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SEMANÁRIO

O imperialismo norte-americano: Regresso à “normalidade” ou mais desordem mundial?

Esteban Mercatante

O imperialismo norte-americano: Regresso à “normalidade” ou mais desordem mundial?

Esteban Mercatante

Continuando com a análise que fizemos em notas anteriores sobre o imperialismo contemporâneo e a situação nos Estados Unidos, discutimos aqui qual é o saldo que deixa a primeira (e única?) presidência de Donald Trump, em vias de acabar.

Trump contra a ordem mundial

Trump chegou à presidência cavalgando a onda de desacordos que percorreu todos os países ricos durante a última década e que também foi revelada no Brexit, que para a mídia e a classe dominante britânica e da União Europeia (UE) apareceu como um "cisne negro" que a pegou completamente de surpresa. Os efeitos sociais devastadores e duradouros da crise iniciada em 2008 golpearam as bases de consenso das décadas de governo do “extremo centro”, como Tariq Ali chamou a alternância de partidos de direita e social-democratas que manteram-se na Europa (e nos EUA com o establishment bipartidarista) e produziram uma polarização política que se manifestou pela direita, mas também pela esquerda (inicialmente dando ares aos partidos que denominamos de “neo-reformistas”, cujos projetos hoje se mostram em crise ou avançam para se integrar a o sistema partidário que questionavam, como Podemos no Estado espanhol).

O programa "America First" de Trump pretendia ser uma ruptura com vários dos princípios que governaram a política imperial norte-americana nas últimas décadas. “Americanismo, não o globalismo, será o nosso credo”, proclamava Trump em sua campanha eleitoral.

O que isto significou durante a administração até agora? Claramente não houve, nem poderia haver, qualquer “isolacionismo” - renúncia à intervenção nos assuntos internacionais [1] - por parte da principal potência imperialista, apesar do discurso de Trump na campanha ter caminhado nessa direção. Os interesses e intervenções (econômicas, diplomáticas e militares) dos Estados Unidos, que se expandem por todo o planeta, não permitem tal orientação.

Mas o "America First" se traduziu em uma mudança abrupta de enfoque para lidar com questões internacionais em todos os terrenos. Em primeiro lugar, o abandono do multilateralismo - através do qual os EUA procuraram impor os seus interesses em associação com outros países imperialistas tendo como sócios em primeiro lugar a União Europeia e o Japão - a favor do bilateralismo - a negociação separada dos EUA com cada país, evitando comprometer-se em pontos que o governo ianque possa considerar desfavoráveis.

Não é nenhuma novidade a desconfiança dos presidentes republicanos em relação à teia de instituições multilaterais, apesar de todas terem sido criadas a mando dos Estados Unidos. George W. Bush também manifestava isso e executou uma política que privilegiou a estreita aliança com alguns países para avançar em suas aventuras bélicas em detrimento da cobertura multilateral. Mas Trump levou o desdém e a disposição de desentender-se com essas relações multilaterais a extremos sem precedentes. Isso se expressou em todos os terrenos: nos fóruns de países e instâncias de governança coletiva criados a mando dos Estados Unidos (como o G7 ou o G20) cuja finalidade sempre foi a coordenação internacional, a partir das secretarias de Estado e do Tesouro, das políticas que interessavam ao imperialismo norte-americano e a negociação com outras potências para sustentar alianças, foram tratadas pelo presidente magnata como espaços inconsequentes, onde sua participação focou-se na encenação de conflitos (com Alemanha e França para gastos militares da OTAN, no G7; com a China para o comércio no G20).Também lhe permitiram montar "shows" que buscavam indicar o fechamento bem-sucedido de algumas disputas, como quando assinou com Xi Jinping, em Buenos Aires, a trégua da guerra comercial, que não durou nem uma semana. Trump chegou a se retirar da Organização Mundial da Saúde, da qual os Estados Unidos eram o principal contribuinte, como é o caso de quase todas as instituições multilaterais, em plena pandemia.

Em matéria comercial, o bilateralismo se expressou no rechaço a impulsionar grandes tratados comerciais, abandonados em favor de negociações com cada país individualmente para arrancar maiores concessões. Ou seja, não se abandonou o princípio de buscar maior abertura comercial, mas a prioridade é menos em garantir regras gerais obrigatórias para todos os países e mais descaradamente em garantir a maior fatia para os Estados Unidos, medida como uma melhora na balança comercial (menos déficit).

