Opinião

COLUNA

Notas sobre o “intenso agora” e por que tomar as ruas dia 29

Thiago Flamé

São Paulo

quinta-feira 27 de maio| Edição do dia

“No intenso agora” é o nome do documentário de Moreira Salles sobre o maio de 1968, lançado em 2017. Moreira Salles constrói seu olhar sobre 1968 trazendo para a tela imagens e recortes dos acontecimentos daquele ano em diversos países, França, China, Tchecoeslovaquia, Brasil. Talvez o filme sequer seja sobre 1968 e os fatos políticos que passa em revista. Versa mais sobre a felicidade e nossa capacidade de alcançá-la, presos na inércia da vida cotidiana e é desse ponto de vista que ele nos interessa hoje.

Eis que a felicidade surge somente na ruptura dessa inércia, sempre massacrante, enfadonha, depressiva, por que no dia a dia o sistema capitalista e sua lógica individualista, egoísta e fragmentaria se impõe. Alguns podem chegar a ela pela via da contemplação estética, mas isso é inacessível para a maioria de nós que trabalhamos para viver.

Da análise dos fragmentos e imagens captadas em 1968 surgem muitas reflexões interessantes, mas uma sobressalta. É na vida social ativa, quando essa fervilha ao ponto de subverter por um momento a ordem estabelecida, em desafiar a ideologia dominante e seus poderes materiais, quando o sujeito cindido na luta coletiva recupera o controle sobre o processo social e, como no maio francês, coloca em questão também a rotina alienante e massacrante do trabalho manual; é nesse momento que o indivíduo pode se realizar plenamente.

Esse intenso agora de 1968 foi, na verdade, um momento fugaz. O auge que durou pouco e deixou uma marca profunda em uma geração, que marcou toda uma época, mas que viveu o auge no início da juventude, para depois viver uma época de retrocessos. Esse momento fugaz é o que poderíamos chamar de situação revolucionaria, quando a classe dominante perde o controle da situação e vê seu poder questionado pelo movimento de massas da classe trabalhadora, da juventude e dos setores populares. É fugaz, mas intenso. Só que não está escrito nas estrelas que ele precisa ser fugaz. Uma situação revolucionaria pode desembocar em uma revolução, essa revolução pode vencer e tomar um caminho diferente do que tomou a revolução chinesa ou a URSS estalinizada. A sociedade pode ser reconstruída sobre a base do controle dos indivíduos sobre o conjunto do processo social e sobre seu próprio trabalho, transformando no próprio fundamento do cotidiano o que faz desses momentos fugazes serem os da realização humana mais plena.

No Brasil de Bolsonaro não é demais dizer que a depressão da juventude e o ceticismo dos setores mais combativos e conscientes da classe trabalhadora, agravados pela pandemia maximizada pelo governo, é um fator da situação política. Pesam as derrotas dos últimos anos, a impotência demonstrada pelos sindicatos e pelas organizações de esquerda nessas derrotas também pesa e tudo colabora na esperança, e ilusão, de uma solução fácil na CPI ou nas urnas em 2022. Enquanto os governos e os empresários aproveitam da depressão e do ceticismo e avançam como rolo compressor triturando o que resta dos nossos direitos, a mensagem do povo colombiano de que “um povo vai as ruas numa pandemia quando os governos são mais perigosos que o vírus” não encontram do lado de cá ouvidos surdos, assim como o grito de revolta desesperada do persistente e heroico povo palestino.

O cerco aos Yanomamis e o massacre de Jacarezinho fazem parte do nosso agora, nossa resistência ainda desponta isolada como na greve do metro de São Paulo, mas a revolta na Colômbia e a resistência operária ao golpe militar em Miamar fazem parte também desse agora, e podem estar antecipando nosso futuro. Quem viveu ou acompanhou a greve do metro pode sentir as fagulhas dessa energia acumulada que lutamos para que exploda.

Ao que parece a inércia do ceticismo começou a se romper, apesar do PT, PCdoB, da Cut e da Une, com a ajuda do PSOL, serem sujeitos ativos na espera passiva por 2022. Neste dia 29 teremos uma primeira oportunidade para unificar todas as demandas e lutas que seguem isoladas e medir o alcance dessa mudança. E sobretudo será um ponto de apoio para avançar na organização da juventude e dos setores mais ativos politicamente da classe trabalhadora em tornos das ideias revolucionarias, fundamental não só para organizar a resistência e o contra-ataque, mas também para que tudo isso não se perca na intensidade de um momento fugaz.




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