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POLÊMICA | Novo MAS/SoB: ruptura com a independência de classe

segunda-feira 12 de julho | Edição do dia

Debatemos aqui com artigo publicado pela corrente Socialismo ou Barbárie, da qual faz parte o Novo MAS argentino, no qual polemizam conosco e defendem sua política dentro do PSOL brasileiro. Novamente se vê como seu sectarismo divisionista na Argentina e seu oportunismo no Brasil são diferentes expressões do mesmo abandono da independência de classe.

A corrente internacional Socialismo ou Barbárie (SoB) “responde” (com muito menos argumentos do que adjetivos contra nossa corrente) as críticas que fizemos à esquerda argentina, inclusive ao Novo MAS, seu partido naquele país, pela sua adaptação à política de conciliação de classes do PSOL no Brasil, e também do NPA na França. Para isso, fazem uma defesa do PSOL como partido, por um lado reivindicando entusiasticamente o seu projeto fundacional, e por outro ressaltando que está em aberto a disputa pelos rumos que seguirá.

Primeiro caberia dizer que ao contrário de “pôr de pé uma organização socialista” que “superasse a estratégia do PT”, o “projeto original” do PSOL, formado por dissidentes do PT frente aos ataques dos primeiros anos do governo Lula, se sintetizou justamente na ideia de “retomar o PT das origens”, muito distante de um projeto socialista e revolucionário.

Depois, é preciso esclarecer que é totalmente abstrata a definição de que a disputa contra os “perigos e pressões” dentro do PSOL está em aberto: é preciso tratar concretamente do que está acontecendo com o PSOL hoje. O partido não só atua em um bloco parlamentar com o PT como é cada vez mais seguidista de sua política. Atravessa uma enorme crise, as figuras que o partido mais promoveu, como Freixo e Jeans Willis estão diretamente indo para o PT e partidos burgueses como o PSB. E sua maioria não só está conduzindo o partido para a frente ampla que Lula articula com partidos da direita dura tradicional, como já está governando uma capital, Belém, implementando ataques contra os trabalhadores. Isso para não falar da sua total complacência e subordinação à linha da burocracia sindical petista de desmobilização da classe trabalhadora.

E a “luta interna” contra essa linha se materializa na defesa da candidatura de Glauber Braga. A SoB diz que é uma “mentira stalinista” a caracterização de que nessa disputa não somente a ala defensora da frente ampla com Lula, mas também a ala defensora da candidatura de Glauber Braga é movida por interesses eleitorais e cálculos sobre a melhor maneira de eleger o número de deputados necessários para ultrapassar a cláusula de barreira. Como ao longo de todo o artigo da SoB, a intensidade dos adjetivos contra nossa corrente aumenta proporcionalmente à falta de argumentos políticos. Mas aí não se trata só de uma caracterização política nossa, mas da linha enunciada explicitamente pelo próprio MES, que encabeça a defesa de Glauber, em um artigo que aventava ainda uma aliança com Ciro Gomes e o PDT!

A SoB diz que não tem nada a ver com o MES, “que defendem uma candidatura PSOL própria, mas sem apresentar nenhum critério de estratégia revolucionária a esse respeito” e que só mencionamos o MES para “sujar a imagem do SoB associando-o ao histórico oportunista do MES”. Mas a política da SoB e do bloco que ela integra no PSOL é exatamente a mesma que a do MES: candidatura eleitoral de Braga e impeachment. A SoB pode dizer que tem os “critérios de estratégia revolucionária” que queira para defender essa política, mas a política continua sendo a mesma.

Sobre a candidatura de Glauber Braga, já debatemos aqui a ausência de independência de classe de sua trajetória e programa: fez sua carreira política no PSB, que chegou a presidir no RJ, um partido burguês, ativo defensor do golpe, que presidiu a frente de prefeitos pela reforma da previdência e deu votos para ataques como a reforma trabalhista. O programa de sua pré-candidatura, apesar da fraseologia, nas propostas concretas se limita a um conteúdo antineoliberal, de modo nenhum “anticapitalista” como diz a SoB. E, em todo caso, admitiu em entrevista recente a possibilidade de até mesmo retirar a candidatura ainda no primeiro turno para apoiar Lula, em um cenário de polarização.

