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ESTADOS UNIDOS E CHINA | O março das disputas entre Biden e Xi Jinping

Aqueles que aguardavam menores choques entre Estados Unidos e China, com a ascensão de Biden, viram-se desencantados.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

sexta-feira 19 de março | Edição do dia

Aqueles que aguardavam menores choques entre Estados Unidos e China, um "mundo mais harmônico" com a ascensão de Biden, viram-se desencantados. Que se me entenda: não veio na bagagem do imperialismo Democrata a beligerância acintosa de Trump. Mas, sendo distinta na forma, a agressividade de Biden segue firme no conteúdo, e esse é frear a China. São sinais que nos lembram da época em que vivemos; de crises, guerras e revoluções.

O espelhamento das ações é notável. Quando os Estados Unidos atua, a China responde a sua maneira; quando a China tem alguma iniciativa, os Estados Unidos dobra aposta e busca conter.

Não são potências nas mesmas condições. Os Estados Unidos tem a supremacia inconteste dos assuntos do mundo, e a China ganha tempo para opor desafios particulares em determinados interesses comuns. Mas os atritos permanentes entre imperialismo de Washington e a burocracia pós-maoísta de Pequim seguem com maior ou menor intensidade.

No terreno geopolítico e sanitário, a primeira metade de março mostrou os movimentos espelhares.

Vejamos o geopolítico-militar. No documento intitulado “Guia Provisório de Estratégia de Segurança Nacional” (Interim National Security Strategic Guidance), divulgado em março de 2021 sob os auspícios da administração Biden, a China é mencionada nada menos que 15 vezes (a título de comparação, a Rússia é citada 5 vezes, e o Irã apenas 4).

Nele, a Casa Branca afirma taxativamente, em sua primeira formulação dessa natureza desde o documento de Segurança Nacional de 2017, que a “China é o único competidor [dos Estados Unidos] potencialmente capaz de combinar o seu poder econômico, diplomático, militar e tecnológico a fim de opor um desafio sustentado a um sistema internacional aberto e estável”.

Não é demasiado recuperar algumas passagens que ilustram o pensamento securitário do Pentágono sobre a China. Nesse breve documento de 22 páginas, o governo Biden afirma que assegurará que “as Forças Armadas dos Estados Unidos sigam sendo as melhor treinadas e equipadas no mundo, contra uma China crescentemente assertiva e uma Rússia desestabilizadora”. A atenção à tecnologia, à defesa e às alianças estratégicas dos Estados Unidos, cuja importância é sublinhada algumas vezes – contra a linha isolacionista de Trump – forma uma agenda que “fortalecerá nossas duradouras vantagens, e nos permitirá prevalecer na competição estratégica com a China, ou qualquer outra nação”. Quase como alusão direta ao Plano de Resgate aprovado sob as diretrizes de Biden, diz-se que “a forma mais eficaz para os Estados Unidos vencer uma China cada vez mais autoritária e assertiva, no longo prazo, é investir em nosso povo, nossa economia e nossa democracia e, para deixar claro que Washington irá requisitar deliicadamente a iniciativa dos assuntos mundiais, afirma que restaurando a credibilidade da nossa liderança global, garantiremos que os Estados Unidos, e não a China, defina a agenda política internacional”.

Sobre as alianças estadunidenses, ficamos sabendo que “fortalecendo e defendendo nossa rede inimitável de alianças internacionais, fazendo inteligentes investimentos em defesa, também conteremos a agressão chinesa à nossa segurança coletiva, prosperidade, democracia e modo de vida”. Quanto aos vizinhos asiáticos da China, não ficam de fora do documento: “Apoiaremos os vizinhos e parceiros comerciais da China na defesa de seus direitos, a fim de que possam fazer escolhas políticas livres de coerção e influência estrangeira”. Nomeadamente, o documento enfatiza Taiwan como uma “importante democracia e parceira de segurança e econômica crucial” dos Estados Unidos, que será protegida “de acordo com os duradouros compromissos dos EUA”, assim como os interesses da população de Hong Kong, de Xinjiang e do Tibete.

