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DOSSIÊ 13 DE MAIO | O Black Lives Matter e as lições da luta contra a violência policial

O Black Lives Matter mostrou uma força imparável da fúria negra nos EUA que conseguiu impor justiça a George Floyd. Setores de massas lutaram contra a violência policial e o racismo, como também exigiram a expulsão de policiais dos sindicatos de trabalhadores e a abolição da polícia. Para impor justiça à chacina do Jacarezinho devemos nos inspirar nesses grandes exemplos de luta.

quinta-feira 13 de maio | Edição do dia

imagem de Victor Cubaia

O assassinato de George Floyd por um policial em 2020 resultou em protestos que chacoalharam os Estados Unidos e o mundo. Não se tratou do primeiro, nem do último homem negro a ser assassinado pela polícia. O vídeo do sufocamento de George Floyd até a morte pelo policial Derek Chauvin chocou o mundo por mostrar explicitamente como o racismo policial funciona, com um homem negro desarmado e imobilizado sendo sufocado por uma bota enquanto tentava dizer que não conseguia respirar. Primeiro nos EUA, e depois em vários países, os negros junto aos seus companheiros brancos foram às ruas dizer que “Black Lives Matter” (BLM), em português “vidas negras importam”. Não é de se estranhar que esse fenômeno tenha se expressado com tanta força em um país como a França onde a comunidade negra vivencia historicamente o preconceito, xenofobia e a violência policial, porém as manifestações não ficaram restritas aos continentes europeu e norte-americano, se expressando em diversos países do mundo todo, inclusive no Brasil.

A classe trabalhadora demonstrou muita solidariedade durante aqueles protestos com diversos setores apoiando a luta do BLM. Como exemplos temos os motoristas de ônibus em Nova York que juntos ao seu sindicato articularam de não transportar os manifestantes detidos pela polícia para as prisões e delegacias, a articulação pela greve nacional pelas vidas negras, as diversas paralisações em empresas e fábricas pelos 8 minutos e 46 em que Floyd ficou sufocado, além das próprias marchas na rua que contavam com diversos setores proletários.

Na esteira da luta negra, setores da classe trabalhadora buscaram se sindicalizar, consolidando um novo período de luta nos Estados Unidos. Basta olhar para um estado específico dos Estados Unidos para visualizar esse novo período: o Alabama. Num estado historicamente racista e com uma forte pressão antissindical por parte da burguesia e governos locais, os trabalhadores de um depósito da Amazon, cerca de 85% negros, se levantaram para tentar formar seu sindicato, resistindo e indo até o final contra as retaliações e táticas ilegais usadas pela empresa. A tentativa fica ainda mais impactante pelo fato de em solo estadunidense a Amazon não ter nenhum trabalhador sindicalizado, sendo um setor de maioria negra buscando se organizar, se mostrando como uma vanguarda na luta pela sindicalização. Após essa tentativa de sindicalização na Amazon, um setor de mineiros também no Alabama resgatando sua tradição de luta, entrou em greve por melhores condições de trabalho, influenciados pela faísca que a luta negra acendeu em toda a classe trabalhadora.

A luta negra sem sombra de dúvida abalou toda a estrutura social estadunidense. Também se tornou comum entre os trabalhadores levantar a importante bandeira pela expulsão dos policiais de sindicatos, explicitando a contradição de ter membros repressivos em órgãos da classe trabalhadora, visto que quando se expressam lutas sindicais, os policiais são os primeiros a serem chamados para reprimir. Os trabalhadores frente a brutalidade policial e os atos no ano passado do BLM foram fazendo experiência com a polícia racista e assassina dos EUA, podendo avançar em sua própria consciência, levantando um programa pela expulsão da polícia em seus sindicatos e pela abolição da polícia, dando um recado bem claro a burguesia imperialista norte americana: a polícia não é nossa aliada!

