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Novas variantes da pandemia e o velho racismo e espoliação da África

Yuri Capadócia

Novas variantes da pandemia e o velho racismo e espoliação da África

Yuri Capadócia

Se a origem da nova variante do coronavírus, a ômicron, detectada pela África do Sul, ainda é incerta; a reação ao vírus com o fechamento das fronteiras de vários países africanos e a desigualdade vacinal, que pode ter contribuído para sua aparição, são reveladores do racismo e das mazelas estruturais dos países africanos provocadas pela persistente espoliação dos países imperialistas sobre o continente.

No dia 24 de novembro, a África do Sul comunicou a Organização Mundial da Saúde a descoberta de uma nova variante em seu território. Ao anúncio se seguiu um pânico, expresso na queda das bolsas de valores em todo o mundo e na maior queda diária do preço do petróleo desde abril de 2020, além da alta do dólar. Passados dois anos de pandemia, o vírus mostra que ainda condiciona a dinâmica da economia capitalista a seus tempos e mutações. A histeria do mercado foi seguida pelo anúncio de medidas autoritárias pela União Europeia, os Estados Unidos e mais de 20 países, entre eles o Brasil, que suspenderam os voos procedentes dos países não só da África do Sul, mas de outros 5 da região.

Sequer se sabe ao certo a origem dessa mutação, o fato de ter sido primeiro detectada pela África do Sul, não significa que ela é proveniente de lá, como a descoberta de casos dessa variante na Holanda anteriores à descoberta do país da África Meridional explicitou a histeria e o racismo dessas reações. Além disso, esse pânico foi deflagrado mesmo sem se ter conhecimento do real impacto que essa nova cepa pode produzir. Segundo a OMS, serão necessárias ainda semanas para se poder prever o comportamento da nova variante, seu grau de contágio (que parece superior ao de outras variantes) e letalidade, se as vacinas atuais produzirão resposta imunológica a ela ou não, etc.

O dado mais alarmante que já se tem conhecimento, e levou a OMS a classificar a nova cepa como variante de preocupação, é a quantidade de mutações que ela possui, e mais precisamente onde se deram essas mutações. O mapeamento genômico identificou mais de 50 mutações dessa cepa batizada de “ômicron”, a maior parte delas na proteína spike, que é empregada em grande parte das vacinas para identificar o vírus e levar o organismo a produzir resposta imunológica. Essa característica pode tornar as vacinas atuais menos eficazes contra essa variante.

O componente racista na histeria em torno da nova cepa

No entanto, fora o caráter especulativo da reação dos mercados, o que chamou a atenção na reação dos governos dos países centrais foi a velocidade com que impuseram proibições à entrada de viajantes de países africanos - África do Sul, Botsuana, Lesoto, Eswatini, Namíbia e Zimbábue - sendo que alguns deles sequer haviam reportado casos da variante, e apresentavam um quadro da pandemia mais controlado do que os países europeus. Existe um evidente componente de racismo nessa reação de pânico que escala arbitrariamente as restrições aos países africanos.

Poderíamos citar o fato da Holanda ter descoberto casos da variante ômicron em amostras de 19 e 23 de novembro, que não acarretou nenhuma restrição ao país, como prova cabal do racismo desses decretos. A xenofobia dos políticos europeus está sempre a postos para transformar os africanos em ameaças e decretar medidas restritivas contra eles.

Desde o início da pandemia, que são feitos prognósticos de um massacre do vírus na África. O estigma da pobreza e a associação do continente a epidemias contribuíram para compor um potencial devastador do vírus no continente que não se confirmou. O Ocidente, tradicionalmente, concebe a África em seu imaginário como portadora de paisagens exóticas e perigos letais, entre eles doenças avassaladoras, como a Aids e o ebola. Porém essas perspectivas, em termos relativos, não se confirmaram, a África em comparação com a Europa apresentou uma quantidade de casos e, principalmente, de letalidade menor. É preciso entender que a África é o segundo continente mais populoso, com 55 países, envolvendo realidades bastante diferenciadas. O país mais afetado é justamente a África do Sul, concentrando 3 milhões de casos dos mais de 8 milhões totalizados na África, e 90 mil mortes das 224 mil no continente.

