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EDITORIAL

Novos ares de mobilização e a adaptação à agenda da CPI: confiar nas forças da nossa classe e da juventude

Com a CPI da Covid se transformando em um verdadeiro Big Brother de Brasília é importante ressaltar que, do ponto de vista da classe trabalhadora, não foi este o fato mais importante da semana passada, mas sim a enorme força que os metroviários de São Paulo expressaram em sua greve.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

domingo 23 de maio| Edição do dia

Na última semana, os metroviários de São Paulo protagonizaram uma greve dura contra a retirada de direitos por parte da empresa e do governo Doria. Diante disso, apesar das direções burocráticas da CUT e da CTB, que contaram inclusive com o auxílio das correntes de esquerda, os metroviários fizeram uma forte greve que só não conquistou todos os direitos porque essas direções burocráticas fizeram parte do desmonte da greve orquestrado pela empresa com o auxílio do reacionário apresentador de TV Datena. Deste balanço tratamos aqui, mas o que queremos analisar é que tipo de inflexão expressa uma greve que enfrentou todo tipo de adversidades, em especial uma furiosa campanha da imprensa e, mesmo assim, não recebeu rechaço popular, ao contrário, vimos demonstrações espontâneas de apoio. Já viemos tratando de alguns processos moleculares de lutas desde o começo do ano como a greve dos trabalhadores do Hospital Universitário da USP, a luta dos trabalhadores da Ford, a greve de um mês das trabalhadoras terceirizadas das fornecedoras da LG, paralisações de rodoviários no Rio Grande do Norte, Pernambuco e outros estados, luta de merendeiras no Rio de Janeiro, greve de professores e profissionais da educação em São Paulo e em Minas Gerais e outros processos de resistência. Em nenhum momento essas lutas tiveram preponderância sobre a situação reacionária na qual nos encontramos hoje, mas do ponto de vista da esquerda era decisivo dar toda atenção a elas.

Agora, com uma categoria com o peso dos metroviários de São Paulo, é preciso analisar que tipo de sinalização isso pode expressar em relação ao ânimo das massas diante de uma situação calamitosa de quase 450 mil mortes, fome e desemprego, além de uma agenda de ataques que inclui o STF tentar votar na próxima semana a permissão de demissão coletiva em massa sem passar por acordo coletivo, a reforma administrativa, a privatização da Eletrobrás, dos Correios e o ataque direcionado ao orçamento das Universidades e Institutos Federais. Já havíamos visto nas últimas semanas com a chacina de Jacarezinho uma tentativa maior de direitização da situação, embora tenham ocorrido manifestações de vanguarda contra esse absurdo. São sintomas de um ânimo de massas que ainda não se decidiu totalmente pelo combate, mas dá mostras de que a linha do “fica em casa” promulgada por todas instituições do regime, supostamente contra o negacionismo de Bolsonaro, começa a demonstrar os seus limites. Ou, mais claramente, começa a ficar claro que o “fica em casa” não era uma política de isolamento social racional contra a Covid-19, mas uma linha de conter o ânimo das massas em possíveis explosões sociais para conduzir esse descontentamento à via institucional, transformando trabalhadores e juventude em telespectadores da CPI da Covid e em indivíduos que esperam passivamente as eleições de 2022 para eleger Lula, que carregará junto com ele um sem número de golpistas, ajustadores e coronéis de todo tipo, como José Sarney, além de neoliberais como FHC, símbolos da velha política.

Esses sintomas e limites se expressam agora com a convocação das manifestações do dia 29, que inicialmente eram motorizados pelo enorme ataque às universidades e institutos federais, mas que se ampliou por política da Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo para a consigna “Fora Bolsonaro”, leia-se “impeachment para entrar o General Mourão”. É evidente que a luta contra os cortes nas universidades e institutos federais está naturalmente ligada ao rechaço ao governo Bolsonaro, e assim deve ser. Mas é preciso ter clareza que as direções destes movimentos, ainda que agora se vejam obrigadas a convocar manifestações de rua pelo esgotamento da linha do “fica em casa”, não mudaram a sua política, que segue sendo exatamente a mesma e, no máximo, transformar manifestações de rua em instrumentos de pressão para que a CPI “dê resultados”, alentando a ilusão do impeachment. Ainda assim vemos, como sempre, a política traidora da CUT convocando uma manifestação simbólica para o dia 26 em Brasília, para justificar sua ausência dos atos da juventude, dividindo forças com o dia 29 e enfraquecendo essas mobilizações. A CTB, que é dirigida pelo PCdoB, partido que também dirige a UNE, está em silêncio sobre os atos. Este tipo de manobra deve ser denunciado amplamente nos quatro cantos do país, inclusive contra aqueles que se calam diante deste tipo de divisionismo.