E tem ficado cada vez mais claro aonde leva a defesa, feita pela SoB, do impeachment, que na última semana foi feita em um palanque comum entre PSOL e partidos de esquerda, e figuras e partidos da extrema direita, como Joice Hasselman (que foi líder do governo Bolsonaro na câmara e integra o PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu e com o qual rompeu posteriormente), que assinaram juntos um “superpedido de impeachment” (também reivindicado pela SoB, assim a realização das manifestações conjuntas com a direita). Impeachment que, se tivesse chance real de acontecer agora, seria dependendo da aprovação de mais de dois terços do congresso, ou seja, do acordo com a maioria dos partidos de direita em um pacto para conduzir ao governo o General Mourão, como se fosse um mal menor (como debatemos aqui). No caso da SoB, deixa claro que sua política de fato é o impeachment (colocando as manifestações a serviço de pressionar o congresso e o centrão a aprová-lo, e até mesmo quando fala, lateralmente, em greve geral é com esse objetivo!). Mas coloca secundariamente também a política de antecipar as eleições gerais, marcadas para 2022, ou seja, um mecanismo que, frente a uma mobilização suficientemente forte para o impor, serviria justamente para desviar essa mobilização e contê-la nos marcos do regime político atual, elegendo alguma mediação (provavelmente Lula) e deixando as instituições intactas. O que nenhuma dessas alas defende é uma política para derrubar Bolsonaro, Mourão e os militares de forma independente e em choque com todas as instituições do regime, que é uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana.

Mas, afinal, uma das expressões mais claras do estado atual da “disputa” pelos rumos do PSOL, ou seja, da integração do PSOL ao regime político herdeiro do golpe institucional - em que quanto mais o regime se desloca à direita, mais isso serve de justificativa para alianças com partidos e candidatos da direita - foram as coligações do PSOL nas eleições municipais de 2020, com partidos burgueses e golpistas. E sobre isso nossas críticas não vão somente a uma ou outra ala do PSOL, e à mera “adaptação” ou “falta de combate” da SoB a essa política: a própria SoB protagonizou uma dessas coligações, tendo a candidata à vice-prefeita em uma coligação do a Rede - partido de Marina Silva, apoiador do golpe, da prisão de Lula e das reformas anti-operárias -, em Santo André, justamente uma das poucas cidades onde essa corrente tem presença.

Argumentam que foram contrários à aliança, mas bastou terem a oportunidade de ficar com a vaga de candidata a vice-prefeita para isso deixar de ser um problema. Não resiste a muita coisa a “independência de classe” da SoB. Então argumentam que o fizeram porque não era da Rede o candidato a prefeito, como se não soubessem o que significa uma coligação em uma eleição à prefeitura de uma cidade: nada menos que a intenção de compor um governo com um partido burguês e golpista, que chamam de “centro-direita”. Frente a isso, podem citar muitas “teses” do bloco interno que integram no PSOL em defesa de uma política “socialista” em “contraposição à linha de conciliação defendida pela maioria do partido”, e repetir muitas vezes “mentira!”, mas isso não muda o fato de que estão não só acompanhando como protagonizando as alianças do PSOL com partidos de direita.

E a SoB começa seu texto dizendo que haveria algum problema com nossos "princípios” por termos apresentado candidaturas por filiação democrática no PSOL, enquanto fazemos essas críticas ao partido, para depois nos criticar por não termos mantido nossa candidatura em Santo André, a partir do momento em que foi aprovada essa aliança com a Rede. A falta de coerência consigo mesmos é sinal do desespero. De nossa parte, consideramos que nossa política de filiação democrática é principista justamente na medida em que não deixamos de fazer nenhuma crítica, e nos orgulhamos de não termos problema nenhum em sacrificar nossas candidaturas - mesmo neste caso, em que nossa companheira havia sido candidata mais votada pelo PSOL na cidade e em todo o ABC paulista nas eleições anteriores - na medida em que, como foi o caso, a capitulação do PSOL tenha exigido essa medida, depois de uma intensa campanha contra aquela aliança, como condição para manter nossa luta política contra a conciliação e para convencer a vanguarda da necessidade de uma política de independência de classe.

Já a SoB, não somente deixou de combater, mas diretamente se integrou ao processo pelo qual, quanto mais Bolsonaro ataca as condições de vida das massas, quanto mais a extrema direita ganha corpo, os militares se enraízam no Estado e o caráter democrático burguês do regime é degradado, mais o PSOL responde que a ordem do dia é “derrotar o fascismo” e para isso qualquer alternativa eleitoral que se contraponha ao bolsonarismo seria válida, capitulando a um “mal menor” cada vez maior, e se deslocando à direita junto com o próprio regime.

O oportunismo contra a independência de classe na França

Descaradamente, a tentativa da SoB de “responder” à crítica por integrarem uma coligação com um partido burguês (de “centro-direita”) no Brasil é que nós supostamente teríamos feito algo semelhante em Bordeaux na França, então não poderíamos criticá-los (ou seríamos, de novo, “stalinistas” por fazê-lo!).