Um fenômeno que ainda precisa ser integralmente desvendado mas que possui entre suas explicações a composição demográfica da África, com média de idade bastante inferior aos demais países (em torno de 19 anos, enquanto na Europa a média fica em 45 anos) e seu menor intercâmbio internacional.

Por este gráfico, é possível acompanhar a evolução dos casos nos países onde há dados disponíveis. Fonte: COVID-19 Data Repository by the Center for Systems Science and Engineering (CSSE) at Johns Hopkins University

A desigualdade vacinal como a ameaça real

No entanto, ao pânico irracional se soma um medo coerente. Os líderes imperialistas sabem que enquanto o vírus tiver livre circulação, estará sujeito a mutações que podem renovar indefinidamente o caráter catastrófico da pandemia, sendo que essas mutações são mais prováveis em países com baixa imunização. A África é o continente com a menor taxa de imunização contra a COVID-19, sendo a África do Sul a líder na taxa de imunização com modestos 34,5% da população vacinada. De acordo com a OMS, mais de 80% das vacinas mundiais foram destinadas aos países do G20, enquanto os países de baixa renda, a maioria deles na África, receberam apenas 0,6% de vacinas. Enquanto os países centrais avançam para a dose de reforço, nos países coloniais e semicoloniais sequer a primeira dose foi amplamente aplicada.

Mesmo sendo evidente as consequências dessa desigualdade vacinal, os países imperialistas preferem priorizar o lucro bilionário das indústrias farmacêuticas, preservando suas patentes, enquanto negligenciam a vida de bilhões de pessoas das nações pobres. As iniciativas de doação de imunizantes, como a Covax, encabeçada pela OMS, se mostram totalmente insuficientes.

Essa discrepância, pode ser ainda alargada pelo surgimento dessa nova variante que pode demandar novos imunizantes, caso se confirme a fuga imunológica dessa cepa. As fabricantes das vacinas ainda estudam a necessidade, mas algumas já falam sobre a possibilidade de “atualização” das vacinas, o que levaria a uma nova guerra, com a corrida para a produção e a disputa entre os países pelas doses.

De acordo com a previsão da produção da Airfinity, consultoria que assessora as multinacionais do setor de saúde, não haverá doses suficientes produzidas para uma implementação global da vacinação até ao final do próximo ano. "Na melhor das hipóteses, em que todos os produtores de vacinas mudam de instalações de produção e escalam rapidamente, 6 bilhões de doses poderiam ser produzidas até outubro de 2022", aponta.

Dessa maneira, a possibilidade constante de mutações, se torna um trunfo para as farmacêuticas com a periódica renovação da demanda por seus produtos.

O combate à pandemia no contexto semicolonial africano

Se no Brasil, um país atrasado e dependente com traços semicoloniais, o combate a pandemia já expõe o atraso estrutural do nosso país - uma nação em que existem quase 30 fábricas de vacina para gado, contra apenas 2 para humanos -, é possível imaginarmos as dificuldades de países com características semicoloniais mais clássicas como os africanos.

No Brasil, mesmo com a enorme capacidade demonstrada pelo SUS, havia preocupações em relação à estrutura e à logística necessária para realizar a ampla vacinação de toda a população. Nos países africanos as dificuldades para o avanço da campanha de imunização se fazem não só na aquisição das doses, mas também na falta de equipamentos para o armazenamento adequado e a refrigeração necessária das vacinas, além da disponibilidade dos insumos para a aplicação, como seringas.