A administração Obama concentrou suas energias em dois acordos estratégicos de grande escala que uniriam dezenas de países - o Transatlântico (TTIP) e o Transpacífico (TPP) - incluindo a maior parte da economia mundial, exceto a China. Esses acordos foram a resposta à paralisia da Organização Mundial do Comércio (OMC). Com a fundação da OMC em 1995 (como continuidade e institucionalização do Acordo Geral de Tarifas e Comércio que desde os anos 1950 negociou em rodadas sucessivas a integração comercial), “o capital ganhou uma batalha decisiva”, segundo Ernesto Screpanti. [2]

Mas, enquanto isso coroava e reforçava décadas de avanços na integração comercial sob pressão das economias mais ricas - cujas empresas se beneficiaram amplamente -, no início do milênio havia-se entrado em um impasse, mostrando incapacidade para aprofundar a integração econômica. Depois do fracasso da chamada Rodada de Doha, aberta em 2001 e suspendida desde 2006 por falta de acordos, os tratados TPP e TTIP, que superariam em escala todos os existentes, foram a nova via por onde os setores mais globalistas do imperialismo buscaram aprofundar a integração no comércio e no investimento em benefício do capital multinacional. Um dos objetivos chave desses acordos dos EUA sob Obama era condicionar a China. Como afirmam Amor, Leaño e Merino, que apontaram para "a instalação de uma institucionalidade transnacional que fixe normas e autoridades de aplicação exógenas a cada Estado e assegurem ao capital global o poder de autorregulação em relação à potência emergente e suas empresas" [3]. Como expressou Obama, o que está em jogo "é quem dita as regras do jogo para o século XXI, e não pode ser a China". [4]

Trump abandonou o TPP, cujo acordo de criação já estava assinado e com implementação pendente, e ignorou as negociações em curso para avançar o TTIP. Um dos pontos principais de sua campanha foi que esse tipo de acordo resultou na perda de milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos - que ele se propunha recuperar - e na decadência de vastas regiões do país. Porém, ao contrário do que se poderia esperar - já que também havia sido levantado na campanha - não se retirou do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), o mais importante que os Estados Unidos possuem com Canadá e México. Foi renegociado e substituído pelo Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá (T-MEC). Os EUA impuseram seus critérios no novo acordo, que substituem o multilateralismo pelo bilateralismo; Em vez disso, foram acordos negociados separadamente entre países, sem que os Estados Unidos se privassem, durante as duras negociações, de ameaçá-los com sanções comerciais se Canadá e México não aceitassem suas exigências. O tratado manteve a integração comercial, mas nos Estados Unidos garantiu - pelo menos no papel - maior composição local na produção automotiva, uma das chaves do acordo; foram estabelecidas cotas para o número de carros que o Canadá e o México podem vender nos Estados Unidos, e os mecanismos de resolução de disputas foram eliminados para quase todos os setores (deixando as mãos livres para o estabelecimento unilateral de cotas ou tarifas) . O T-MEC também terá uma revisão periódica a cada 6 anos. Um capítulo separado que expôs esse bilaterialismo é a "guerra comercial" com a China. Embora o principal argumento de Trump para lançá-lo desde o início tenha sido o déficit comercial, o cerne da disputa está na intenção dos EUA de desacelerar o avanço da China no desenvolvimento de alta tecnologia. A guerra tarifária e outros entraves comerciais entre os dois países tiveram suas idas e vindas desde o seu lançamento em março de 2018, e mostraram um salto na irrelevância da OMC. Com a negociação de novas rodadas de abertura comercial congelada, a única razão de ser desta organização era resolver conflitos abertos entre países por descumprimento das normas que estes se comprometeram e que são veladas pela OMC. Mas nesta guerra comercial, a organização converteu-se em um mero observador. Embora os Estados Unidos já tivessem relutado na época de George W. Bush em acatar as decisões da OMC que eram-lhe desfavoráveis, (embora finalmente as tenham aceitado em face da ameaça de sanções comerciais de outros países) Trump deu um novo salto. Não apenas ignorou a OMC, mas também liquidou o Órgão de Apelação da mesma, a principal instância de resolução de disputas, ao negar-se em aceitar a nomeação dos novos juízes que o integram. Desde dezembro de 2019, não conta com o mínimo de três juízes necessários para julgar, por isso a UE, a China e outros países promoveram a criação de um tribunal paralelo, que não tem a aceitação dos Estados Unidos.
A abordagem de Trump, segundo queixa-se Richard Haass na revista Foreign Affairs, tem se concentrado em "interesses econômicos definidos estreitamente ", e seu corolário tem sido "a negligência quase total de outras metas da política externa dos EUA." [5]

