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COLUNA | O legado que precisa ser enterrado

Gilson DantasBrasília

sexta-feira 12 de fevereiro | Edição do dia

É certo que revoluções da segunda metade do século passado, triunfaram, no entanto, nenhuma delas instituiu uma democracia proletária; apenas burocracias políticas [do tipo castrista, maoista e afins] que não desenvolveram o poder dos trabalhadores organizados em conselhos territoriais, sovietes.

A Revolução russa, em seu primeiro momento, foi exatamente isso, uma república soviética, dos trabalhadores e camponeses. Instalou-se na condição de revolução consciente, que disse a que veio; e o fez porque desenvolveu táticas políticas, ao longo de 1917 e desde antes, que eram sempre concebidas para aquele objetivo. Nenhuma tática admitia amálgamas políticos, já que não visava instalar qualquer governo misto, operário e burguês.

As lições de tática e de estratégia daquela experiência, daquela vitória fruto do trabalho da estratégia [pelo partido bolchevique] foram plasmadas nos textos dos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista [a III] levantada por Lênin, Trotski e seus pares.

Já sabemos que o stalinismo enterrou não apenas esse legado teórico, mas também promoveu a contrarrevolução massacrando todos os leninistas/trotskistas da Rússia [URSS].

E também sabemos que a stalinização das revoluções subsequentes e as derrotas de cada revolução onde os stalinistas intervieram, mostram que os bolcheviques – pela positiva - adotaram a estratégia correta, que permitiu não apenas triunfar mas instituir, imediatamente, uma república proletária, com organismos de autoatividade de massas.

Historicamente Stálin se foi; e o Estado operário degenerado [URSS] também desmoronou, um tema profundamente examinado, teoricamente, em A revolução traída, de Trotski. O stalinismo como estrutura histórica derreteu, embora restem alguns PCs que não passam de sombras do que foi o aparato internacional do stalinismo.

Logo, a conclusão fácil seria: Stálin morreu e o stalinismo também.

Não é tão simples assim. O stalinismo era, sim, aquela estrutura material internacional [com Estados], mas também um método de fazer política e uma estratégia.

Um método oportunista de fazer política e de separar a tática cotidiana do objetivo político da república proletária. Uma estratégia para derrotas.

Em Stálin o grande organizador de derrotas, de 1928, Trotski explica muito bem que, no mesmo processo em que o stalinismo se estendia na forma de degeneração e contrarrevolução do Estado [URSS], ele também se afirmava como a estratégia e a política de esquerda [“comunista”] de mais peso nos PCs mundo afora. Em seguida, o stalinismo, represtigiado pela vitória das massas russas contra o nazismo, ganhou ainda mais peso como referência da luta pelo comunismo.

Com isso, não apenas substituiu e soterra o legado estratégico da única revolução consciente como afirma um “manual de política” desastroso. Totalmente empírico e oportunista, esse método perde de vista o objetivo do poder dos trabalhadores [que não mais existia na URSS] e produz táticas na política cotidiana que oscilam do aventureirismo à adaptação rotineira à política burguesa.

É possível ser historicamente otimista diante do desmoronamento do grande aparato mundial stalinista, colossal obstáculo à revolução contemporânea, no entanto, os PCs residuais e a própria esquerda de maior visibilidade, continuam em sua prática política de inspiração stalinista.

O exemplo hoje recorrente é o das frentes populares/amplas. Nas últimas eleições no Brasil, a esquerda de maior peso [incluindo os comunistas] fez todo tipo de tipo de aliança com legendas da burguesia [ou da sombra da burguesia] que deixariam Stálin orgulhoso. Amálgamas eleitorais com partidos burgueses, tipo PT e o PC do B, PSB, PDT, Rede etc que caberiam em qualquer cartilha frentepopulista do stalinismo.

No movimento de massas [estudantil, político] isso se repete diariamente: alianças com partidos da ordem, que governaram para o grande capital [PT, PC do B] ou com forças do golpismo, como forma de construir força material.

Ora, isso sempre leva a derrotas [como em 64 no Brasil], em sua condição de substituto de uma frente proletária, uma frente única contra a burguesia. Deixam de lado a independência de classe, passando a construir, aqui e agora, ilusões e desvios políticos favoráveis à sobrevivência política de uma classe dominante decadente.

Nesta medida, o legado nefasto de Stálin continua vivo em certas correntes, embora o bloco stalinista, como Trotski previa, degenerou e caiu. É preciso enterrá-lo d evez com a estratégia revolucionária.

[Recomendamos a leitura da primorosa edição recém-lançada, Stálin o grande organizador de derrotas, Ed Iskra, 2020, 384 pp].




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