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O Ensino Remoto não é a saída! Como a Biologia da UFRGS pode ajudar no combate à pandemia?

quinta-feira 6 de agosto| Edição do dia

No dia 27 de julho, a reitoria da UFRGS aprovou, em uma reunião do CEPE (Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão), o precário Ensino Remoto Emergencial (ERE), que excluirá da universidade principalmente os que mais tem dificuldade de entrar nela e perfurar o filtro social que é o vestibular, os mais pobres: a juventude negra, indígena e trabalhadora. Isto acontece no marco de que, frente ao governo de Bolsonaro e Mourão e sua política negacionista, o Brasil passou a ser um epicentro de coronavírus no mundo, ultrapassando 96 mil mortes e 2,8 milhões de casos da doença. Sem contar o fator da subnotificação que acontece pela falta de testes em massa, principalmente para a população periférica, negra e trabalhadora. Frente à pandemia que o mundo atravessa e o total descaso dos governantes que gerem a crise a favor de descarregá-la nas costas dos trabalhadores para salvar o lucro dos patrões, o curso de Biologia de uma das melhores universidades da América Latina poderia cumprir um importante papel usando a ciência para ajudar fazer o contrário, salvar a vida dos trabalhadores, produzindo pesquisas em prol da demanda urgente da sociedade: combater a pandemia em função de vidas, não com a intenção de lucrar como fazem os grandes laboratórios.

A reunião do CEPE, que votou a implementação do ERE, é totalmente anti-democrática, o voto dos representantes discentes não valem nada e os estudantes, mesmo sendo a maioria dentro da universidade, sequer tiveram algum poder de decisão, apenas com questionários online, que boa parte dos alunos não respondeu. É nesse contexto que a reitoria da UFRGS aprova de forma autoritária o retorno do calendário acadêmico através do projeto que vem para precarizar ainda mais o ensino superior público, excluindo principalmente os estudantes negros, cotistas de baixa renda, indígenas e todos aqueles que não tiverem a possibilidade de acompanhar as aulas online, tornando mais elitista ainda o acesso à educação. O ERE é um EaD (Ensino a Distância) “mascarado”, assim como já está sendo implementado também em diversas escolas da rede pública e outras universidades em várias regiões do país, concretizando ainda mais o projeto privatizador do governo federal para a educação.

Ao aprovar esse projeto excludente e elitista, a reitoria da UFRGS mostra a quem realmente está a serviço: dos capitalistas e seus lucros, da precarização do trabalho e contra os estudantes. Essa chapa da reitoria foi reeleita de forma totalmente ilegítima mesmo tendo 4264 votos a menos que oposição. Esse processo de eleição onde o voto de 1 professor vale o de 60 estudantes faz parte de manter a estrutura da universidade a serviço do lucro dos capitalistas. A aprovação ERE/EaD visa privatizar e mercantilizar cada vez mais a educação pública, e acontece no marco de todas as reformas neoliberais e contra a classe trabalhadora que o governo de Bolsonaro e seu ministros querem passar, se aproveitando do momento de crise e aprofundando a precarização do trabalho como um todo, ainda mais com a proposital exclusão das camadas mais pobres da população dentro da universidade.

A proposta aprovada ainda prevê aulas presenciais caso não exista a possibilidade de serem feitas a distância, sem garantir condições para que os estudantes, professores e principalmente os terceirizados - que são os trabalhadores da universidade mais expostos ao coronavírus - possam chegar até a universidade em segurança, pois ainda não existe nenhuma garantia de testagem e EPIs que possam assegurar a saúde desses setores.

Muitos alunos não têm condições materiais, como acesso à internet ou espaço físico para estudar; nem condições psicológicas devido ao impacto da pandemia em suas vidas; ou estão cuidando de seus filhos que muitas vezes também estão tendo que fazer aulas EaD em casa; ou então porque estão trabalhando na linha de frente e nos serviços mais precarizados expostos absurdamente ao coronavírus.

A situação no Rio Grande do Sul também é preocupante assim como no resto do país, pois mesmo com o aumento da curva de contaminação e óbitos por Covid-19 no Estado com a flexibilização da abertura do comércio, o governador, Eduardo Leite, fez um plano para continuar abrindo paulatinamente a economia chamado de “Distanciamento Controlado”. Esse plano na verdade é apenas controlado pela pressão dos empresários e prefeitos para a reabertura, e joga a população trabalhadora para a contaminação sem a garantia de testes enquanto o sistema de saúde gaúcho já está a cada dia mais perto do colapso total. Assim como Bolsonaro, Eduardo Leite passa por cima da vida das pessoas apenas para satisfazer a sede de lucro das empresas com a sua política.

