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O AGRO é pop? Uma análise marxista da fome no celeiro do mundo

Yuri Capadócia

arte: Sagui

O AGRO é pop? Uma análise marxista da fome no celeiro do mundo

Yuri Capadócia

Nenhum fato parece ser mais expressivo dos retrocessos econômicos e sociais que abateram o país com o golpe institucional de 2016 do que a volta do flagelo da fome. As tenebrosas cenas que ganharam os noticiários recentes, com a população disputando a fila do osso, revirando caminhões de lixo e o aumento de roubos famélicos, são brutais concretizações desse fato que expressa o reavivamento das mazelas estruturais do país.

Em 2014 se comemorava a saída do país do Mapa da Fome, um fato histórico ainda que não significasse que a fome estava erradicada no território nacional, pois 3,6% da população brasileira ainda convivia com a insegurança alimentar grave, segundo dados do PNAD da época. Hoje, em meio a pandemia e o descontrole da inflação que retomou ao patamar de dois dígitos (10,25% no acumulado dos últimos 12 meses), a quantidade de pessoas vivendo em insegurança alimentar explodiu para 9% da população - equivalente a 19 milhões de brasileiros. Esse número é superior às pessoas que passavam fome em 2004, que equivalia a 8,2% da população, ou seja, um retrocesso de décadas.

Gráfico disponível em: Olhe para a Fome

Uma análise conjuntural da fome no país: pandemia e a inflação

Para analisarmos esse atual quadro de fome no país, primeiramente é preciso desmentir a desculpa do governo Bolsonaro de que esse cenário é fruto da pandemia. Os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017-2018 já mostravam o amplo crescimento da insegurança alimentar no país do período de 2013 para 2018. A segurança alimentar (SA) registrada em 65,1% em 2004, vinha crescendo ao longo das pesquisas de 2009 (69,8%) e 2013 (77,4%) mas sofreu retração em 2017-2018 (63,3%), atingindo o ponto mais baixo da série. A Insegurança Alimentar (IA) leve teve aumento de 33,3% frente a 2004 e 62,2% em relação a 2013. Já a IA moderada aumentou 76,1% em relação a 2013 e a IA grave, 43,7%.

Gráfico disponível em: Olhe para a Fome

Portanto, é uma falácia do governo atribuir a fome atual à pandemia, trata-se de uma manobra de Bolsonaro para revitalizar seu discurso de oposição entre as medidas sanitárias e a proteção da vida, contra medidas econômicas, de proteção da renda e do emprego, sendo que o governo fracassou nas duas esferas, como vemos pela perda das mais de 600 mil vidas e a atual fome, miséria e desemprego no país.

O que há de verdade é que o retorno da demanda, à medida que avança a estabilização da pandemia, vem pressionando os preços mundialmente por causa de uma baixa simultânea dos estoques, resultando numa tendência internacional a inflação. Por sua vez, essa baixa dos estoques tem relação com o metabolismo destruidor e predatório que a produção capitalista promove, acarretando nas cada vez mais perceptíveis mudanças climáticas. A alta do preço do açúcar, por exemplo, é causada pelo temor de que geadas e o prolongamento da seca reduzam a safra no Brasil, que é o maior exportador mundial da commodity. O índice de preços de alimentos da FAO, que acompanha os preços internacionais das commodities alimentícias mais negociadas globalmente, atingiu a média de 130,0 pontos no mês passado, a maior desde setembro de 2011, segundo dados da agência.

Porém, o impacto dessa tendência no Brasil tem sido muito maior. Com a inflação acumulada de 10,25% nos últimos 12 meses, o Brasil está atrás apenas da Argentina, com inflação de 51,4%, e da Turquia, com variação de 19,58%, considerando o G-20. Esse fenômeno, só se explica pela terra arrasada que a implementação dos ajustes e das reformas produziram no país, destruindo empregos, direitos e a renda da classe trabalhadora, preparando o terreno para esse efeito avassalador. Portanto, a inflação é uma das responsáveis pela fome no país, mas basta olhar o gráfico acima para ver que a carestia de vida vem crescendo desde 2013, concomitante com a aplicação dos ajustes e das reformas.