Sua administração impulsionou a revisão de algumas das alianças históricas nas quais o imperialismo norte-americano se apoiava, ameaçando abandonar a OTAN, criada durante a Guerra Fria para integrar a Europa militarmente, se os outros países não se comprometessem a aumentar significativamente as contribuição para sustentá-la. Retirou-se do acordo climático de Paris que limitava para os Estados Unidos o desenvolvimento da exploração de hidrocarbonetos e outras indústrias poluentes. Repudiou unilateralmente o tratado com o Irã assinado por Obama para frear o desenvolvimento nuclear deste país. E assim poderíamos continuar. Se manteve inalterados outros pilares históricos do imperialismo, como o apoio a Israel ou à Arábia Saudita. No que diz respeito à América Latina, a relação foi atravessada pelas políticas anti-imigração aplicadas pelo magnata desde que assumiu, dirigidas especialmente contra a migração da região, bem como pelo posicionamento dos governos a respeito da Venezuela, onde Trump, nisto igual aos seus predecessores, foi um ponto de apoio para a oposição ao chavismo e suas fracassadas tentativas de golpistas.

O giro americanista de Trump traduziu-se também em um incremento significativo nos gastos militares, algo a que as administrações anteriores também estiveram propensas. Teve um aumento médio anual de 6% entre 2016 e 2020, alcançando US$ 720 bilhões neste ano (o que representa 38% do gasto militar mundial). Mas, ao mesmo tempo, apesar da retórica agressiva, evitou embarcar em novos conflitos importantes, igual ao que fez Obama- exceto, é claro, pelo uso massivo de drones durante seus oito anos no cargo para intervir militarmente no Oriente Médio. As principais intervenções militares de Trump foram os bombardeios no Afeganistão (com a chamada “superbomba”), em uma base síria onde supostamente armazenavam armas químicas, e o assassinato do general Qasem Soleimani dias depois de ele fazer parte da organização de um ataque à embaixada dos EUA em Bagdá no final de 2019.

De modo geral, o americanismo não significou a ruptura abrupta que anunciavam os prognósticos mais pessimistas de setores do establishment norte-americano. Isso foi assim entre outros motivos, porque sua agenda teve que lidar com forte resistência de setores da burguesia norte-americana mais transnacionalizada, que são os que mais prosperaram nas últimas décadas. O exemplo mais recente dessa rejeição é a ação movida no final de setembro por 3.500 empresas, entre elas Coca-Cola, Disney, Tesla, Ford ou a farmacêutica Abbott, para compensar os custos gerados pelas tarifas que Trump impôs contra a China. As mesmas fricções que Trump enfrentou devido ao choque de sua política com inclinações muito arraigadas no consenso bipartidarista e que pesam em todos os níveis do Estado norte-americano, que conspiraram, por exemplo, contra suas intenções de se aproximar da Rússia para se concentrar na luta com a China.

Dito isso, podemos sim dizer que Trump acelerou inúmeras tendências que já podíamos observar anteriormente e aprofundou a situação de desordem global e, nesse sentido, sua administração pode ser considerada um ponto de inflexão que configura uma nova situação difícil de ser revertida. Não observamos isolacionismo, mas sim uma intervenção seletiva no terreno internacional em função dos interesses estadunidenses, mas que ao mesmo tempo mostra-se descaradamente mais agressiva na defesa desses interesses, sem tentar conciliá-la com a agenda da "comunidade internacional", nem nada do tipo. No conjunto, observamos uma renúncia a comprometer a principal potência em seguir atuando como suporte e fiador da arquitetura sobre a qual se apoiou a internacionalização do capital nas últimas quatro décadas, e que beneficiou lucrativamente boa parte da classe capitalista norte-americana.