Apenas duas vezes o documento se refere a possíveis parcerias de Washington com Pequim. Quando diz que os EUA irá “envolver a China e a Rússia em diálogos produtivos sobre uma série de desenvolvimentos tecnológicos e militares que possuem implicação na estabilidade estratégica global”; e quando afirma que a competição estratégica não impede o trabalho comum com a China em terrenos que sejam do interesse nacional estadunidense, como o meio-ambiente, segurança sanitária e o controle de armas.

Diante de tal resumo de indelicadezas do imperialismo estadunidense, o autoritarismo burocrático de Pequim quis responder à maneira chinesa, como diz seu provérbio: para cortar uma árvore, gaste o dobro do tempo afiando o machado. No primeiro dia das sessões anuais do Congresso Nacional do Povo, o governo Xi Jinping anunciou um orçamento militar vultoso para 2021, 1.36 trilhões de yuanes (US$205 bilhões), um aumento de 6.8% diante do orçamento militar de 2020, arrematado em 1.27 trilhões de yuanes (US$183.5 bilhões).

Ao documento da Casa Branca, Xi Jinping arreganhou os dentes. Com o maior exército do mundo numericamente (3 milhões de soldados), a China leva adiante o plano de modernização do Exército de Libertação Popular, acrescendo a seu arsenal, anualmente, novos caças furtivos a jato, submarinos nucleares, mísseis balísticos e até porta-aviões. O objetivo, não podendo ser a disputa pela hegemonia mundial e a capacidade de “definir a agenda” global, é assegurar sua crescente influência na Ásia, principalmente na região do Indo-Pacífico e no Mar do Sul da China, em que a reincorporação de Taiwan ganha relevo especial.

Eis um número que desagrada Washington: o gasto militar da China, como parte do orçamento nacional global, cresceu de 5.1% em 2020 para 5.4% em 2021 (os gastos estatais chineses, como porcentagem do orçamento governamental, subiram de 36.2% para 38.7% segundo o Center for Strategic and International Studies). No orçamento militar chinês, tudo é nebuloso e nunca se sabe exatamente para onde vai o investimento. Mas o premiê Li Keqiang foi incisivo ao comentar que a resolução busca “implementar completamente o pensamento de Xi Jinping sobre o fortalecimento das Forças Armadas e da nova estratégia para a nova era, assegurando a liderança absoluta do Partido Comunista Chinês sobre o Exército de Libertação Popular. O Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) estima que o gasto militar chinês seja muito maior que o divulgado oficialmente, colocando o orçamento de 2019 em US$240 bilhões, maior que o gasto militar combinado de Índia, Rússia, Japão, Coreia do Sul e Taiwan.

No plano do “soft power”, quem reagiu foi os Estados Unidos. Desde a contenção da pandemia em seu próprio território em 2020, a China se tornou a maior fornecedora de vacinas da Ásia. Como mostra o Nikkei, no início do ano o ministro de Relações Exteriores, Wang Yi, viajou pessoalmente a países do sudeste asiático, como Myanmar – centro de um auge operário contra o golpe militar – Indonésia e Brunei para fechar acordos de entrega da vacina Sinovac Biotech, como parte de sua “diplomacia da vacina” na região. Cingapura, Tailândia e Filipinas também estão no arco de países que buscam a vacina chinesa.

Diante disso, a administração Biden decidiu reunir o Quad – grupo de países que envolve Estados Unidos, Índia, Japão e Austrália – para montar uma contraofensiva à influência chinesa, e oferecer 1 bilhão de doses da Johnson&Johnson aos países asiáticos. Sob o acordo, os Estados Unidos e a China financiarão a produção da vacina na Índia, enquanto a Austrália se encarregará da logística de entrega das doses em todo o sudeste da Ásia.

