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230 anos da Revolução do Haiti | O imperialismo e o Haiti, 230 anos após a Revolução

Hoje se completam 230 anos da Revolução do Haiti. Por isso queremos não apenas relembrar esse fato extraordinário da história, como também debater o papel que o Imperialismo cumpre na ilha, justamente no lugar onde os negros organizaram uma revolução vitoriosa que inspira negros do mundo todo até os dias de hoje.

sábado 21 de agosto | Edição do dia

O Haiti é hoje conhecido como um dos países mais pobres do mundo, fator intensificado nos últimos anos pelos desastres naturais como o terremoto de 2010 e o recente terremoto deste mês que já deixou mais de 2 mil mortos. Enquanto a historiografia e a mídia burguesa apontam como causa da pobreza a desorganização política e a instabilidade econômica que seriam advindas desde a Revolução Haitiana, a pobreza na realidade é fruto das intervenções coloniais e Imperialistas que se arrastam há séculos até os dias de hoje. França, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha são algumas das potências que buscaram exercer suas políticas em solo haitiano, impondo seus interesses econômicos em detrimento da população haitiana, sendo os responsáveis pela condição atual do país.

A ilha inicialmente chamada pelos colonos espanhóis de Hispaniola, ignorando o nome que as populações locais tinham dado, posteriormente foi dividida entre ingleses e franceses. Em um dos diversos tratados coloniais datado de 1697, o que hoje conhecemos como Haiti ficou sob domínio da França com o nome de Saint-Domingue, ou em português São Domingos. A colônia mantinha plantações de açúcar e tabaco, mas foi o café, que no final do século XVIII passou por uma grande alta, que dava a Saint-Domingue o status de colônia europeia mais lucrativa do mundo, o sucesso econômico fez com que a metrópole francesa intensificasse o tráfico de escravos.

Enquanto isso, na França em 1789 se iniciava a Revolução Francesa com seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Ainda que alguns revolucionários como Robespierre defendessem inicialmente a abolição, o comércio colonial francês naquele momento rendia 11 milhões de libras, o que correspondia a ⅔ do lucro total do comércio internacional francês. Para se ter uma noção, no mesmo momento, o comércio colonial britânico rendia “apenas” 5 milhões de libras. Frente a proporção econômica que a escravidão representava para os cofres franceses e a pressão dos senhores coloniais e da burguesia marítima, a Revolução Francesa abandonava suas reivindicações de abolição para manter as taxas de lucro extraídas com o trabalho escravo. Como escreveu C.L.R James em a Revolução e o Negro: “Mas liberais são liberais. Diante da revolução estavam prontos para capitular. Eles deixaram meio milhão de escravos na escravidão...”

No entanto, no Haiti, entre os escravizados e os senhores, existia uma camada intermediária: os mulatos. Não era uma caracterização étnica, os mulatos na verdade eram filhos dos senhores com escravas e muitas vezes iam estudar na França. Embora livres, não tinham os mesmos direitos que os brancos. Inspirados pela Revolução e com contatos diretamente na França, os mulatos se revoltam ao saber que os fazendeiros tinham convencido a Assembleia a não estender o direito dos brancos aos mulatos. Fruto dessa revolta, em 1790 se inicia uma rebelião em Saint-Domingues.

Contagiados pela indignação dos mulatos que exigiam direitos iguais aos brancos, os escravizados foram além para exigir a total abolição da escravidão e em 21 de agosto de 1791 iniciam a trajetória da Revolução do Haiti. Em uma guerra de complexa compreensão, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos intervieram. Enquanto a Espanha inicialmente apoiou as tropas de escravizados comandadas por Toussaint L’Ouverture, os ingleses que foram apoiados pelos colonos franceses, lutavam pela manutenção das relações escravistas. É importante ressaltar que não se tratava de um repúdio à escravidão por parte da Monarquia Espanhola, pelo contrário, está muito mais ligado ao conflito entre os Estados Nacionais, inclusive após a Revolução Haitiana se concretizar a Espanha intensifica o tráfico de escravos em colônias como Cuba para suprir o vácuo deixado pela ex-Saint-Domingues no mercado internacional. Já os Estados Unidos comandados por Thomas Jefferson do partido Democrata-Republicano (o Partido que depois dá origem ao que hoje conhecemos como Partido Democrata), oferece ajuda aos senhores de escravos para suprimir a revolta. Thomas Jefferson, como proprietário de escravos que era, temia que as façanhas dos escravizados haitianos chegassem aos ouvidos dos escravizados em solo estadunidense. Em 1794, a França pela posição desfavorável na qual estava inserida no conflito é forçada a abolir a escravidão e dar apoio temporário à revolta negra, que expulsa espanhóis e ingleses de seus territórios.