Além de todo o terror da crise sanitária, no RS, 123 mil trabalhadores foram demitidos em 3 meses e 7,8 milhões de postos de trabalho foram extintos no Brasil só durante a pandemia, fruto dos ataques de Bolsonaro. São milhões de famílias que hoje dependem do insuficiente auxílio emergencial do governo. Dentre as pessoas que ainda mantiveram seus empregos, grande parte está com contrato suspenso ou salário reduzido e em condições precárias de segurança. Em um momento como esse, a necessidade imediata dos estudantes junto da classe trabalhadora - que está mais preocupada em sobreviver e não passar fome na pandemia - não passa nem perto de retomar o semestre na universidade via online de forma precária. A universidade pública também não deve estar paralisada nesse momento, tendo o potencial de poder suprir a necessidade real dos estudantes e de toda a classe trabalhadora de combater a pandemia, colocando todos os seus recursos humanos e materiais a serviço de salvar vidas. Isso pode ser alcançado redirecionando todo o contingente de pesquisa, extensão e ensino da universidade para o combate e a prevenção do vírus, a partir do controle da produção científica e das decisões institucionais em conjunto pelos estudantes, professores e demais trabalhadores da universidade. Nesse sentido, por exemplo, os cursos de Biologia e Biotecnologia tem um papel estratégico que poderiam estar cumprindo se os seus recursos não fossem desperdiçados com a implementação do ERE.

A universidade, historicamente, não utiliza todo seu potencial e conhecimento criados dentro dela para solucionar problemas da grande maioria da população. Na verdade, ela forma intelectuais para trabalhar nas empresas privadas, que possuem recursos materiais de última tecnologia e de qualidade e em quantidade muito superiores às universidades públicas. Muitas dessas empresas atuam e financiam pesquisas para seus próprios interesses dentro dos laboratórios da universidade pública, como vemos realizarem a Monsanto, a Tramontina, a Gerdau e outras diversas iniciativas privadas - as quais muitas vezes os próprios professores responsáveis pelos departamentos e laboratórios são sócios ou possuem alguma relação.

A universidade também vem sofrendo com constantes cortes de orçamentos, que contribuem para a falta de recursos nos cursos e para o aprofundamento da iniciativa privada, como propõe projetos do governo como o Future-se. Além disso, boa parte do orçamento é despejado em rios para manter os supersalários do reitor e dos professores que recebem mais a cada cargo que acumulam dentro da universidade. Esses são os que, devido a estrutura de poder arcaica e antidemocrática da universidade, possuem peso de voto muito maior do que a maioria da população acadêmica - os estudantes - para decidir os rumos da universidade e para que ela servirá em cada curso a partir de suas grades curriculares.

Mesmo com todas as contradições da universidade, os estudantes de Biologia e Biotecnologia, juntos com os professores e trabalhadores poderiam, a partir do Instituto de Biociências da UFRGS, decidir sobre quais âmbitos os cursos podem aportar e como seriam desenvolvidos cada projeto que dialogue com a necessidade do combate e da prevenção ao vírus. Os Institutos de Ciências Biológicas podem, a partir de toda a estrutura tecnológica e científica que é pública, cumprir um papel central na busca pelo desenvolvimento de vacinas ou então da produção de testes para contribuir na distribuição em massa para a população.

O curso de biologia da UFRGS possui diversos ramos de pesquisa dos mais importantes para o momento de crise sanitária que estamos vivendo e, inclusive, já está cumprindo um papel importante com a realização de testes e estudos sobre os mesmos para o barateamento do custo com insumos locais. Entre eles, temos os ramos da Microbiologia, da Biologia Celular, da Histologia, da Biologia Molecular, da Bioquímica, as quais, com um projeto de pesquisa transdisciplinar, poderia ser possível estudar o vírus em diversos aspectos: entender sua dinâmica na população através da taxa de mortalidade e da taxa de propagação; estudar o tempo que o vírus permanece infectável no ambiente; conhecer as proteínas receptoras dos vírus da Covid-19 (Sars-cov-2) que ficam na membrana celular das nossas células; assim como as proteínas Spikes do vírus que são as que ele utiliza para penetrar nas células do nosso corpo, e também estudar como essas proteínas podem ser neutralizadas. Além disso, também seria possível um estudo sobre os tecidos biológicos que o vírus pode infectar, como ele se reproduz no corpo, os sintomas associados, o tamanho do vírus, a eficácia de equipamentos de proteção individual (EPI’s) e planejamento de medidas sanitárias.

