Política

DEBATE NA ESQUERDA

O mesmo PSTU que comemorou a prisão de Lula, hoje diz que nunca confiou na Lava Jato

O PSTU hoje vem a público condenar a parcialidade da Lava Jato e de Sérgio Moro, mas não falam uma vírgula sobre sua posição conivente com o golpe institucional de 2016 e a sua comemoração quando Lula foi preso.

Fernando Pardal

@fepardal

sábado 20 de março| Edição do dia

O PSTU publicou um artigo sobre a anulação do julgamento de Lula no qual denunciam o elementar: a arbitrariedade e ilegalidade da prisão de Lula e a forma como Sérgio Moro atuou politicamente para proscrever a liderança petista e impedir que concorresse às eleições, abrindo caminho para Bolsonaro, em cujo governo se tornou super ministro. Também dizem que Moro procurou poupar o PSDB, entre tantas outras denúncias que agora podemos encontrar estampados mesmo nos jornais mais patronais, após Facchin ter anulado o julgamento de Lula.

Nesse artigo, o PSTU chega a afirmar: “Sempre dissemos que não podíamos confiar na Lava Jato e na justiça burguesa”, uma afirmação bastante ridícula para quem se lembra de ler o mesmo partido escrever frases como: “Não se pode aceitar o argumento do PT, que defende impunidade para Lula acusando a Justiça de seletiva.” O PSTU efetivamente bateu palmas em diversas ocasiões, bradando junto à direita lavajatista e bolsonarista que Lula estava sendo punido por ser corrupto, e em nenhum momento denunciou a arbitrariedade de Moro.

Essa é a mesma lógica que levou o PSTU, alguns anos antes, a dizer que “não teve golpe”, como se o impeachment de Dilma não tivesse sido parte do mesmo processo de ilegalidades que procuraram proscrever o petismo, abrir espaço para Temer e a direita, visando fundamentalmente atacar os direitos dos trabalhadores, o que temos visto incessantemente desde 2016. O PSTU, ao procurar pegar uma “carona” no sentimento anticorrupção mobilizado pela Lava Jato para levar a classe média às ruas procurando legitimar seu golpe institucional, atuou, inegavelmente, como uma “ala esquerda” do golpismo.

Hoje, quando a Lava Jato e Moro se encontram acuados, e setores importantes da burguesia passam a procurar reabilitar Lula como uma possibilidade de um novo acordo de conciliação – sobre as bases do degradado e ainda mais reacionário regime que vem surgindo no pós-golpe – o PSTU tenta se relocalizar como se “sempre tivesse alertado” contra o verdadeiro papel de classe da Lava Jato. No entanto, parecem não ter aprendido muito sobre o caráter de classe do judiciário, já que seguem defendendo a "prisão de todos os corruptos" por essa mesma instituição que é a responsável pela Lava Jato e todas as medidas autoritárias do STF.

Desde 2016, o PSTU nos acusava de “petismo” por denunciarmos o golpe – sem jamais prestar apoio político ao projeto petista de conciliação de classes, que nunca deixamos de combater. Para eles, nessa época, não estar junto às arbitrariedades que visavam implementar um governo de ataques mais duros contra os trabalhadores significava “petismo”. Contudo, ironicamente, de forma complementar à sua adaptação ao golpismo e ao lavajatismo, em sua atuação no movimento operário o PSTU continuava (e continua) se adaptando… ao petismo! Dirigindo a CSP-Conlutas, o PSTU se absteve sempre de fazer críticas e até mesmo exigências às grandes centrais sindicais – entre as quais a maior é justamente a CUT, dirigida pelo PT.

A CUT – cumprindo um papel complementar ao que o PT faz no âmbito político-institucional procurando canalizar todo o sentimento bolsonarista para sua ambição eleitoral em 2022 – atua no movimento operário contendo todas as lutas. Não organizou nenhuma mobilização séria nem mesmo contra a reforma da previdência, que destruiu as aposentadorias dos trabalhadores. Durante a pandemia, com os absurdos ataques contra nossos direitos, permaneceu em “isolamento”, sem mexer uma palha. No fechamento da Ford, se manteve calada. Agora, dá continuidade a seu papel traidor ao fechar acordo com a direção da Volkswagen com a suspensão da produção que irá afetar a vida de milhares de trabalhadores e suas famílias.

Se por um lado o PSTU foi entusiasta da prisão de Lula dizendo que “todos os corruptos deveriam ser punidos”, agindo de forma semelhante no golpe, por outro jamais denunciou o papel traidor da CUT e CTB (dirigida pelo PCdoB), jamais criticou a burocracia sindical que é responsável em grande medida por paralisar os trabalhadores e impedir que respondam à altura dos ataques de Bolsonaro e demais instituições golpistas.

Agora que o PSTU finalmente passou a denunciar a arbitrariedade e parcialidade da Lava Jato, chamamos a que abram os olhos para os crimes da burocracia sindical e sua paralisação dos trabalhadores. A CSP-Conlutas, com seu peso em importante sindicatos, poderia cumprir um importante papel ao convocar outros setores da esquerda a constituir um pólo nacional para organizar as lutas dos trabalhadores e exigir da CUT e CTB que se coloquem a serviço de construir essas lutas. Assim, o PSTU poderia dar um passo no sentido de ajudar a organizar os trabalhadores para enfrentar os ataques que foram em grande medida construídos com base na relação de forças favorável aos patrões criada pela Lava Jato e pelo golpe institucional.




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