Leo Panitch e Sam Gindin argumentam acertadamente que o capitalismo global nas últimas décadas foi uma "construção", ou seja, que a configuração que adquiriu, e a disposição dos Estados para envolverem-se em assegurar todas as garantias ao capital global e de se envolverem nas instituições multilaterais, dependeu decisivamente da intervenção do imperialismo norte-americano. Mas, por isso mesmo, devem ser levadas muito a sério as consequências que já teve a renúncia da tal administração para seguir cumprindo esse papel, mesmo que Trump seja derrotado em novembro. O governo Trump marca muito mais do que uma "crise política" interna dos Estados Unidos sem consequências para o ordenamento do "império informal", como esses autores parecem inclinados a interpretar. [6]

América, primeiro?

O slogan de Trump não parece ter avançado muito em concretizar-se. A maior conquista que o magnata poderia apresentar até a pandemia, que foi o crescimento econômico sustentado, não estava associada a nenhuma de suas políticas disruptivas, mas à continuidade da alquimia monetária do Federal Reserve. Isto foi ajudado pelo corte de impostos que essa administração votou para capitais de empresas que repatriaram seus investimentos no exterior. Embora o projeto dessa distribuição de impostos tenha as marcas do “America First”, não é muito diferente do que todo governo republicano fez desde Ronald Reagan quando assumiram. O corte de impostos de Trump fez muitas multinacionais a repatriarem capital para os Estados Unidos. Mas, longe de “criar empregos para os estadunidenses”, investindo em novos empreendimentos, os fundos foram para investimentos financeiros ou pagamentos aos acionistas.

A administração havia definido como um de seus grandes objetivos conter a China. Mas começou por lhe dar um grande alívio com o abandono do TPP, que representava uma grande ameaça para o país. Os dois anos de "guerra comercial" também não produziram resultados favoráveis. O déficit dos EUA com a China continuou a aumentar, enquanto o saldo das sanções cruzadas pareceu atingir os capitalistas dos EUA de forma relativamente pior (tanto os que exportam para a China quanto os que dependem de insumos críticos daquele país). A disputa, que desde 2019 se converteu abertamente em uma competição pela liderança do 5G e outras tecnologias, e neste terreno não mostra um panorama melhor. Os maiores golpes recebidos até agora pela China têm sido a restrição de acesso a chips fabricados pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Co Ltd (TSMC), o que significa bloquear um insumo chave para a construção de 5G e inteligência artificial, e conseguir que muitos países sigam os EUA na rejeição do 5G da Huawei por questões de segurança. Mas isso representa no pior dos casos um atraso, e não aborta o desenvolvimento tecnológico da China nesses terrenos. Outro golpe duro foi o bloqueio ao TikTok e ao WeChat nos Estados Unidos. Ao contrário do desejado por Trump, The Economist sugere que podem ter sido os EUA que ajudaram Pequim a encontrar os setores estratégicos a serem priorizados no plano "Made in China 2025". O semanário cita o economista Yu Yongding, envolvido no desenvolvimento de alguns dos planos, que afirma que “todos os departamentos do ministério da indústria apresentaram os projetos favoritos. Mas não havia uma estratégia de ação real”. Mas a ambição da proposta “junto com a mística da política industrial e da espionagem habitual da China, levaram os Estados Unidos a reagir. E isso forneceu a Xi os critérios para selecionar suas verdadeiras prioridades ” [7]. Um saldo paradoxal do governo Trump, cujo slogan da campanha em 2016 foi "tornar a América grande de novo", pode acabar sendo que, apesar de suas intenções, termine ajudando Xi a concretizar mais rápido seu "tornar a China grande de novo”, como argumentaram alguns analistas ironicamente.

De modo geral, a meta de "vender mais" e "comprar menos" do resto do mundo, componente importante das relações externas durante esses anos, teve poucos resultados. Por este motivo, o déficit comercial não caiu, mas continuou a aumentar, exceto por uma ligeira queda em 2019 que foi revertida em 2020, um ano que está a caminho de terminar no vermelho.

Nos demais terrenos não foi muito melhor, enquanto no caminho alienou aliados e continuou debilitando a posição dos EUA. Este é o resultado de inconsistências iniciais do giro unilaterialista. Como sintetiza Claudio Katz: A estratégia de Trump dependia da disciplina de seus aliados (Austrália, Arábia Saudita, Israel), da subordinação de seus sócios (Europa, Japão) e da complacência de um adversário (Rússia) para forçar a capitulação do outro (China). Mas o magnata não conseguiu esses alinhamentos e o consequente relançamento da supremacia norte-americana falhou desde o início. [8]

Se Trump sair, os EUA voltarão a ser "o país indispensável"?

