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Meio Ambiente | O que a saída de Salles diz sobre as relações internacionais ambientais entre EUA e Brasil?

Ricardo Salles, o ex-ministro bolsonarista do Meio Ambiente, acaba de ser exonerado do cargo. Joe Biden e os Democratas a muito queriam sua cabeça para avançar na disciplinação de Bolsonaro. O que essas disputas entre essas distintas alas da burguesia podem dizer sobre as relações entre EUA e Brasil no que diz respeito ao meio ambiente?

Caio Rosa Estudante de Relações Internacionais na UnB

quinta-feira 24 de junho | Edição do dia

Caiu ontem do cargo Ricardo Salles, ex-ministro do meio ambiente, parte da ala mais ideológica do bolsonarismo, intimamente ligado ao trumpismo e à extrema-direita republicana. Longe de ser uma derrota pela luta dos trabalhadores e oprimidos contra Bolsonaro, trata-se de um avanço na destrumpização e disciplinação de Bolsonaro pelo golpismo institucional - ala desse mesmo regime que realizou o golpe institucional de 2016 e possui fortes laços com os Democratas, como o STF.

Leia mais: Ele sai, mas a devastação continua: os motivos por trás da saída de Salles

A ingerência de Salles parece ter encontrado um fator limitante. Isso se expressou nas investigações da Polícia Federal à Salles, na Operação Akuanduba - por favorecer empresas madeireiras na Amazônia -, e também da Operação Handroathus - por obstruir as investigações de esquemas de desmatamento ilegal na região. Longe de Salles ser um bom mocinho e inocente, essas operações na verdade revelam também a tentativa de disciplinar a ala bolsonarista do regime. A PF não está salvaguardando a preservação ambiental - basta lembrar que ela foi peça fundamental da Lava Jato que, com intenso e íntimo interesse de Obama e dos Democratas, ajudou a promover o golpe institucional contra a classe trabalhadora brasileira, além de atacar o sufrágio universal com a prisão arbitrária de Lula.

Prova desses interesses e, inclusive, suas relações promíscuas com os EUA, é o próprio ministro do STF, Alexandre de Morais, entregando o celular de Salles para os americanos para desbloqueio e retirada de informações por parte do FBI, para serem acessadas pelos governadores brasileiros.

A saída de Salles, nesse sentido, é favorável mas também contraditória para os Democratas. Favorável, pois inúmeros ataques foram passados por Salles e isso Biden e Bolsonaro estão de acordo. No entanto, é um duro golpe para Bolsonaro, que vê sua margem de manobra frente a disciplinação de Biden diminuir.

Salles esperou o momento mais oportuno para poder sair do governo - no mesmo dia em que se aprovou o PL 490 no Congresso - um brutal ataque aos povos indígenas. Ainda está por se ver se passará também no STF, mas a possibilidade é altíssima se depender da própria interpretação do Marco Temporal que tem a instituição. Mas o fato é que esse é um PL fundamental para Biden: abre as portas para empresas estadunidenses fazerem a festa, com projetos de mega-mineiração, hidrelétricas e outros.

Salles foi ótimo para Biden e o capital financeiro na medida em que passou ataques gigantescos. Por exemplo: o Marco do Saneamento Básico - que abre as portas para a privatização da água, como foi na CEDAE, no Amapá e também querem fazer no Goiás, mesmo com a crise hídrica; aprovação do PL de licenciamento ambiental - que basicamente flexibiliza indiscriminadamente as regras para a liberação de obras, com o objetivo de favorecer o agronegócio, especialmente a pecuária extensiva e grandes empreendimentos como mineração, construção de rodovias, estações de tratamento de esgoto e linhas de transmissão de energia elétrica; além dos recordes de desmatamento na Amazônia e as queimadas criminosas do agronegócio no Pantanal.

Mas sua saída é contraditória também, pois quem assume é um representante direto do agronegócio - Joaquim Alves Pereira Leite, ex-conselheiro da Sociedade Rural Brasileira por mais de 20 anos. Essa é uma das alas que mais ferrenhamente apoia Bolsonaro, mas igualmente está na linha de fogo da disputa entre EUA e China. É possível que se abra maior margem de manobra para a disciplinação de Bolsonaro, principalmente em relação à moderação do discurso anti-mudanças climáticas, no entanto, essa margem é débil pelos próprios interesses materiais envolvidos. Estão em aberto os possíveis desdobramentos.

O agronegócio e sua relação predatória, sobretudo, com a Amazônia, são hoje uma das peças centrais na disputa dos EUA com a China, onde o Brasil é peça chave. A China vem de taxar os produtos agrícolas estadunidenses e busca fortalecer o canal de comércio com o Brasil para depender menos de seu adversário; os EUA por outro lado buscam manter o Brasil mais próximo de sua zona de influência e, sem um choque frontal, ir impondo limites ao avanço da fronteira agrícola brasileira para minar essa relação comercial. Esse jogo de xadrez internacional chegou ao final para Salles, mas a boiada segue firme e forte para passar. Prova disso é o brutal ataque ao povo Yanomami, como o qual o Biden nem sequer se deu ao trabalho de dizer uma palavra.

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Nesse sentido, temos que confiar apenas na força da classe operária aliada aos indígenas, camponeses, estudantes e oprimidos. Precisamos derrubar Bolsonaro, Mourão e os militares com a força da luta nas ruas, não confiando no STF e no Congresso Nacional! Não podemos esperar 2022 como quer Lula se aliando com golpistas, ou confiar na CPI da COVID.

Por isso, as centrais sindicais como a CUT e a CTB, assim como a UNE, precisam romper com a divisão da luta entre trabalhadores e estudantes, organizar solidariedade na luta com assembleias de base com voz e voto em cada local de trabalho e estudo. Assim poderíamos impor um plano nacional de lutas contra as privatizações, reformas e ataques aos povos indígenas e aos estudantes - por uma paralisação nacional unificada contra Bolsonaro, Mourão e todos os golpistas!

Leia mais: Cai Salles, mas para parar a boiada é preciso enfrentar o governo e todo regime




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