Ainda que as coisas parecessem caminhar bem, a autonomia negra parecia uma afronta para Napoleão, em 1801 quando Toussaint L’ouverture planeja uma nova constituição, as tropas francesas são enviadas e o sequestram até sua morte no cárcere. Os franceses pensavam que ao se livrar do grande líder militar da Revolução, os negros ficariam a mercê da política francesa - não poderiam estar mais errados - sob o comando de Jean-Jacques Dessalines, os franceses ficaram entregues à ponto de se renderem e em 1804 a Independência é proclamada e o nome Haiti é adotado oficialmente pela população local. Parte da historiografia busca culpar as doenças pelo fracasso da operação, se negam a aceitar que tenham sido vencidos por tropas compostas por negros, em uma ironia ácida, C.L.R James escreve “Historiadores[...] culpam principalmente a febre, como se São Domingos tivesse sido o único local no mundo onde o imperialismo europeu se deparou com a febre.”

Após a Independência, o Haiti se encontrou em uma situação difícil. Assim como o Imperialismo impõe um embargo à Cuba nos dias de hoje, o Haiti passou por um embargo ainda mais severo. Nenhum país reconhecia ou estabelecia relações diplomáticas e comerciais com o Haiti, que teve que se transformar em uma espécie de ilha de subsistência. Em 1825, na tentativa de estabelecer relação diplomática com outros países e romper o isolamento, o Haiti aceita pagar uma indenização pelos “prejuízos” causados aos senhores franceses. Nesse momento a França e seus vizinhos europeus reconhecem a Independência do Haiti, ao mesmo tempo que submetem o país ao pagamento de uma dívida que se estendeu até 1947, drenando grande parte das economias da ilha. Diversas metrópoles submeteram suas ex-colônias a este tipo de mecanismo de dependência: depois de extraírem recursos e matérias primas de determinado país, são expulsos e cobram dívidas que por sua vez as ex-colônias não conseguem pagar, e tem que recorrer a empréstimos internacionais que geram um ciclo de endividamento. Mesmo com o reconhecimento da França em 1825, os Estados Unidos só passaram a reconhecer o Haiti como país independente em 1862, 58 anos depois da Independência e 27 anos depois do reconhecimento pela França.

Não é atoa que as grandes economias do comércio internacional, que usavam do trabalho escravo para a acumulação de capital, tenham feito tantos esforços em primeiro lugar para manter isolado um país onde os negros com seus próprios métodos de organização e luta tenham conquistado sua liberdade e a independência, essa ideia apavorava a elite senhorial branca. Por outro lado, também não é atoa que os países imperialistas tenham intervindo econômica e militarmente no Haiti após a Revolução submetendo os haitianos aos horrores do Imperialismo, justamente para evitar o desenvolvimento de um país com a poderosa herança da luta negra pela libertação.

Numa tentativa de se proteger das intervenções imperialistas, a constituição haitiana feita após a independência impedia que estrangeiros possuíssem terras. Apesar disso, no início do século XX houve uma intensificação da presença de alemães no Haiti, que conseguiam driblar a legislação através de casamentos com mulheres haitianas. A Alemanha era o principal adversário econômico e político no Caribe dos Estados Unidos, que não viam com bons olhos o controle alemão no Haiti. Por essa razão, os Estados Unidos precisavam de um contexto para servir de justificativa para uma intervenção na ilha: em 1915 o assassinato do presidente Jean Vilbrun Guillaume Sam deu o pretexto que o Imperialismo mais queria. Os Estados Unidos sob as ordens de Woodrow Wilson do Partido Democrata, provando que tanto democratas quanto republicanos são igualmente racistas e imperialistas, interviu militar e politicamente no Haiti, mantendo presidentes fantoches eleitos em eleições indiretas, claramente alinhados e selecionados a dedo de acordo com os interesses dos Estados Unidos.


Intervenção dos Estados Unidos no Haiti. Foto: Bettmann / CORBIS

De 1915 a 1934, a política externa estadunidense fez tudo o que pode para submeter o Haiti às garras do imperialismo. As propriedades dos camponeses eram reguladas por um mecanismo muito mais forte do que qualquer contrato, o vínculo dos moradores com determinado pedaço de terra era a herança direta de toda uma geração familiar que lutou contra a escravidão e arrancou os grilhões. Mais forte que qualquer pedaço de papel, este laço foi ignorado pelos capitalistas estadunidenses. As pequenas propriedades foram transformadas em latifúndios comandados por empresas dos Estados Unidos, onde os camponeses trabalhavam em condições análogas à escravidão. Todos os recursos minerais, as relações comerciais ligadas à agricultura e a Indústria eram controladas pelos Estados Unidos. Além disso, a segregação racial, a censura à liberdade de imprensa e o trabalho forçado foram práticas dos yankees em solo haitiano.