A noção de que, no caso de Trump ser derrotado - e se ele efetivamente aceitar a derrota - teremos um retorno à normalidade, carece de sustentação. Não é que os EUA simplesmente retornarão à ocupar seu lugar à cabeça da "ordem transnacional liberal", inclusive se isto for o que uma hipotética administração Biden realmente pretender (o que não está nada claro).

As desconfianças em relação aos antigos aliados não se reverte com uma mudança de administração, entre outras coisas porque apenas acentuaram a profunda divergência de interesses que vem de muito tempo. A gestão de uma política monetária de impacto global com o olhar sobre o PIB dos EUA, intervenções unilaterais como a do Iraque ou as disputas pela gestão dos efeitos da crise de 2008 - especialmente as estratégias para lidar coma a crise da dívida na UE - já haviam colocado em evidência que o que é bom para os EUA não é necessariamente bom para seus antigos aliados. Trump apenas acentuou a magnitude das divergências, e agregou a isso a incerteza sobre o papel dos EUA. As alianças “são baseadas na confiança e na previsibilidade, e nenhum aliado provavelmente verá os EUA como antes. As sementes da dúvida estão plantadas, se aconteceu uma vez, pode acontecer novamente. É difícil reivindicar o trono depois de abdicar ”. [9]

Tampouco será fácil retomar o espaço ocupado por adversários, em áreas como a Síria, onde a Rússia aproveitou para avançar. A guerra entre a Armênia e o Azerbaijão, em que atuam a Turquia e a Rússia, é outro exemplo das lacunas deixadas pelos Estados Unidos em seu papel auto-atribuído de árbitro internacional.

E com a China, também não há nenhuma reversão à vista no curso do conflito. Em suma, qualquer tentativa de retornar a um curso mais multilateralista do imperialismo será repleta de armadilhas. Não surpreende então os lamentos, por partes dos apologistas desta dominação imperialista "baseada em regras", que foi próspera para o capital à custa de submeter todo o planeta à exploração de multinacionais, potencializando a polarização social e o desastres ambientais, que pode ter sido, simplesmente, um interregno excepcional [10] dentro do curso da competição exacerbada entre potências e guerras, que andam de mãos dadas com confrontos mais agudos entre as classes em cada país - algo ao qual a política de Trump também contribuiu para estimular dentro do país agravando tensões políticas e sociais, das quais tivemos uma amostra recente com as mobilizações massivas que percorreram todo os EUA como uma rejeição aos crimes racistas.

Tradução Raffaele Stasi

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FOOTNOTES

[1Até a Segunda Guerra Mundial, o isolacionismo era uma tendência de peso na política norte-americana, relutante ao crescente intervencionismo ao qual empurrava a classe dominante para estabelecer sua primazia mundial. Como Perry Anderson coloca, sua fortaleza era tradicionalmente "nas pequenas empresas e na população de agricultores do Meio-Oeste". (Perry Anderson, “Imperium”, New Left Review 83.

[2Ernesto Screpanti, Global imperialism and the Great Crisis. The uncertain future of capitalism, Nueva York, Monthly Review Press, 2014, p. 76.

[3Juan Andrés Amor, Andrés Leaño, Gabriel Esteban Merino, “La Alianza del Pacífico (AP) y el Acuerdo Transpacífico (TPP), entre globalistas y americanistas”, em Gabriel Merino e Patricio Narodowski (coord.), Geopolítica y economía mundial: el ascenso de China, la era Trump y América Latina, La Plata, IDIHCS-Conicet, 2019, p. 233.

[4Ídem.

[5Richard Haass, “Present at the Disruption. How Trump Unmade U.S. Foreign Policy”, Foreing Affairs septiembre/octubre 2020.

[6Leo Panitch y Sam Gindin, “Trumping the empire”, en Leo Panith y Greg Albo (ed.), The World Turned Upside Down? Socialist Register 2019. Para um debate com esse visão, veja Poderá o império dos EUA sobreviver a Trump?.

[7“The new state capitalism. Xi Jinping is trying to remake the Chinese economy”, The Economist, 15/8/2020.

[8Claudio Katz, “El resurgimiento americano que no logró Trump”, em Lahaine.org, consultado 8/10/2020 em https://katz.lahaine.org/el-resurgimiento-americano-que-no-logro/.

[9Haass, ob. cit.

[10Ver por exemplo Michael Beckley, “Rogue Superpower”, Foreing Affairs noviembre/diciembre 2020.
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