Como desenvolvemos neste artigo, cada uma das reformas e privatizações ajudaram a rebaixar as condições de vida das massas trabalhadoras. O exemplo da Petrobras é talvez o caso mais elucidativo, com a política de repasse automático dos preços internacionais do barril de petróleo, a alta do combustível foi potencializada aqui no país pela concomitante valorização do dólar - fruto de uma política cambial de Paulo Guedes que engordou seu patrimônio em milhões de dólares, como revelado pelo Pandora Papers, enquanto fez definhar as condições de vida da população trabalhadora. Ou seja, a política privatista priorizando o lucro dos acionistas, assim como a privatização das distribuidoras e o lucro do agronegócio, produziu a explosão do preço da gasolina que se generaliza por toda a economia através do frete.

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Além disso, é evidente a correlação na redução da renda e destruição de empregos, logo na produção de fome e miséria, que produziram ajustes como: a reforma trabalhista aprovada em 2017, que arrancou direitos, aumentou a precarização do trabalho e a informalização na classe trabalhadora; junto com a reforma da previdência em 2019, que também impacta a renda de muitas famílias, ao impedir que a população tenha acesso a aposentadoria, ou se aposente com salários menores.

Privatizações e reformas potencializam a inflação no Brasil, produzindo carestia e fome

Uma análise estrutural da fome no país

Quem inventou a fome são os que comem.
Carolina Maria de Jesus

Quando tratamos da fome no Brasil, existe uma flagrante contradição: como existe insegurança alimentar no país que é um dos maiores produtores de alimentos do mundo? Basta olhar para os crescentes lucros do agronegócio, mesmo em meio a pandemia, para concluirmos que não se trata de uma questão de escassez de alimentos.

O próprio agronegócio brasileiro se vangloria - através de um investimento milionário em propaganda - de ser uma grande máquina produtiva, o carro chefe do país, sendo o principal setor exportador. Os quatro principais produtos de exportação são a soja (11,57% do valor total das exportações), o petróleo (10,74%), o minério de ferro (8,98%) e o milho (3,20%). Ampliando o conceito de agronegócio para incorporar a indústria de transformação de baixo valor agregado, poderíamos destacar também as exportações de carnes desossadas (2,5%), processados de frango (2,15%), óleo de soja (1,99%) e outros açúcares de cana (1,99%).

A primeira conclusão a se extrair desses dados é a orientação da produção agrícola nacional para a exportação. Esse fato se acentuou ainda mais na conjuntura, dada a valorização do dólar, o que fomentou ainda mais a cobiça dos latifundiários brasileiros para destinar o grosso de sua produção aos mercados internacionais, reduzindo a oferta interna e com isso pressionando ainda mais os preços. Mas, para além dessa janela de oportunidade, esse olhar ganancioso para fora do agronegócio sempre foi o fundamento da nossa economia.

É lugar comum apontar como a formação econômica do Brasil desde seu primórdio se constitui através da exploração agrícola. Da cana de açúcar, ao café, ao cacau, à borracha, até chegar a atual primazia da soja, a economia brasileira jamais superou a dependência das commodities, uma marca do atraso da produção nacional. Porém, a continuidade que queremos ressaltar aqui é da forma de propriedade que esses ciclos econômicos sempre exigiram. Dos senhores de engenho aos atuais empresários do “moderno” AGRO, o latifúndio sempre foi a forma de propriedade vigente e a monocultura seu modo de produção.

Essa forma de propriedade tem uma implicação direta com a questão da fome no país. Outra contradição resultado dessa vocação à exportação - ou melhor, da imposição a essa estrutura exportadora - é que o país que produz um imenso volume de alimentos, que possui uma enorme quantidade de terras agricultáveis, tem de importar diversos alimentos da alimentação básica de sua população. Por exemplo, em relação ao arroz, as importações nos últimos anos só têm crescido: em 2018 foram 614 mil toneladas, chegando em 2020 a quase 1 milhão de toneladas compradas. Ou seja, ainda que o país produza recorde atrás de recorde em suas colheitas anuais, em relação à alimentação do cotidiano da população trabalhadora, não temos sequer soberania alimentar.

