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O que diz a imprensa francesa sobre a exclusão da maior oposição de esquerda do NPA?

André Barbieri

O que diz a imprensa francesa sobre a exclusão da maior oposição de esquerda do NPA?

André Barbieri

O Le Monde, um dos mais importantes do país, publicou matéria sobre a crise do Novo Partido Anticapitalista (NPA), cuja direção tradicionalmente majoritária impôs burocraticamente a exclusão, sem qualquer instância decisória partidária, da maior oposição de esquerda no partido, a Corrente Comunista Revolucionária (CCR).

O jornal francês Le Monde, um dos mais importantes do país, publicou matéria sobre a crise do Novo Partido Anticapitalista (NPA), cuja direção tradicionalmente majoritária (oriunda da ex-Liga Comunista Revolucionária, corrente de Ernest Mandel e Daniel Bensaïd) impôs burocraticamente a exclusão, sem qualquer instância decisória partidária, da maior oposição de esquerda no partido, a Corrente Comunista Revolucionária (CCR). Segundo o jornal francês, em artigo assinado por Abel Mestre, "Scission ou exclusion? Le NPA secoué par une importante crise interne", a exclusão da CCR, que edita o periódico Révolution Permanente, resultou em uma declaração de 296 militantes impulsionando uma nova organização revolucionária dos trabalhadores.

O Le Monde diz que: "É uma ruptura que vem se formando há vários meses. Desde quinta-feira à noite, 10 de junho, o Novo Partido Anticapitalista (NPA, herdeiro da Liga Comunista Revolucionária, da qual Olivier Besancenot é uma das principais personalidades) viu-se amputado de uma de suas tendências de oposição, a Corrente Comunista Revolucionária-Révolution Permanente (ala esquerda, 11,05% no último congresso em 2018). Falar sobre este assunto envolve o uso de formulações complicadas. De fato, o Révolution Permanente assegura em um texto que 296 militantes foram "excluídos" da organização".

Ver aqui: França: quase 300 militantes excluídos do NPA convocam a construir uma nova organização revolucionária

Em seu comunicado de imprensa publicado na noite de quinta-feira, a Révolution Permanente acredita que "como muitas vezes na história das exclusões políticas, aqueles que as praticam não as reconhecem". A realidade, no entanto, continua sendo a de um longo processo de exclusão orquestrado do início ao fim pelo núcleo central da maioria da liderança por mais de um ano. "Eles questionam a linha política do NPA, que se tornou "de direita" e que abandonou o projeto revolucionário. Em reação, eles reivindicam a criação de um "partido revolucionário dos trabalhadores".

"A direção histórica do NPA, herdeira do que restou da direção da antiga LCR, tornou-se cada vez mais minoritária dentro da organização", escreve a oposição. "esta mesma direção se embarcou em um giro à direita, rumo a uma política de compromisso com a esquerda institucional, cujas chapas para as eleições regionais, nas duas importantes províncias francesas de Nouvelle-Aquitaine e Occitanie, são um mero prelúdio; giro para o qual a existência de uma ala esquerda forte, que se opõe a que o NPA se torne uma espécie de filial da reformista La France Insoumise [partido de Jean-Luc Mélenchon], constitui um obstáculo".

Muito mais que os 11% do NPA anunciado no Le Monde, os quase 300 militantes que saíram do Novo Partido Anticapitalista, que não conta com mais de 1000 aderentes, contam praticamente 1/3 ou 33% desse partido, que de sua fundação em 2009 até hoje perdeu 9000 militantes. Ilustrando o fato, o Le Monde citou a jornalista Aude Lancelin, que diante da exclusão burocrática da CCR publicou em seu Twitter uma mensagem de solidariedade a referências operárias como Anasse Kazib, Laura Varlet, Adrien Cornet, dizendo que "são as forças vivas da revolução que virá".