O Quad surgiu em 2004 quando os países envolvidos lidaram em comum contra os efeitos devastadores do tsunami na Indonésia. Mas desde então não há dúvida de que o trabalho se ateve à contenção da China na Ásia, passando pela intenção do “pivô à Ásia-Pacífico” de Barack Obama, e a beligerante política de Donald Trump com a guerra comercial-tecnológica. Já no governo Biden, o plano das vacinas na Ásia foi concebido entre Kurt Campbell, oficial mais importante de Washington para a região, e os embaixadores de Japão, Índia e Austrália. A ninguém deve ficar enterrado o espinho da dúvida: esses três países enfrentam desafios cotidianos com o gigante asiático. O Japão disputa com a China a posse das ilhas Senkaku/Diaoyutai; a Índia tem escaramuças frequentes com a China para definir as linhas fronteiriças no Himalaia. Já a Austrália foi punida pela China, em suas exportações de materias-primas, por acusar Pequim de esconder as causas de origem da COVID-19 em Wuhan.

Ao menos com a Índia, o plano Biden da “chuva de vacinas” em troca de influência pode encontrar problemas. Dois fabricantes indianos dos imunizantes da AstraZeneca e Johnson&Johnson acusam Washington de dificultar a produção com o Defense Prodution Act (Lei de Produção de Defesa). Trata-se de um dispositivo datado da Guerra da Coreia (1950-53), evocado por Trump e continuado por Biden, que autoriza o Executivo a interferir no sistema de produção do país em defesa dos interesses nacionais (ou da segurança nacional), em casos de esforço de guerra ou de emergências. Na pandemia, implicou a exigência por parte dos EUA, às empresas farmacêuticas que lucram bilhões com a vida e a morte, de mais doses da vacina do que o necessário para cada adulto, diminuindo a já escassa produção caótica de imunizantes por parte da anarquia capitalista. Em outras palavras, a velha questão do privilégio imperialista de asfixiar as vidas dos povos de países dependentes e semicoloniais.

Tudo o que referimos compõe um breve quadro, no plano geopolítico e sanitário, da crise da complementaridade sino-estadunidense, e que leva a disputas cada vez maiores entre as potências. A crise econômica mundial de 2008 foi um ponto de inflexão, que ganhou tração a partir de 2013 quando a China se viu na necessidade de abandonar a “dependência exclusiva” do esquema exportador da era Deng Xiaoping. Nesse momento, a China passou a transformar o conteúdo de sua produção, reduzindo a disponibilidade relativa de suas fontes de mais-valor absoluto ao capital internacional – sem deixar de ser a zona de superexploração mundial do trabalho permitida pelo PCCh. Busca transformar-se progressivamente em competidora pelos espaços mundiais de investimento e pela liderança em tecnologia de ponta com uma produção cada vez mais competitiva com a estadunidense.

No terreno geopolítico como no da pandemia, na questão tecnológica, militar e inclusive culturalmente, a disputa com a China não é mais um problema de governo de turno, mas uma questão hierárquica de Estado para o imperialismo norte-americano. Até mesmo as doses cavalares de investimento estatal na economia, parte crucial do padrão de desenvolvimento chinês nas últimas décadas, pode adquirir “carta de cidadania” nos Estados Unidos, ao menos temporariamente. O “Plano de Resgate” de Biden, de US$1.9 trilhão, é uma tentativa preventiva de estímulo fiscal diretamente dirigido às famílias arrasadas pela pandemia e a catástrofe do tecido sanitário do capitalismo norte-americano. Uma política de concessões preventivas para evitar estouros da luta de classes como em 2020. Nada garante a esperança de que a economia volte a funcionar e o desemprego caia a níveis pré-2019. São formas bem diferentes de investimento estatal, e com funções distintas: na China, usualmente são direcionados à infraestrutura. Mas sendo distintos, podem bem ter métodos similares. A irrigação de dinheiro público em monopólios nacionais não é algo estranho à Washington, e diz respeito à competição tecnológica atual.

Biden não desfará o que foi realizado por Trump nesse terreno, porque a contradição entre o declínio imperial dos Estados Unidos e a ascensão da China é um processo estrutural de longa data, e veio para ficar.




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