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O Stálin de Domenico Losurdo e a crítica de Mário Maestri

Jones Manoel, Domenico Losurdo e a esquerda stalinista: a farsa de tentar tirar Stálin do lixo da história. Faz algum sentido? A opinião de Mário Maestri nesse debate.

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 8 de dezembro de 2020| Edição do dia

[Comentário sobre o livro Losurdo, um Farsante na Terra dos Papagaios - Ensaios sobre o Estalinismo e Neo-Estalinismo no Brasil / Mário Maestri / 2020 ]

De longa data se fazia necessária uma obra que desconstruísse o particular neostalinismo de Domenico Losurdo que vem sendo difundido no Brasil sem qualquer crítica marxista radical a ele.

Mário Maestri levou adiante esse combate.

Em relativamente poucas linhas pôs a nu a farsa que contou com alguma aceitação acadêmica no nosso país e que procura situar Losurdo como um autor que teria alguma contribuição a dar ao marxismo revolucionário.

Há quem incense Losurdo, fundamentalmente para manter seu vínculo com Stálin e com sua concepção bizarra que considera Trotski um terrorista/golpista e a China atual um exemplo de socialismo possível.

O PCB de Jones Manoel vai por essa linha. Tenta “redescobrir” Losurdo e atribuir a ele alguma respeitabilidade como historiador.

Em uma época de baixa luta de classes, Losurdo, adotando uma linguagem interessada e aparentemente de esquerda, entrou de contrabando como um legitimador, na verdade, de regimes burgueses como o de Putin ou de Xi Ji Ping.

Por outro lado, também sabemos que, de longa data e em alguns departamentos de Universidades brasileiras [tipo Unicamp], Losurdo vem tendo relativa aceitação especialmente por suas incursões críticas a filósofos tipo Heidegger, Nietzsche e autores mais especificamente da direita. No entanto, pensamos que faria bem, mesmo a esses professores que aproveitam essas digressões de Losurdo, que levassem em conta o elemento central que Maestri levanta ao longo do seu livro.

Até porque, na obra de Maestri, aparece o elemento, na nossa perspectiva, mais essencial para situar as reflexões de Losurdo no contexto mais realista.
Tentar localizar Losurdo no campo revolucionário de esquerda, não passa de uma leitura superficial para uma época igualmente conservadora.

Nas palavras de Maestri: “Vivemos hoje uma nova onda conservadora e obscurantista - o neoestalinismo. Ela pulula em forma desigual em diversos países do mundo, com forte virulência no Brasil.

Não conhece a mesma cobertura da grande imprensa e é destinada, sobretudo, a um público alvo mais restrito: a juventude militante de esquerda desinformada, com destaque para a de classe média, embalada agora pela descoberta de novo cavaleiro e profeta sem nódoa, de armadura prateada e capa preta, que chega das trevas para tudo resolver: José Stalin”.

Na verdade, o objetivo de Losurdo é, adotando uma tosca roupagem de esquerda, tratar de refazer a narrativa histórica, especialmente do papel de Trotski, para alimentar ilusões reacionárias que ele chama “sem utopias”, mas, de fato, na perspectiva do abandono da revolução socialista e do papel emancipador da classe trabalhadora.

É importante – para quem ouviu falar de Losurdo – que seja levada muito em conta a reconstituição histórica particular dele sobre a Revolução Russa e o marco histórico totalmente distorcido por ele.

Também neste ponto o livro de Maestri cumpre um papel importante, ao repor a narrativa histórica no seu lugar objetivo. Para quem não entrou em contacto com o específico stalinismo de Losurdo, o livro de Maestri também igualmente assume um importante papel: o manejo das categorias do materialismo histórico aparece muito bem posto, no caso, a serviço da causa de desmistificar um falsificador, obcecado em reescrever a Revolução Russa em chave mistificadora.

Trazer Stálin para o século XXI como algo com qualquer mérito é a mais pura falsificação.

“Losurdo falsifica a história com um principal e grande objetivo: justificar a ação de Stalin e do estalinismo. Propõe, portanto, que o ´Pai dos Povos´ e seus meninos, vendo a União Soviética sendo atacada bestialmente pelo proposto movimento golpista e terrorista de Trotski, se lançaram briosos na defesa do país, matando tantos quantos acreditavam fosse necessário, na esquerda, no centro, na direita, literalmente aos borbotões”.

E os stalinistas de todo matiz precisam de Losurdo, por um lado para preencher seu vazio e seu falso legado histórico stalinista, mas por outro para fazer frente à crescente influência de Trotski e suas ideias nos tempos atuais. É um pouco como aquele seriado do Netflix: para o stalinismo e para a direita é essencial apagar Trotski e seu papel histórico.

A esse respeito, recomendo um artigo que desenvolve mais sobre este elemento e que pode ser lido aqui.

Losurdo, “o neoestalinista, milita pelo enfraquecimento do princípio da centralidade dos trabalhadores na luta política. Em verdade, trata-se de proposta de mobilização pós-socialista, de literal abandono da revolução social”.

Ou, ainda, no argumento de Maestri: “Telegraficamente, podemos dizer que o principal objetivo do neoestalinismo é combater a centralidade do proletariado na emancipação social e o próprio princípio de revolução social”.

Como argumenta Maestri, uma esquerda que acolhe Losurdo e que o toma como um interlocutor válido ou como um autor que tenha algo de consequente a dizer, tem que se reavaliar. “É urgente refundar a esquerda, pois, com esses inimigos aboletados em nossa trincheira, nos chamando hipocritamente de companheiros, a batalha está perdida, antes de começar”.

Do livro de Maestri, que recomendo a todo aquele/a que tenha qualquer ilusão com a obra de Domenico Losurdo e de seus seguidores no Brasil atual, se destaca uma bem delimitada posição de classe em relação ao stalinismo e seus seguidores atuais.
Todos eles são justificadores do amplo massacre promovido pela contrarrevolução stalinista na URSS e com os quais, a esquerda revolucionária não trava qualquer relação virtuosa.

Ou, nas palavras bem mais contundentes de Maestri: “Não convivo, dialogo, co-participo em atividades com estalinistas empedernidos, que sabem e abraçam o que propõem. Eles defendem e justificam o massacre pelos estalinismo de multidões de comunistas, nem sempre da Oposição de Esquerda [trotsquistas].

Nos últimos anos do Grande Terror (1934-38), Stalin mandou pra cova milhares de marxistas revolucionários. Alguns historiadores propõem, sem maiores provas, que Beria teria escapado do tradicional tiro na nuca por se adiantar, envenenando Stalin.
Ninguém pede que torturados convivam com torturadores. Nem que anti-fascistas se abracem a fascistas. Ou que judeus afaguem nazistas. Não há razão para um comunista revolucionário, de qualquer orientação, faça o mesmo com um estalinista”.

Um requiem em grande estilo para o neostalinista Domenico Losurdo e seus acólitos.




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