O que se vê nesses exemplos é um avanço na subjetividade da classe trabalhadora e do movimento negro, ligando a luta do combate as opressões de raça à luta contra a exploração do mundo capitalista. Essa subjetividade se materializou em protestos, paralisações, processos de sindicalização, greves, que forçaram a polícia e parte do Partido Democrata a encontrar um novo discurso sobre a polícia visando conter fúria de milhares que se levantaram por justiça a George Floyd e preservar a instituição policial, por ser um elemento fundamental para manutenção da propriedade privada e do estado burguês. Mas na prática, o que podemos ver é a crescente desconfiança da polícia, se em 2016, 57% dos estadunidenses confiava na polícia, em 2020 esse número caiu para 48%. Entre os negros adultos, a taxa dos que confiam na polícia cai para 19%, ou seja, a cada 5 negros nos Estados Unidos, só 1 confia na polícia, explicitando quem são os que mais sofrem com a violência policial.

Há uma tentativa nesse sentido, por parte das autoridades e da mídia, de individualizar a culpa dos policiais pela linha da “maçã podre”, isto é, tentam isolar casos de violência policial e assassinatos do conjunto da polícia, tratando aquilo como um “acidente” ou um “uso indevido” da força policial. Pura mentira. Essa tentativa não é inconsciente e espontânea, pelo contrário, é muito bem pensada com o intuito de desviar o ódio expresso nas ruas à instituição policial e ao racismo. Depois do assassinato de George Floyd, já vimos Daunte Wright, Adam Toledo, e diversos negros e latinos serem assassinados pela polícia, deixando claro que o problema não é de um ou outro policial, mas de toda a instituição que só pode ser combatida no terreno da luta de classe. A própria condenação de Derek Chauvin pela justiça é fruto da luta de classes, afinal, seu histórico de assassinatos explicitavam seu racismo e até ano passado nada tinha sido feito.

A conclusão que setores da vanguarda vêm chegando é a de que é necessário construir uma força à esquerda do Partido Democrata e do DSA, levantando a independência de classe tanto frente ao primeiro que se mostrou o grande coveiro dos movimentos sociais, quanto frente ao segundo que se provou refém da política democrata. Uma alternativa que aponte intransigentemente para a necessidade de abolir a polícia e de expulsar os policiais dos sindicatos (cabe ressaltar que a policial que assassinou Daunte Wright, tinha liderado um sindicato de policiais por vários anos), diferente da linha do Partido Democrata que busca preservar a imagem da polícia.

Sabemos que no Brasil a polícia é tão racista quanto nos EUA, a chacina do Jacarezinho que deixou 27 mortos, a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro deixou escancarado mais uma vez o caráter reacionário e de classe da instituição policial. Historicamente, ela sempre serviu aos interesses de uma burguesia racista que se construiu explorando o trabalho de negros escravizados e perseguindo aqueles que resistiam nos quilombos. Fato é que nos dias de hoje, frente a um regime político totalmente degradado desde o golpe institucional, o racismo estrutural e a violência policial vem aumentando. Basta ver que no Rio de Janeiro é o ano que bateu recode o número de chacinas e que a 86% dos mortos pela polícia são negros. O governador Cláudio Castro é na verdade a continuidade do governo Witzel que se elegeu dizendo que iria aumentar a repressão nas favelas e periferias.

A chacina do Jacarezinho mostrou a brutalidade e covardia da polícia carioca onde, pelo que denunciam relatos de moradores e parentes das vítimas, a polícia civil assassinou sumariamente 27 pessoas sem chance de defesa. Eles foram assassinados desta maneira por conta de sua cor e sua origem social. A fúria negra que se levantou nos EUA contra a violência policial e por justiça a George Floyd mostra o caminho que devemos lutar por justiça pelos mortos na chacina do Jacarezinho. Os exemplos de como jovens negros, brancos e latinos lutaram junto aos trabalhadores e o movimento negro são evidencias de como não podemos alimentar ilusões na instuição policial, e que a reforma dessa instuição é insuficiente para acabar com o racismo que é a espinha dorsal da polícia.

O BLM foi a expressão da revolta contra a violência policial, apontando justamente para a necessidade da unidade na luta contra a opressão racial e a luta da classe trabalhadora. Deixou escancarado que a polícia é nossa inimiga de classe e que não podemos vê-la como aliada dos trabalhadores. No Brasil, o país que a cada 23 minutos morre um jovem negro, devemos nos apoiar nesses importantes exemplos da furia negra norte americana para impor justiça a todos e todas assassinadas pela polícia, exigindo também que as grandes centrais sindicais e estudantil rompam com sua paralisia e convoquem atos massivos contra a violência policial e os ataques em curso.




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