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O Negro, da senzala ao soul: uma relíquia da história brasileira pela TV Cultura (1977)

Luno P.

O Negro, da senzala ao soul: uma relíquia da história brasileira pela TV Cultura (1977)

Luno P.

A cinematografia brasileira dos tempos da ditadura conta com importantes relíquias escondidas sejam nos escombros da censura ou com pouco alcance de difusão nos dias de hoje, mas que mesmo assim mantém seu valor histórico inestimável para o entendimento dos processos que tomaram a cena do Brasil na época. O documentário O negro, da senzala ao soul, de autoria do jornalista Gabriel Priolli Neto e realizado pelo Departamento de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo (1977) é uma dessas relíquias. Uma reportagem que seria apenas de rotina mas que acabou tomando outras proporções pelo peso histórico dos fatos narrados, acontecendo no momento onde se rodava as filmagens. Um momento icônico na TV brasileira que, como anunciado pelo editor-chefe do Departamento de Jornalismo da TV Cultura, o jornalista Paulo Roberto Leandro, mostrava "negros falando de negros, negros falando de brancos e uma nova visão do problema racial".

O negro, da senzala ao soul, registra um importante processo de rearticulação do movimento negro brasileiro, em meio ao final da ditadura, na década de 70. Influenciados pelo movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e por processos de luta de classes que aconteciam no Brasil contra a ditadura militar, tendo a soul music norte-americana, seus temas e sua cultura (gestual, vestuário, hábitos, etc) como eixo articulador de um sentimento de orgulho e pertencimento, os militantes negros da época buscaram compor um quadro do pensamento negro brasileiro da época, trazendo o negro para o centro de interesses e preocupações.

O documentário foi gravado na Quinzena do Negro da USP, em 1977, organizada pelo sociólogo e dramaturgo Eduardo de Oliveira e Oliveira, junto da socióloga Beatriz do Nascimento, e de nomes como Clóvis Moura, Hamilton Bernardes Cardoso e outros intelectuais e ativistas, que tomam a cena da produção com seus depoimentos, assim como de outras pessoas negras da cidade de São Paulo. A Quinzena foi um sucesso, marcando um questionamento do sentido da abolição e as influências nos descendentes dessa integração incompleta, discussão bastante presente no documentário que já irrompe com o sentido de auto-organização e liberdade dos quilombos e a influência da revolução haitiana e da luta negra na abolição.

A ideia de um movimento que parte das senzalas para o soul, sempre pautado pela luta negra pela liberdade, serve como fio condutor para pensar quem é este negro brasileira apagado e que não pode falar sobre si. O negro cuja importância na luta contra a ditadura até hoje é escondida, mas que ainda sente na pele as suas marcas. Neste pequeno artigo de indicação, colocamos na íntegra o documentário de Gabriel Priolli para que todos possam se apropriar da história brasileira contada por bocas negras, através de olhos negros.


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Luno P.

Estudante de licenciatura em teatro pela UFRGS | Coordenador Geral do Centro Acadêmico do Teatro da UFRGS (CADi)
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