Mas, para além da própria lógica oportunista do argumento, a questão é que é evidentemente absurda a comparação entre as duas situações. Apesar de que nós mesmos tratemos criticamente nossa participação na chapa “Bordeaux em luta”, em função do desenvolvimento político posterior à sua formação, e por isso mesmo tenhamos rompido com ela, essa chapa não se formou como uma coligação de partidos, muito menos com a “centro-direita”, e sim como uma chapa para as eleições municipais formada pelos movimentos sociais, coletes amarelos e setores em luta, no contexto da intensa luta de classes na França nos últimos anos, com um programa de independência de classe e globalmente anticapitalista. A chapa era apoiada pelo NPA e pela LFI (partido da esquerda institucional), mas seu acordo de formação afirmava explicitamente não se tratar de uma coligação NPA-LFI, e sim de uma chapa de representantes de movimentos sociais, sustentada por essas organizações. Ainda assim, quando a LFI ganhou mais peso nela e ela passou a ser usada pela direção do NPA para impulsionar coligações com a LFI em outras eleições, nós rompemos com essa chapa, criticando publicamente. Não só isso não teve absolutamente nada a ver com uma aliança de partidos entre PSOL e a Rede, um partido burguês golpista defensor das reformas anti-operárias, como nossa postura não teve nada a ver com a da SoB, que se colocou a protagonizar aquela candidatura, e segue reivindicando a campanha.

Mas já é diretamente ridículo que nos acusem de capitulação às alianças com a LFI na França, quando acabamos de ser excluídos do NPA justamente por combater essa política. A questão é que a SoB adota a política da direção do NPA - essa sim de viés rigorosamente stalisnista - de dizer que não fomos excluídos, apesar de a direção ter votado que nossa militância não poderia participar das plenárias de eleição dos delegados para a conferência do NPA em igualdade de condições com as demais correntes, declarando abertamente como fundamento considerarem nossa corrente uma força externa ao NPA, que precisava ser separada do partido. A SoB em seu artigo repete o mesmo discurso, diz que já rompemos ao defender publicamente uma pré-candidatura - vejam só, justamente os entusiastas da pré-candidatura de Glauber Braga no PSOL! -, e que o fizemos por ser “uma seita umbiguista ridícula que pensa que o candidato da CCR é o único capaz de representar um posicionamento de independência de classe, por sua corrente ser a única ‘ala esquerda’ do partido”. De novo, a carga dos adjetivos é proporcional à falta de argumentos, e neste caso também à quantidade de mentiras - e nos referimos a mentiras de fato, já que é público o quanto batalhamos intensamente com chamados à esquerda do partido a apresentarmos uma candidatura comum, dizendo especificamente que não precisaria ser Anasse Kazib, ferroviário da CCR, bastando que fosse uma candidatura da esquerda do partido em contraposição à linha da direção de aprovar a candidatura de Poutou, caracterizada por representar a aliança com a LFI, já que é um dos principais portavozes na Nova Aquitânia, onde o NPA se coligou com a LFI nas recentes eleições regionais. Afinal, fica evidente a política oportunista da SoB, se adaptando à direção histórica do NPA e defendendo todo o seu discurso, e inclusive a linha da candidatura “unitária” do NPA que, como já era óbvio, enfim resultou na aprovação do nome de Poutou - sem qualquer alternativa contraposta na conferência -, que a SoB já saiu defendendo.

O sectarismo contra a independência de classe na Argentina

Enquanto no Brasil e na França se adaptam de maneira oportunista ao aprofundamento da política de conciliação por parte dos “partidos amplos”, na Argentina a SoB encobre seu oportunismo com sectarismo frente ao que é hoje justamente a única frente política e eleitoral de independência de classe internacionalmente, com algum alcance significativo, em contraposição aos engendros reformistas que se espalharam mundo afora.

A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores-Unidade, a FIT-U da Argentina, é uma frente composta por correntes trotskistas com um programa de independência de classe e por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo. Teve cerca de 80% dos votos da esquerda nas últimas eleições, e hoje está chamando as organizações da esquerda argentina que seguem fora da frente a construir uma nova frente de unidade de todas as forças que lutam por uma solução própria dos trabalhadores e evitar que tanto o oficialismo peronista (representado no governo por Alberto Fernández e Cristina Kirchner), quanto a oposição de direita (representada na formação Juntos por el Cambio, de Mauricio Macri), explorem um divisionismo inexplicável na esquerda. Seria um salto na construção de uma referência política que desperte o entusiasmo de centenas de milhares batalhando para convencer setores de massa da necessidade de uma saída de independência de classe para a crise. E uma medida importante na luta para instalar nacionalmente a esquerda como terceira força política, contra a direita e o peronismo.

Mas, justamente aí, onde se trata de uma frente como essa, e não de um partido amplo girando ao reformismo e à conciliação de classes, o Novo MAS - única organização da SoB com certa presença - se nega a qualquer política de unidade, somente pelo mais puro sectarismo. É a expressão de como oportunismo e sectarismo são, como dizia Trotsky, duas faces da mesma moeda: neste caso, da rejeição da independência de classe.




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