente aplicando a reforma da previdência nos estados em que têm candidatos. Enquanto foi governo, não legalizou o aborto e se hoje as mulheres do ES estão nessa situação de naturalização dos abusos, esse partido tem dedo nisso.

Para combater o reacionarismo de Pazolini, da direita e extrema-direita, é preciso um combate da classe trabalhadora e setores oprimidos nas ruas. Não será um mal-menor petista em uma situação de crise econômica, política e social que barrará a sanha dos empresários por ataques. Por isso, a política correta no segundo turno é um voto nulo, mas combatendo por qual perspectiva?

Qual deve ser o posicionamento da esquerda capixaba?

Os setores da vanguarda dos movimentos sociais, sindicais e estudantis, assim como o PSOL, o PSTU e todos que se reivindicam como alternativa à esquerda do PT, deveriam levantar um programa que pudesse responder de fato a crise no ES e no país. Apresentando-se claramente diferenciada da política de conciliação do PT e com uma política que se enfrentasse com o regime do golpe institucional e os grandes empresários. Infelizmente no primeiro turno não foi essa perspectiva que levantou o candidato do PSOL, mas essa é uma batalha que segue para além das eleições. Batalhando por um caminho de mobilização para derrotar os golpistas e para que a crise seja paga pelos capitalistas, o que não vai ser conquistado nessa eleição votando no PT.

É preciso lutar contra a privatização e batalhando como nunca por uma Petrobrás 100% estatal e administrada democraticamente pelos trabalhadores, para que os lucros não estejam acima das vidas, para colocar a produção dessa riqueza natural à serviço da população brasileira, bradando com toda a revolta que se o capitalismo destrói o planeta, nós devemos destruir o capitalismo. Isso permitiria a construção de casas abrigo transitórias para as mulheres e LGBTs vítimas de violência e seus filhos, que pudessem dar subsídio financeiro para a reinserção no mercado de trabalho, por exemplo.

Estamos vivendo um regime político extremamente antidemocrático, que está a serviço dos grandes grupos econômicos, do capital financeiro e completamente subordinado ao imperialismo. Nesse sentido, é evidente que a unidade é fundamental para enfrentar todos estes ataques, mas a unidade necessária é a da classe trabalhadora. Não é possível combater todos ataques com os diferentes setores que apoiaram o golpe institucional, a aprovação da reforma da previdência e seguem apoiando a retirada de direitos nos distintos estados. Não é um vereador, um deputado eleito ou a junção de meia dúzia de parlamentares que vai mudar a situação que está colocada. Como já declaramos nesse diário, o caminho para barrar o avanço do conservadorismo no Espírito Santo e derrotar Bolsonaro e Mourão não virá fazendo uma “frente ampla” com supostos “democratas” que aprovaram e apoiam as reformas e ataques que vamos dar uma solução, e a experiência do PT deixa evidente isso. A luta no parlamento só faz sentido se for para potencializar a luta trabalhadora nas ruas, greves, em cada local de trabalho, e, para isso, tem que se enfrentar com a burocracia sindical para retomar os sindicatos para as mãos dos trabalhadores, já que são partes de ferramentas de luta.

É por isso que o Movimento Revolucionário de Trabalhadores luta com uma perspectiva diferente dessa estratégia de atuar por dentro desse regime apodrecido que busca alianças com gente que seja "menos pior" que Bolsonaro. Uma luta por um governo de trabalhadores, de ruptura com o capitalismo, mas dizendo a todos os trabalhadores, mulheres, jovens que ainda não compartilham essa estratégia, que se somem à essa batalha pelos direitos democráticos, que seja o conjunto do povo trabalhador que decida e não as instituições golpistas. Batalhar por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que significa que serão eleitos deputados em todo o país, onde possam se apresentar todas as organizações políticas, abrindo um grande debate nacional, onde nenhuma instituição esteja por cima dessa Assembleia, revogando todas as reformas ultrarreacionárias que impôs Bolsonaro e votando todas as medidas que respondam às necessidades dos trabalhadores, das mulheres, dos negros e da juventude. Como vem-se demonstrando a partir das candidaturas do MRT e da Bancada Revolucionária dos Trabalhadores em São Paulo, por filiação democrática no PSOL, uma voz revolucionária contra o regime político do golpe de forma independente do PT.

Nesse sentido, fazemos um forte chamado à todas e todos que buscam uma saída de conjunto para se enfrentar com o governo Bolsonaro e esse regime, a construir com a gente uma organização revolucionária no estado do Espírito Santo, que batalha pelo fim do capitalismo no mundo.

Leia mais: Qual o caminho para que sejam os capitalistas que paguem pela crise no ES?




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