A Genética é outro ramo de pesquisa que poderia estar a serviço da emergência médica, estudando as possíveis origens do Sars-Cov-2 com base na proximidade do material genético com outros coronavírus encontrados nos animais, além de identificar novas mutações que podem estar dando origem a vírus mais poderosos, incluindo muitas outras questões. Além disso, o próprio desenvolvimento da vacina contra o coronavírus necessita de diversos procedimentos de engenharia genética para fazer com que o nosso sistema imune possa criar uma proteção prévia contra o vírus.

Os ramos de Ecologia, Ambiente e Sociedade, Biologia da Conservação, Princípios de Conservação da Natureza também são fundamentais para, além de entender os efeitos do vírus sobre as populações, entender também como surgem essas pandemias a partir de desequilíbrios ambientais e da exploração irracional da natureza do atual modo de produção capitalista.

A Fisiologia, Anatomia e Imunologia junto ao curso de Farmácia e Medicina também poderiam cumprir um papel fundamental para entender os efeitos do vírus no corpo, estudar por que as pessoas com piores condições de vida e que estão nos trabalhos mais precários, que sofrem com maior estresse e possuem uma alimentação de baixo valor nutricional, são as mais suscetíveis a entrarem no quadro de sintomas graves da Covid-19. Além de estudar a eficácia de plasma sanguíneo com anticorpos e medicações no combate ao coronavírus.

A bioestatística também é um ramo muito importante e que é necessário para todos os outros. Com ela, é possível fazer a análise de amostras e resultados de pesquisas, que podem ser usados para comprovar eficácia da fabricação de vacinas, medicações, e equipamentos de proteção, assim como analisar os dados de contaminados e mortos pela Covid-19 ao longo do tempo, junto às medidas sanitárias e políticas de distanciamento social adotadas. A bioestatística é a base de pesquisas como a EPICOVID19-BR desenvolvida pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), considerada o maior estudo brasileiro sobre os efeitos e prevalência da pandemia na população, evidenciando o fator da subnotificação das estatísticas dos dados oficiais, motivo pelo qual o projeto foi desfinanciado pelo Ministério da Saúde.

Vários desses ramos possuem em seus departamentos laboratórios, equipamentos e recursos com muitos potenciais: o Centro de Biotecnologia possui uma máquina de sequenciamento de genomas, que poderia estar sendo usada para a produção de vacina; a Bioquímica possui espectrofotômetros, que são aparelhos necessários para identificar substâncias em amostras, podendo conhecer as partículas que compõem o vírus; além de muitos microscópios e diversos outros recursos da universidade. Entretanto, pela falta de incentivos à pesquisa por parte do governo federal, a universidade não possui laboratórios com biossegurança adequada para alguns tipos de pesquisas, que permite que os trabalhadores não tenham risco de contaminação, o que mostra a urgente necessidade do fim da PEC do Teto de Gastos para maior investimento em saúde e educação e a reversão dos cortes de bolsas CNPQ e CAPES para maior investimento na ciência.

Os ataques a pesquisadores e à ciência das instituições públicas, serve para fortalecer a "ciência" das grandes empresas e dos monopólios privados que desenvolvem as pesquisas tendo, acima de tudo, o interesse de lucrar. A pesquisa privada é projetada exclusivamente com base nos mercados de vendas e na maximização do lucro. Deixar que todas as pesquisas se concentrem nas mãos de grandes laboratórios até mesmo dentro das universidades significa que essas empresas irão certamente fazer de tudo para lucrar com as patentes desenvolvidas com o orçamento público. A Microsoft e a Google estão cada vez mais dentro da UFRGS, com contratos firmados com a reitoria para lucrar com a desgraça alheia, pela via de seus programas de EaD.

A pandemia de Covid-19 se alastrou globalmente em níveis astronômicos jamais vistos desde a gripe espanhola com impacto social e econômico devastador. É uma doença que não apresenta nenhum tipo de tratamento com medicação até agora, então a única esperança e meio de controlar a pandemia é através de uma vacina. Porém, historicamente nunca existiu um evento que impulsionasse estudos e esforços de desenvolvimento para a criação de uma vacina tão rápido como está acontecendo agora, isso requer uma mudança e um aceleramento de várias fases nesse processo de criação e uma necessidade de dispor todos os esforços e estudar o vírus por todos os ângulos.

