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Efeitos da crise econômica | O alto custo do gás e as queimaduras nos corpos das mulheres

Mais um caso de uma mulher que teve seu corpo queimado e faleceu por cozinhar com álcool combustível vem à tona, escancarando as relações entre o patriarcado e as mazelas do capitalismo que se aprofundam nesse momento de crise

Juliane SantosEstudante | Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

terça-feira 12 de abril | Edição do dia

Foto: Getty Images

Nesta semana, mais um caso que expressa toda a precarização da vida e o machismo da sociedade que vivemos veio à tona. Angélica, de 26 anos, faleceu após um acidente com álcool combustível que utilizava para cozinhar em São Vicente, no litoral de São Paulo. Angélica teve 85% do seu corpo queimado e após semanas internada ela faleceu nesta quarta-feira, 6 de abril.

Infelizmente Angélica não foi a única a passar por uma situação como essa. De acordo com levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ), entre março e novembro de 2020, foram registradas cerca de 700 internações em decorrência de queimaduras causadas em incêndios envolvendo o uso do álcool. Esses dados expressam a situação que as mulheres e a classe trabalhadora de conjunto estão sendo submetidas, mas provavelmente a situação é ainda pior, pois não há ainda um estudo específico de longo prazo sobre esse tipo de acidente.

O atual momento de crise atinge os setores mais empobrecidos da sociedade, a alta no preço dos combustíveis e do gás de cozinha e o aumento da inflação impactam no custo das refeições e colocam uma difícil decisão para as famílias no país: comprar comida ou comprar gás. Um botijão de gás GLP de 13 kg chega a custar mais de 130,00 reais em São Paulo. Diante de tal situação, muitas pessoas têm procurado qualquer alternativa para conseguir colocar comida na mesa. De acordo com pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN), como parte do projeto VigiSAN, realizado em dezembro de 2020, cerca de 9% da população brasileira, o equivalente a 19 milhões de pessoas, estão em situação de vulnerabilidade alimentar grave.

As famílias chefiadas por mulheres negras são a maioria da população que hoje sofre com a insegurança alimentar grave. A pesquisa "Desigualdades Sociais por Cor ou Raça" publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, apontou que no Brasil, em média, uma mulher negra ganha menos da metade do salário de um homem branco. Ou seja, os grandes empresários se utilizam das opressões, aprofundando-as, para garantir uma maior taxa de lucro, e relegam às mulheres uma profunda situação de exploração e opressão.

Outra pesquisa da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Ministério de Minas e Energia (MME) demonstra que o uso de lenha ou restos de madeira em residências teve um aumento de 1,8% em 2020 quando comparado ao ano de 2019. Hoje, 26,1% dos lares brasileiros usam pedaços de madeiras para cozinhar e iluminar a casa. O risco à saúde é enorme. Na maioria das vezes as famílias usam restos de placas de madeira compensada que soltam mais fumaça e a depender do tratamento que a peça recebeu, a fumaça pode ser ainda mais tóxica. O álcool combustível produz uma chama azul quase invisível e é altamente inflamável. Ao tentar re-abastecer o fogareiro o combustível rapidamente se espalha queimando a pessoa e o que estiver ao seu redor.

Quando pensamos quem são os maiores afetados por toda essa situação fica escancarada a relação entre patriarcado e as mazelas do capitalismo. A herança patriarcal coloca como uma obrigação das mulheres os afazeres domésticos e a alimentação da família, o que faz com que estas sejam as que mais estão suscetíveis a sofrerem queimaduras por cozinhar em fogões improvisados utilizando álcool ou pedaços de madeiras como combustível.

A utilização das opressões para aumentar o lucro dos capitalistas serve também para abaixar o salário da classe trabalhadora de conjunto, ainda mais em momentos de crise como o que vivemos desde 2008 a nível mundial, que atinge principalmente as mulheres e os demais setores oprimidos. Com a pandemia, que provocou milhões de mortes em todo o mundo, se explicita ainda mais a lógica capitalista de priorizar o lucro em vez da vida, mostrando-se as contradições da sociedade capitalista que tem por lógica explorar e oprimir cada vez mais as mulheres.

Não bastasse a dor, que muitas vezes não passam nem com o uso de morfina, e as sequelas das queimaduras, que afetam a locomoção, movimentos e a sensibilidade na região queimada, fazendo necessário cirurgias e acompanhamento médico constante, as cicatrizes dessa triste realidade também afeta a auto-estima das vítimas. Muitas têm o cabelo queimado, perdem parte do couro cabeludo, ficam com cicatrizes com formação de quelóides pelo rosto, pescoço e braços que atraem olhares tortos. E sabemos como, numa sociedade que cobra das mulheres padrões de beleza inalcançáveis, isso pode golpear as mulheres.

Desde a crise econômica que atingiu diversos países desde 2008, os empresários e os governos têm como objetivo descarregar a crise nas costas dos setores mais oprimidos e da classe trabalhadora de conjunto. No Brasil, a partir do Golpe Institucional, que tirou Dilma da presidência e ocorreu a partir dos interesses da burguesia internacional e nacional para que fosse possível aplicar ataques e reformas a um nível ainda mais profundo do que o PT já vinha fazendo, diversos ataques como a Reforma Trabalhista, Lei da Terceirização Irrestrita, aprovados no governo do Golpista Michel Temer, e a Reforma da Previdência, aprovada no governo misógino de Bolsonaro, foram passados. O processo do golpe serviu para aprofundar ainda mais a precarização da nossa vida, pois no governo do PT a terceirização já havia triplicado para atender aos interesses dos grandes empresários.

O postos de trabalho mais precários são compostos em sua maioria por negros e mulheres, e o aumento da terceirização permite que uma parcela ainda maior desses setores estejam em trabalhos ainda mais precários, o que se aprofunda com a aprovação da reforma trabalhista que retrocede direitos conseguidos por meio de décadas de luta da classe trabalhadora. A Reforma da Previdência atinge fortemente as mulheres, que por causa do machismo costumam ter duplas ou triplas jornadas de trabalho, o que relacionado a um maior tempo de trabalho antes de se aposentar dificulta ainda mais a vida dessas mulheres.

Contra todas as formas de exploração e opressão é preciso nos inspirarmos na luta das educadoras de Minas Gerais, categoria majoritariamente feminina, em um setor fortemente atacado por Bolsonaro e pelos governos estaduais e municipais. Essas mulheres que estão na linha de frente da luta contra os ataques de Romeu Zema e Alexandre Kalil mostram que é somente por meio da nossa luta auto-organizada, em unidade com a classe trabalhadora de conjunto e com os setores oprimidos, é que conseguiremos nossas demandas, para lutar pela revogação de todas as reformas, pelo direito aos nossos corpos, e contra todas as formas de opressão e exploração.




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