Assim como o Brasil, os países africanos são espoliados cotidianamente pelo mecanismo da dívida pública, que compromete seus orçamentos, impedindo o investimento no sistema de saúde, na seguridade social, drenando esses recursos diretamente para o bolso dos banqueiros imperialistas. Assim, os países africanos estão subordinados aos planos de austeridade fiscal prescritos pelo FMI, e também pelas imposições da burocracia do PC Chinês que investiu bilhões na região, como parte de seu plano de expansão de sua influência internacional, conhecido como A Nova Rota da Seda, que tem na África um dos focos da ampliação de sua hegemonia.

Nesse contexto, a África do Sul, país mais rico do continente, viveu revoltas no meio do ano, devido à situação da pandemia e da crise econômica, em que o desemprego atingia 34% da população - chegando a marca de 70% entre a juventude. O estopim da revolta foi a prisão do ex-presidente Jacob Zuma, porém, como mostraram as inúmeras cenas de saques dos supermercados, a revolta popular tinha mais relação com a crise econômica e carestia de vida do que a prisão do corrupto ex-presidente. Foram os maiores protestos desde o fim do apartheid, que resultaram numa repressão sangrenta, com 337 mortos, após o atual presidente Cyril Ramaphosa colocar um efetivo de 25 mil soldados nas ruas.

O dilema da burguesia e a urgência da ação da classe trabalhadora

O quadro da África do Sul, em que avança a nova variante, ao mesmo tempo que persiste a crise econômica, tendo como histórico recente a eclosão dessa revolta popular, mostra o cenário explosivo diante do qual se encontra a burguesia mundial.
Justamente os países com menor margem de manobra para dar respostas a pandemia, que já se encontram com suas populações submetidas a miséria e a fome crescente, são os países mais propícios a serem acometidos por novas variantes pelo baixo grau de imunização de suas populações.

Esse quadro, obriga a intervenção da burguesia mundial para evitar convulsões sociais, o que já viemos vendo com as disputas geopolíticas entre os países numa verdadeira guerra de diplomacia das vacinas, cada qual buscando emplacar seus monopólios. Joe Biden, enquanto fala ser a favor da liberação das patentes, prometeu a doação de 11 milhões de doses para os países africanos, numa demagogia irrisória. Quem, mais uma vez, avança suas posições na África é a burocracia do PC Chinês que através de Xi Jinping prometeu doar 1 bilhão de doses, o que proporcionaria a imunização de 60% da população africana. Longe de uma preocupação humanitária, essa iniciativa do líder chinês tem como intuito usar essa diplomacia da vacina para consolidar a hegemonia chinesa, uma medida para lavar a cara dos investimentos ganancioso chineses de mãos dadas com ditaduras africanas, que super exploram a mão de obra dos trabalhadores africanos em projetos de exploração de minérios e de infraestrutura, subordinando os países africanos à dívidas bilionárias. Dessa forma, a China vem ocupando o papel de superexploração do continente africano que os países europeus historicamente cumpriram.

O alarmante aparecimento de novas cepas reforça a urgência da classe trabalhadora de cada país se organizar para impor a quebra das patentes. Tal programa não pode ser imposto aos vampiros capitalistas por meio de petições online ou declarações formais à OMS, como no caso de Biden e Xi Jiping. Da mesma forma, é necessária a imediata intervenção estatal de todas as empresas farmacêuticas e laboratórios, para colocá-los sob o controle dos profissionais de saúde e servir a planos racionais de produção e distribuição de vacinas e testes, com vistas à nacionalização dessas empresas sob controle operário, junto com os recursos da saúde privada. O aumento emergencial dos orçamentos de saúde e educação, bem como a contração de profissionais de saúde para garantir a vacinação e evitar o colapso de hospitais, com base em impostos extraordinários sobre grandes fortunas, são outras medidas urgentes. Em vez de continuar a pagar a dívida externa, é necessário impor o cancelamento da dívida dos países semicoloniais para evitar que os custos da crise sejam descarregados sobre as grandes maiorias.

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