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O banqueiro Mario Draghi é o novo chefe de governo da Itália: apontamentos sobre a crise política do país

Sábado, 13 de fevereiro, Mario Draghi jurou ao cargo junto com a equipe de governo que compôs após as consultas com as forças parlamentares. Fala-se de um governo de “alto nível”, mas quem são os ministros que terão que receber a confiança do parlamento?

terça-feira 16 de fevereiro| Edição do dia

O economista Mario Draghi e sua chegada ao palácio do Quirinal em Roma. EFE/Alessandro Di Meo

Quem é Mario Draghi, o novo “homem da providência”?

Ao meio-dia do sábado, 13 de fevereiro, o novo governo de Draghi jurou ao cargo diante do presidente da República Italiana, Mattarella, podendo assim se apresentar oficialmente no parlamento na próxima quinta-feira para garantir a confiança no governo e começar a exercer o cargo. O voto de confiança encerrará formalmente a crise de governo que o partido de Matteo Renzi, Itália Viva, havia aberto em 13 de janeiro ao retirar seus ministros do governo de Conte II. Apesar do voto de confiança no parlamento, Conte renunciou em 25 de janeiro, frente à possibilidade de uma moção de desconfiança no senado (onde os poucos votos do Itália Viva contam mais, porque o M5S é mais fraco) sobre o informe do ministro da justiça Bonafede, a que os renzianos se opunham. Em um primeiro momento, o presidente Mattarella tentou a via da formação de um governo Conte III através de consultas dirigidas pelo presidente da câmara, Roberto Fico (M5S), mas sem conseguir romper o estancamento nas relações entre o Itália Viva e os outros antigos sócios de governo.

Mattarella já havia descartado categoricamente as eleições devido à emergência da pandemia e a fragilidade do plano de vacinação, que precisava, segundo ele, de uma ação governamental “forte” nos próximos meses. Curiosamente, as eleições locais e o referendo constitucional para reduzir o número de parlamentares não foram afetados por essa mesma situação. A referência ao plano de vacinação também parece uma desculpa, já que ele foi estabelecido e simplesmente deve ser posto em prática pelo sistema nacional de saúde.

O presidente instruiu Mario Draghi a ter uma nova rodada de consultas para formar um novo governo. Draghi, nascido em 1947, é um expoente do mundo dos bancos e do grande capital financeiro: aluno de uma escola econômica da “centro-esquerda” da Primeira República (entrando nas fileiras da alta burocracia estatal como diretor geral do Ministério da Economia), trabalhou durante um período para o fundo de investimentos Goldman Sachs e dirigiu o Banco da Itália de 2005 a 2011, ano em que foi eleito presidente do Banco Central Europeu (o infame BCE). Esse currículo é parecido com o de Mario Monti, que também foi cabeça de um governo “técnico” entre 2011 e 2013 no país.

Draghi, como chefe do BCE em 2011, imediatamente após ser eleito, escreveu uma carta pública ao governo de Berlusconi onde lhe exigia um plano de novas privatizações, cortes nos gastos públicos e a eliminação de direitos dos trabalhadores. A nível europeu, seu modelo monetário “expansivo” alternou políticas de emissão de grandes quantidades de títulos de dívida a favor dos Estados individuais da UE - ou seja, dados os titulares das dívidas públicas desses Estados, a favor dos grandes grupos bancários europeus e estrangeiros - com planos de sangue e lágrimas para a classe trabalhadora e os pobres. A Grécia é exemplo disso, onde não serviu de nada o ascenso da esquerda reformista do Syriza ao governo, com sua retórica “anti-austeridade” sendo barrada pela agenda do BCE, a Comissão Europeia e do FMI.

Voltando a 2021, a imprensa italiana se colou com Mattarella para elogiar “Super Mario” com uma onda de elogios, piadas edificantes e endossando suas qualidades como economista e político, que em nada inveja as notas aprovadas pelo governo de Mussolini na época da “batalha do trigo” ou da invasão da Etiópia. Depois de ter construído em duas semanas um consenso inflado (igual uma bolha financeira) em torno da figura do presidente em posse, todo o mundo esperava um governo composto exclusivamente ou em grande parte por “técnicos” - professores, economistas/banqueiros, grandes burocratas do Estado - um pouco como aconteceu com o governo de Monti em 2011. A bolha estourou ontem quando Draghi tornou pública sua lista de ministros diante do presidente Mattarella.

Ministros de “alto perfil”?