Essas considerações levam a uma conclusão, de que para enfrentar a fome no país é necessário enfrentar o agronegócio que concentra as terras em sua mão e orienta o conjunto da produção agrícola para a exportação e a maximização de seu lucro. Entretanto, o que vemos nos últimos anos é a tendência contrária, o agronegócio apenas avança sua influência política no regime do pós-golpe. Ele que já foi peça chave do golpe, mesmo tendo nos governos petistas todo incentivo a sua expansão, encontra no governo Bolsonaro um legítimo jagunço dos seus interesses, defendendo a devastação ilimitada para ampliação das terras às pastagens e ao cultivo de soja, exigindo a aprovação do marco temporal e o roubo das terras originárias indígenas. Não à toa, parte do agronegócio financia diretamente os atos bolsonaristas, sendo um pilar de sustentação do governo.

Entretanto, é nos anos petistas que o AGRO dá esse salto para um papel de destaque no país. Apesar dos avanços evidentes que as políticas públicas petistas produziram em relação ao combate à fome, com a simbólica saída do mapa da fome em 2014, o retorno desse flagelo mostra que as promessas do gradualismo lulista frente às questões estruturais foram só ilusões. Isso se torna evidente pelo retorno da fome, pela favelização do país, pela ameaça de fechamento de universidades.

O Fome Zero e o Bolsa Família cumpriram um papel de promover ganhos aos trabalhadores, mas não passaram do patamar de concessões parciais, cujos limites se mostraram todos com a crise econômica desde 2013. É impossível desvincular a análise dos resultados dessas políticas do período de bonança econômica global que as propiciaram, mas enquanto aos trabalhadores foram entregues concessões, o agronegócio capitalizou esse superciclo das commodities para expandir seus lucros e seu poder político. Um salto financiado em base a bilhões destinados através do Estado pelo Plano Safra, que durante os anos petistas se elevou de R$ 20,5 bi, em 2002, para R$ 187,7 bi, em 2016 - e esse ano chegará a R$ 236 bi.

Gráfico por: Filipe Borin/Ed. Globo

Esse é o resultado da conciliação de classes. Ainda assim, contra os anos de gestão petista em que pouco se avançou com a redistribuição de terras, Lula e o PT insistem que é possível conciliar os interesses do agronegócio com a reforma agrária. Trata-se da tragédia do pensamento de quem já abandonou qualquer estratégia de classe e a resolução efetiva dos problemas, e frente ao avanço da fome e a miséria só tem a oferecer a espera passiva pelas eleições.

Quem tem fome tem pressa: um programa operário de saída para a crise

“Meu grande sonho é ser gente”
Rosângela Sibele

A frase dita por Rosângela Sibele, mãe de cinco filhos que foi presa por furtar dois pacotes de miojo, uma Coca-Cola de 600ml e um pacote de suco em pó, em São Paulo, mostra toda a violência e desumanização bárbara que aflige aqueles que passam fome. Expressa também a urgência de lutarmos pela erradicação da fome no Brasil e em todo mundo.

Quem tem fome, tem pressa. Não podemos esperar até 2022 para resolver essa barbárie que apenas se agrava. Muito menos é possível confiar que a repetição de velhas fórmulas, resolverá, quando elas se mostram esgotadas. Somente com a luta de classes podemos impor demandas urgentes, como um auxílio emergencial de ao menos um salário mínimo e a derrubada de todos os aumentos feitos na pandemia (luz, água, gás, gasolina e transporte), congelando os preços nos valores anteriores à crise sanitária. Mas precisamos lutar por uma saída de fundo para os problemas do país. Isso passa por colocar para fora Bolsonaro e Mourão, mas combinado com uma luta emergencial contra o desemprego e os salários de miséria: uma luta por reajuste salarial mensal igual à inflação e emprego com plenos direitos para todos. Um programa da nossa classe para resolver emergencialmente a fome e que poderia fazer avançar a luta pela reforma agrária contra o agronegócio, impondo uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que propicie o choque político entre as classes e abra caminho à perspectiva da batalha por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

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