O Le Monde cita Julien Salingue, representante da direção do NPA, que diz que “nenhuma exclusão foi pronunciada, nem individual nem coletiva [...] é a partida de uma corrente que apresenta por si mesma o cenário dessa decisão”. Em verdade, a direção tradicionalmente majoritária excluiu a CCR da participação democrática de distintas instâncias internas do NPA, da possibilidade de participar democraticamente e com iguais direitos de reuniões regionais, assembléias gerais e mesmo da conferência nacional do partido. Essa decisão burocrática, sem qualquer tipo de votação interna e muito menos de um Congresso de todo o NPA em que as posições divergentes pudessem ser debatidas, foi ratificada na reunião do Comitê Político Nacional, entre os dias 22 e 23 de maio, em que a moção apresentada pela CCR, com o intuito de que seus direitos democráticos fossem preservados, foi rechaçada, não apenas pela direção majoritária, mas também pelas correntes L’Étincelle e Anticapitalisme et Révolution. Essas correntes, que consideraram a pré-candidatura de Anasse Kazib - reconhecido combatente na vanguarda operária e dos movimentos anti-racistas na França - um "ataque externo ao NPA", consideram positiva a candidatura proposta pela majoritária, Philippe Poutou, articulador das alianças nas regiões de Nouvelle-Aquitanie e Occitanie com a esquerda institucional neorreformista do La France Insoumise.

O anúncio da construção de uma nova organização revolucionária dos trabalhadores na França foi divulgado na quinta-feira pelo site Révolution Permanente, numa declaração assinada por entre 25% e 30% do NPA. Essa proposta foi parte da batalha ininterrupta da CCR no interior do NPA em nome de sua refundação revolucionária, contrária a todas as tentativas de girar a orientação partidária à direita, por parte da direção majoritária. Orientação direitista que, agora, se expressa na vontade de dissolver o NPA no seio da organização La France Insoumise, do neorreformista Jean-Luc Mélenchon.

Uma organização revolucionária é urgente na França, especialmente em um contexto em que, desde 2016, assistimos a uma significativa onda de luta de classes e à emergência de uma nova geração militante, transbordando radicalidade e em busca de uma alternativa política que carregue essa radicalidade - da qual o movimento dos Coletes Amarelos e suas canções sobre a revolução, ou a greve contra a reforma previdenciária do inverno de 2019-2020, foram importantes ilustrações. Durante todos esses anos a CCR defendeu no NPA que, com um perfil firmemente revolucionário e com uma intervenção audaciosa nos principais fenômenos da luta de classes, era possível atrair para a extrema esquerda alguns destes novos militantes e que era aí que residia a saída da crise do NPA, e não na conciliação com a esquerda institucional.

O Le Monde também ressalta o surgimento de novos dirigentes operários, como Anasse Kazib, ferroviário de origem imigrante marroquina, que se postulou a pré-candidato presidencial para levar adiante uma política de independência de classes contrária às intenções de conciliação por parte da direção do NPA, cujos acordos tem como perspectiva apoios que chegam até o Partido Socialista Francês e Os Verdes, partidos do regime político burguês.

"Acima de tudo, o Révolution Permanente tem seu próprio líder, Anasse Kazib. Este trabalhador ferroviário, membro do sindicato SUD-Rail, é uma personalidade da mídia: um apoiador do movimento "coletes amarelos", ele foi por um tempo colunista do programa "Grandes Gueules" na RMC [canal muito popular na televisão francesa]. Ele é também um dos companheiros de viagem da QG-Le Média Libre, programa lançado pela jornalista Aude Lancelin".

Sobre a crise terminal do NPA, e seu enfraquecimento progressivo sob a mesma direção desde 2009, o Le Monde diz que: "O fato é que esta crise é um golpe para a NPA. No último congresso, em 2018, eles reivindicaram possuir cerca de 1.500 membros, de acordo com os números fornecidos pela direção. Em 2009, quando foi lançado, o Novo Partido Anticapitalista pretendia possuir 10.000 membros. Mas a emergência concomitante da Frente de Esquerda [de Mélenchon] (que entre 2008 e 2015 reuniu o Partido de Esquerda e o Partido Comunista Francês) e depois do La France Insoumise desde 2016 pesou fortemente à esquerda".

Para saber mais sobre a crise terminal do NPA e o surgimento de uma nova organização revolucionária na França, ver aqui.

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André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy
Cientista político, doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é editor do Esquerda Diário e do Ideias de Esquerda, autor de inúmeros artigos sobre China e política internacional.
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