Teria sido difícil e perigoso compor uma equipe só de “técnicos”: voltaremos a isso mais adiante. O que aconteceu foi que o governo atual de Draghi não é o que sonhava a imprensa “democrática”, namorada dos banqueiros e do “homem forte”, mas muito mais um híbrido no meio do caminho entre um governo Monti, o de Conte II e os de Berlusconi de 2011-6 e 2008-11. Ao passar por um compromisso parlamentar que amplia a maioria dos direitistas do Força Itália e da Liga Norte, sem excluir os antigos sócios de governo, era tecnicamente impossível compor um governo político diferente sem romper com os dirigentes desses partidos, o que teria levado precisamente a essas eleições que busca-se evitar a qualquer preço.

Assim, na Itália agora há 15 ministros procedentes das fileiras que quase todos os partidos parlamentares, desde a centro-esquerda até parte da extrema-direita (entre eles, 12 ex-ministros do governo Conte II ou de governos anteriores), e apenas 12 ministros “técnicos”, incluindo Draghi. O trio de ministros do Força Itália provocou, com razão, um certo efeito de rechaço e indignação midiática, representativo da decadência do establishment político italiano (certamente não só da direita ou do parlamento) de uns 10-15 anos pra cá, quando personagens incompetentes e raivosamente hostis aos sindicatos e a classe trabalhadora em geral ascenderam um após o outro aos cargos mais altos do governo.

Esse governo tem a tarefa de continuar e, se possível, reforçar o ataque às condições de vida e aos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, e experimentará menos conflitos internos se os distintos ministros se mostrarem personalidades politicamente débeis submetidas às propostas do bloco “técnico”. Em suma, embora desde o ponto de vista da “eficiência” e do prestígio como ministros burgueses muitos esperassem algo melhor, disso não existe dúvida, é certo que ubi maior minor cessat [frente ao maior, o menor perde importância] também é uma oportunidade para que Draghi, o BCE e os banqueiros em geral (e Mattarella enquanto siga sendo presidente) tenham uma maior influência direta na política geral do governo na Itália.

No jogo entre a colaboração e a competição com as demais potências da UE, esse governo poderia conseguir resultados realmente apreciáveis tanto para os “mercados” europeus e internacionais, como para os capitalistas italianos que pressionam para não seguir perdendo posições em termos de acumulação de riqueza e competitividade. Um jogo delicado e perigoso, sem dúvida: ainda mais considerando que a maioria dos ministros, diferente dos governos nacionais “padrão”, procedem do norte da Itália, em um período em que não só a brecha socioeconômica norte-sul tende a seguir se ampliando, como também em que as pressões imperantes (inclusive dentro do próprio “Partido Democrático do norte”) são as que vão no sentido de um maior federalismo, abrindo pouco a pouco novas feridas na estabilidade geopolítica interna do Estado. A tentação de relocalizar o Sul como uma região dependente internamente é forte, e por outro lado é um dos cenários geopolíticos reais que a burguesia italiana tem sobre a mesa, não um simples discurso ideológico, quiçá “anacrônico”, da Liga. Mais ainda quando os ministros técnicos procedem de um bloco social burguês orgânico do bastião lombardo-veneziano da centro-direita que, embora agora com relações por definir a respeito dos Fratelli d’Italia, é sem dúvida a primeira coalizão política do país.

A crise do governo pode terminar, mas a crise política italiana não se resolve tão facilmente

A ampliação da maioria apresenta novas contradições para a atividade parlamentar e governamental, não cabe dúvida: principalmente se Draghi, como ele mesmo disse, evitar usar uma série de meios governamentais que permitiram a Conte “pular por cima” do parlamento (os “decretos presidenciais” principalmente). Enquanto a centro-direita decidiu não assumir a responsabilidade de um enfrentamento aberto com Mattarella para reabrir a opção das eleições, Draghi também conta com o apoio (ou ao menos com os votos individuais a favor) do Fratelli d’Italia, a extrema-direita, um partido que não será parte do governo, mas que teve uma atitude favorável a ele. Draghi não chegou para governar por uns dias ou semanas, e é provável que possa levar o governo até o fim da legislatura.

Se dermos uma olhada no panorama político geral do país, está claro que, sem novas eleições, com o mesmo parlamento e o mesmo presidente da República, este se manteve bastante similar ao de um ano atrás, quando o governo de Conte II foi golpeado pela maior pandemia do século XXI. O repúdio categórico de novas eleições foi precisamente uma tentativa bastante desesperada de salvaguardar o possível da paz social que ainda caracteriza majoritariamente a Itália, apesar dos efeitos devastadores da crise econômico-pandêmica e da política militarizada de Conte e seus sócios. A política de gestão da crise se baseou em um sistema de quarentenas e “aberturas” parciais que não tem conseguido - nem remotamente - conter e erradicar o Coronavírus, nem salvaguardar economicamente ninguém fora os industriais e as empresas bilionárias.