Como corre no sangue dos haitianos a luta contra a opressão e a exploração, não foi sem resistência que os Estados Unidos exerceram sua invasão. Em 1919 e 1920 uma série de rebeliões camponesas explodiu na ilha. Em 1929, o movimento operário entrou em cena com seus métodos de luta: uma série de greves que buscavam acelerar a saída das forças estadunidenses que contou com apoio massivo dos estudantes. Milícias armadas como os Cacos buscavam expulsar o exército imperialista. Mas a repressão era severa: de 1915 a 1934, 3000 haitianos foram assassinados pelo exército, fora os milhares de presos e exilados. Nem mesmo os nacionalistas burgueses do Haitian Patriotic Union escaparam da repressão.


Greve com a participação dos estudantes em 1929.

Consolidado os seus interesses, os Estados Unidos lentamente evacuou suas tropas do Haiti. A situação se encontrava muito pior do que nos anos anteriores a sua entrada: os camponeses não tinham mais suas pequenas propriedades, a crise econômica assolava o país, o trabalho em condições análogas à escravidão aumentava. O Imperialismo sempre se justificou em aspectos “humanitários”, ao mesmo tempo em que sempre foi o responsável por causar as crises que deixam os países em situações extremamente instáveis.

A intervenção imperialista não é coisa do passado como alguns analistas tentam fazer entender, esses processos são profundamente atuais. Em 2004, o primeiro-ministro haitiano Jean-Bertrand Aristide sugeriu que a França deveria pagar U$21 bilhões em indenizações pelo dinheiro indevidamente cobrado após a independência. Logo após sua sugestão, o presidente que tinha sido democraticamente eleito, sofreu um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos. Em 2010, os Estados Unidos intervieram nas eleições evitando que determinados candidatos pudessem concorrer. O ex primeiro-ministro do partido de extrema-direita recém assassinado, Jovenel Moïse que governava fechando o parlamento e com profundo rechaço da população que se cristalizou nos protestos no início deste ano, contava com apoio da “comunidade internacional”, o que não mudou com Joe Biden, que manteve o apoio dado por seu antecessor Donald Trump, mostrando mais uma vez que no essencial da política, Democratas e Republicanos são igualmente inimigos da classe trabalhadora. O atual primeiro-ministro Ariel Henry contou com a aprovação pelo Grupo Core, um conjunto de embaixadores dos Estados Unidos, França, Espanha, Brasil, Alemanha e Canadá, explicitando que a intervenção estrangeiras nos assuntos locais do Haiti segue mais viva do que nunca, sendo a batuta imperialista que define o primeiro-ministro, não a população local.

A mídia imperialista busca justificar a causa da miséria em terremotos e tragédias naturais, em uma instabilidade causada por “gangues” e por uma falta de “autoridade” fruto da grande quantidade de primeiros-ministros em um curto período de tempo. Frente a isso, os Estados Unidos, a ONU e até o Brasil nos anos de Lula e Dilma como presidentes, intervém no país numa suposta tentativa de levar a “paz” e a “civilização”. Como podemos enxergar em toda a história do Haiti, antes, durante e após sua independência, a intervenção das forças imperialistas na verdade é a causa da extrema pobreza do país. Desde a ocupação francesa usando do trabalho escravo para se apropriar das riquezas naturais haitianas, do isolamento causado pelo embargo internacional após a proclamação da independência, dos métodos de dependência causados pela dívida pública que roubam todas as riquezas produzidas pela população e deixam a ilha com as contas no vermelho, as intervenções estadunidenses no início do século XX que voltam até os dias de hoje são os fatores que explicam a miséria. Numa relação triste e dialética, a miséria criada pelas intervenções dos países imperialistas é a justificativa usada por esses mesmos países para novamente intervirem, criando um ciclo de dependência e pobreza. Por isso, uma saída para miséria e catástrofes que são fruto do descaso dos governos de turno do Haiti, só pode vir das mãos classe trabalhadora, hegemonizando o conjunto do povo haitiano, com total independência seja dos governos locais, seja dos imperialismo, que só querem rapinar os recurso naturais e as riquezas do país.




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