Diante deste cenário consideramos fundamental batalhar por uma política de massificação das manifestações do dia 29 buscando que seja organizado através de assembleias de base em todos os locais de trabalho e estudo. Que o primeiro motor dessas manifestações, que foi o ataque às universidades e institutos federais, se unifique com a luta contra toda a agenda de privatizações e ataques aos trabalhadores, unindo juventude e classe trabalhadora em uma só batalha. Que se dispute a bandeira do movimento e não seja Fora Bolsonaro, para abrir espaço a um general da ditadura militar, garantindo um rearranjo deste mesmo regime podre, mas que seja Fora Bolsonaro, Mourão e os militares, deixando claro nosso rechaço ao STF, Congresso Nacional e governadores, que são parte do golpismo que nos trouxe até o reacionário governo Bolsonaro. Enfrentar, neste movimento, as tentativas de canalização da nossa luta para a via institucional, seja CPI da Covid, seja o próprio impeachment. Que este movimento avance para levantar as demandas mais sentidas da população, exigindo o fim dos cortes nas universidades e de todos os ataques aos trabalhadores que estão anunciados, vacinação para todos com a quebra de patentes e sem indenização para as empresas, a proibição das demissões, contra a precarização do trabalho e a fome, por um auxílio emergencial de pelo menos um salário mínimo. Lutando para que as centrais sindicais saiam da sua quarentena e se coloquem de corpo nessa luta para unir a nossa classe por essas demandas e, para isso, criem mecanismos de coordenação e unificação deste processo. O dia 29 não pode ser um dia de protesto datado, deveria ser o início de uma mobilização real coordenada contra todos os ataques que nossa classe está sofrendo.

Neste caminho vamos enfrentar a política eleitoral do PT, mas também a linha eleitoralista da direção do PSOL, partido que se encontra dividido entre embarcar com tudo na candidatura de Lula ou ter candidatura própria, ainda que ambas as alas compartilhem a mesma política de servir como linha auxiliar do PT com impeachment, de afago às burocracias sindicais e espectadores de CPI. É por isso também que se eximem de entrar em importantes discussões da esquerda internacional como a crise do NPA na França. Outras organizações de esquerda como UP e PCB, que por vezes aparecem como mais "combativas" do que o PSOL, também levam à frente essa mesma política do impeachment, colaborando com as burocracias do PT e do PCdoB. Essa política não nos leva a lugar nenhum e por isso é preciso confiar nas forças dos trabalhadores, da juventude, das mulheres e negros para enfrentar Bolsonaro, Mourão e todo o regime do golpe institucional se inspirando na luta da população na Colômbia e no Paraguai. A situação da pandemia no Brasil, que atingiu índices escandalosos, podendo ainda enfrentar uma terceira onda, como apontam alguns especialistas, deve ser um motor para que organizemos as nossas lutas, porque a maioria dos que morrem são a classe trabalhadora e o povo pobre. Com distanciamento social, segurança sanitária e uso de máscaras é possível erguer nossa força. Essa força não pode almejar tirar Bolsonaro para colocar Mourão em seu lugar, e sim se enfrentar com o conjunto do regime político golpista e todos seus atores, lutando para impor com nossa mobilização uma assembleia constituinte livre e soberana, que coloque nas mãos da maioria da população as principais decisões sobre os rumos do país, batalhando pela revogação das reformas e pela garantia de todos os direitos democráticos das mulheres, negros, LGBTs e todos os oprimidos, além de outras demandas. Neste sentido é importante desde já tirar lições dos principais processos de luta de classes a nível internacional, como foi a revolta no Chile em 2019, que resulta agora justamente em uma convenção constituinte, através da qual o regime busca desviar a raiva de massas que se expressou, um processo que também coloca importantes discussões na esquerda.

Como sintoma internacional de um possível levante da juventude vemos os massivos atos nos Estados Unidos contra os ataques do assassino Estado de Israel na Faixa de Gaza que contam com o apoio “negociador” de Joe Biden, presidente dos Estados Unidos que contou com voto crítico até mesmo de figuras do PSOL. A bandeira anti-imperialista em defesa da Palestina deveria ser tomada com força também no Brasil pela centralidade que este tema ocupa diante do massacre que vive todos os dias palestinos e palestinas e também diante do apoio putrefato de Jair Bolsonaro a todas essas mortes protagonizadas pelo Estado de Israel. A nossa luta não tem fronteiras e por isso a bandeira de uma Palestina não somente livre, mas operária e socialista deve ser assumida com toda força. Na próxima semana o MRT vai girar seus esforços batalhando por assembleias e por este conteúdo em todos os locais de trabalho e estudo rumo ao dia 29, com a juventude Faísca à frente, potencializando com toda força nosso combate anti-imperialista e batalhando para que os novos ares de mobilização, como fizeram os metroviários na greve, sejam o eixo de nossa resposta a Bolsonaro, Mourão e o regime do golpe, que continua os ataques contra os trabalhadores e a juventude, como os cortes da educação. É preciso barrar esses ataques nas ruas unificando a juventude e a classe trabalhadora.




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