A cartada de um novo governo completamente bonapartista por cima dos partidos parlamentares foi na verdade uma aposta política de risco, porque poderia ter rompido a paz social muito mais do que o fez o governo de Monti. Agora, as condições socioeconômicas de grande parte da população são piores que de então, a pandemia está longe de ser derrotada e a experiência antidemocrática do recente governo de “tecnocratas” segue viva na memória de quase toda a população. Por isso, agora aposta-se em um governo híbrido entre a tecnocracia dos banqueiros e o BCE, com um certo liberalismo “progressista” que caracterizou Conte II, junto às velhas políticas de centro-direita. Um governo que tem, portanto, a tarefa de uma gestão “eficiente”, “crível” (são as máximas qualidades de Draghi na retórica ultimamente) para a fase de vacinação massiva da população e de normalização da situação econômica e política, após o coronavírus e o bloqueio parcial da economia.

Draghi deve continuar uma política pró-industrial que Conte já não podia ser levada adiante sem choques devastadores dentro do próprio governo. No parlamento, o M5S está pagando os pratos quebrados (quase se dividiu pela metade) e o partido de Renzi, Itália Viva, só tem um ministério frente aos três anteriores, numa maioria que agora conta muito menos.

A nível social, sobre quem tem que pagar a crise, algumas declarações foram claras: sem mais ajuda para as empresas-zumbis, sim para um pouco de incentivos, onde o dinheiro, no entanto, passa substancialmente para as mãos da patronal enquanto são os trabalhadores os que tem que pagar com demissões massivas e outros ataques a suas condições de vida. Em segundo lugar, haverá um grupo importante de pequenas empresas não competitivas que fecharão ou serão absorvidas por empresas maiores. Atrás dessa fachada de acordo “amplo”, persistem fortes contradições que a atual crise econômica coloca ainda mais visível: empresas do norte contra as do sul, defensores mais ou menos convencidos dos ativos estatais contra privatizadores selvagens, defensores das pequenas e médias empresas contra o grande capital centralizador, defensores do trabalho semi-escravo com pouco investimento contra seguidores da competitividade com capital fixo e tecnologia; por último, mas não menos importante, partidários das empresas supercontaminantes contra os partidários de um “capitalismo verde”. Tudo isso em um marco de redefinição de partidos e de âmbitos políticos que ainda não se estabilizaram e que, de fato, está sujeito a uma possível crise maior do M5S, com a possibilidade de uma cisão não-marginal, enquanto que no âmbito liberal-patronal permanece disperso entre vários partidos pertencentes às duas velhas coalizões, entre a debilitada centro-esquerda PD-LeU e o âmbito nacionalista de direita Liga e FdI.

Evidentemente, esse não é um marco político que pode garantir a estabilidade e a “governabilidade” a médio prazo: por isso faz sentido dizer que a crise do governo terminou, mas não a da política italiana.

Esquerda e movimento operário: é o momento de lutar juntos e romper a passividade!

Frente a tal cenário, persiste uma certa passividade política generalizada na esquerda e no movimento operário, que tem uma explicação parcial na crise pandêmica, mas que hoje resulta bastante inadequada. Na Itália, como em outros países, só alguns episódios das lutas operárias e sociais conseguiram marcar uma contra-tendência em relação à “saída da Confindustria”, e atuaram mais e melhor quando eram lutas unitárias, de setores e ramos inteiros da indústria ou entre categorias, como a greve de 29 de janeiro de um setor do sindicalismo combativo italiano.

O potencial para o desenvolvimento de uma oposição operária e popular ao governo de Draghi está aí, mas corre o risco de dar muito poucos frutos se não se põe em jogo imediatamente uma mobilização unida da classe trabalhadora e da juventude, dos explorados e oprimidos, para enfrentar com toda nossa força concentrada os planos de Super Mario, os banqueiros e os industriais. Uma luta que deve ser levada adiante com as ferramentas que realmente infligem dano ao governo e as empresas: antes de tudo a greve unitária, sem divisões artificiais baseadas nas diferentes filiações sindicais. Claro que essa luta tem a burocracia sindical como primeiro inimigo, que majoritariamente não quer desatar a força de suas organizações para levantar uma batalha contra a Confindustria. Por isso evitam as greves, as dividem por empresa, e inclusive entre diferentes siglas sindicais no interior de um mesmo lugar de trabalho. Mas não é concebível nenhuma resistência séria contra o governo de Draghi, a Confindustria e o capital financeiro internacional se não conseguimos romper essas cadeias de passividade e sectarismo, alimentadas deliberadamente pela burocracia sindical grande e pequena. O desenvolvimento da frente única operária, unindo todos os setores da classe trabalhadora junto à juventude e o resto dos movimentos sociais combativos, é uma perspectiva mais que necessária no próximo período. Essas são algumas lições do período anterior, após sucessivas crises econômicas e de governo, que deveríamos incorporar como aprendizagem para os combates futuros.




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