No processo de desenvolvimento da vacina, mesmo recebendo subsídios de centenas de milhões de governos como dos EUA e outros países, as empresas já anunciaram que não vão vender vacina da Covid-19 a preço de custo. As patentes das vacinas contra a Covid-19 deveriam ser quebradas, e todas deveriam ser produzidas nas universidades e laboratórios públicos. O conhecimento humano e a ciência é de propriedade da população, é fruto desse conhecimento e à ela deve servir, mas o capital instrumentaliza todas essas potencialidades e as transforma em forma de lucrar. Porém, dada a magnitude da crise, é mais racional pensar se não é hora de inverter a equação, deixando de colocar todos os recursos nas mãos de poucos empresários e centralizando as universidades a serviço da grande maioria.

Para o combate efetivo à pandemia, além de girar os recursos humanos e materiais da universidade, é necessário lutar pelo fim da PEC do Teto de Gastos na educação e na saúde e a reconversão da produção dos serviços não essenciais para a produção de respiradores, álcool em gel, máscaras, luvas e tudo que for necessário para enfrentar a emergência médica; para que não faltem EPIs para os trabalhadores que estão na linha de frente; além de seringas para quando existir uma vacina eficaz e testes massivos para toda população, para poder rastrear o vírus e assim fazer uma quarentena científica e efetiva. Não bastando o absurdo de manter um teto de gastos durante uma crise sanitária jamais vista por longas gerações, mais da metade do PIB brasileiro é desviado para o bolso de banqueiros através da dívida pública. Os recursos necessários para esse combate podem ser conquistados cancelando esse pagamento.

Além disso, é necessário a criação de Comitês de Saúde, com delegados eleitos em cada local de trabalho para que sejam os próprios trabalhadores que imponham aos patrões tudo que for necessário para suas saúdes, como EPIs, e licença remunerada para aqueles que são grupos de risco, aqueles que estão doentes e os que precisam cuidar de seus filhos.

Precisamos lutar pela proibição das demissões e da MP 936 que permite a suspensão de contratos e a diminuição de salários junto da jornada de trabalho, assim como um auxílio emergencial de 2 mil reais para todos aqueles que tiveram sua renda afetada durante a pandemia, para que os trabalhadores não tenham que pagar com a sua vida pela crise, sucumbindo à fome, à miséria e à doença. Além disso, com a implementação do ERE, como de prática, os trabalhadores terceirizados têm seu emprego ameaçado por essa reitoria. Por isso, defendemos a efetivação imediata, sem necessidade de concurso, de todos os que estão trabalhando na UFRGS.

Todo o programa para universidade e para o país pensados aqui se enfrenta, invariavelmente, com a reitoria, o governo federal e os governos estaduais de todo o país. Portanto, para levarmos a cabo uma universidade que seja de fato a serviço dos trabalhadores e para combate à pandemia, é necessário uma mobilização massiva dos estudantes ao lado da classe trabalhadora, que sofre as maiores consequências da falta de medidas sanitárias efetivas e que está na linha de frente do combate ao coronavírus, para levantar também a consigna do Fora Bolsonaro e Mourão, sem depositar nenhuma confiança no congresso, na globo, governadores e no STF.

Precisamos lutar para que não se mude apenas os jogadores, mas para que todas as regras do jogo sejam mudadas e que sejamos nós trabalhadores que decidamos sobre nossas próprias vidas e sobre o que nós mesmo produzimos. A partir da auto-organização em cada local de trabalho e estudo, precisamos lutar por um processo de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, onde sejamos nós os que estaremos discutindo o que é necessário para o país, não Bolsonaro, Mourão, Maia, Eduardo Leite e todos os inimigos da classe trabalhadora, que governam de acordo com os interesses dos capitalistas. Assim, podemos colocar ao chão a atual e já rasgada Constituição de 1988 e propor uma saída em que sejam os capitalistas que paguem pela crise.

Precisamos ser intransigentes em denunciar o absurdo que é retomar as aulas sem o redirecionamento da universidade para atender as demandas pela sociedade que morre pelo vírus. É inadmissível retomar um forçado rotineirismo enquanto estudantes tem que trancar ou largar seus cursos. Seguiremos enfrentando isso, denunciando cada caso de estudante que perderá sua matrícula, e denunciando a situação de exclusão que o ERE impõe. É essa batalha que nós da Juventude Faísca e do MRT colocamos nossos esforços na universidade, para fazer com que os capitalistas, e não nós, paguem pela crise.




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