OPINIÃO

Nos roubam o ar

sábado 13 de março| Edição do dia

Lurdes foi uma das milhares de demitidas no início da pandemia, terceirizada da Fundação da Unicamp (FUNCAMP), trabalhava na creche. A creche fechou, rua. Lurdes tinha adquirido problemas respiratórios manipulando um produto químico quando limpava o bandejão da Unicamp, a universidade que recebeu o título de melhor da América Latina. Na melhor biblioteca de Ciências Humanas do país, multiplicam-se as obras sobre o significado da terceirização, da superexploração, do racismo. Lurdes era mulher negra, terceirizada, e limpava as bandejas dos estudantes que liam nessas bibliotecas. Lurdes morreu de Covid no dia anterior ao 8 de Março, certamente contando com a ajuda dos problemas respiratórios que a terceirização lhe presenteou.

Edvânia morreu de Covid no dia seguinte ao 8 de Março. Edvânia não foi das centenas de demitidas no início da pandemia, seguia trabalhando na Funcamp sob essa ameaça. Edvânia servia os estudantes da universidade que recebeu o título de melhor da América Latina. Edvânia deixou filhos. Era também uma mulher negra. Nos últimos meses, alimentava a linha de frente da área da saúde da Unicamp. A mesma que nesta semana estava trabalhando com 350% da sua capacidade, no HC. A população de Campinas, meus alunos na escola, não sabem que é possível estudar nessa universidade - justamente porque ainda é pouco possível, com milhares barrados todos os anos pelo vestibular, apesar da importante conquista das cotas. Mas sabem que na Unicamp existe o Hospital. E quero que saibam: na linha de frente desse Hospital estão centenas de mulheres, terceirizadas da limpeza, técnicas de enfermagem, estagiárias, médicas, residentes, enfermeiras. A pandemia sobre os ombros de milhares de mulheres, negras, trabalhadoras, de uma classe essencial, única classe essencial.

Uma trabalhadora teve medo de falar a esse Diário sobre a perda de Edvânia, mesmo que anonimamente, pois precisa do emprego, insiste. Precisamos do emprego. A ameaça de demissão na Funcamp se mantém como uma faca em seu pescoço. Se perder a licitação, estão todas na rua.

Lurdes, Edvânia e mais dezenas de milhares perderam suas vidas nesta semana. Muitas temem perder os empregos. Amigas de Lurdes e Edvânia postam homenagens perguntando: quantas amigas mais vamos perder? Esse é o “mimimi” ao qual se referia o presidente misógino negacionista na semana passada, o mesmo que repentinamente apareceu de máscara. Não temos tempo a perder.

Nesta semana, também ouvi o 8 de Março sair da boca de alguns ministros privilegiados do STF, os que não têm a faca no pescoço para falar, e decidem tudo sempre. Comentaram de passagem sobre o 8 de Março enquanto votavam cínica e de maneira interrompida o que já sabíamos há anos. Que a Operação Lava Jato foi uma farsa orquestrada pelo imperialismo norte-americano e, junto aos demagogos do STF, juízes, militares, empresários, políticos do país retiraram o elementar direito do povo decidir em quem votar em uma democracia que é dos ricos. Ajudando a eleger o homem à frente da calamidade brasileira, Jair Bolsonaro. E garantiram, junto à corja do Congresso, a retirada de muitos outros direitos. O mesmo ministro do STF que esbravejou contra a Lava Jato garantiu a Lei de Terceirização Irrestrita, essa terceirização que humilha, divide e adoece, em particular mulheres negras. Adoeceu Lurdes, expôs Edvânia. No Brasil, são milhões de Lurdes e Edvânias, enquanto Carmens Lúcias tudo decidem sobre o futuro da massa.

Para os golpistas, não bastou que o PT tivesse triplicado os postos terceirizados, queriam mais. O golpe veio por mais e já deixa sua obra. Por isso, não pedimos, exigimos e lutamos pela anulação definitiva dos processos contra Lula, por todos os seus direitos políticos, porque não aceitamos que massacrem nenhum direito do nosso povo. Mas justamente por isso estamos também pela anulação de cada uma das reformas que o PT se propõe a perdoar. E frente aos golpistas, dos quais Lula diz não guardar mágoas, nós nutrimos ódio de classe.

Não temos tempo a perder.

Marielle é ferida aberta desse golpe pela qual clamamos justiça já há três anos. Não temos tempo a perder. Por sua vida, não tem perdão. Por Lurdes, Edvânia, não tem perdão. São levadas por uma política calamitosa, que rouba o ar das vidas negras, no trabalho, na pandemia, pela polícia. Nos roubam o ar o tempo todo, de ansiedade, de choro e de cansaço. Nos roubam o ar. George Floyd, Eric Garner, nos roubam o ar.

Mas quando está insustentável, atmosfera pesada, dor, há o que explodir. Há muito ar roubado. Pode haver combustão para eles. O Paraguai é um exemplo. O coração do imperialismo tremeu por George Floyd. Em pequeno e simbólico, dezenas de estudantes reunidos debatendo como homenagear Lurdes e Edvânia e não perdoar a terceirização são um respiro. Não trabalhamos com esquecimento. Lurdes, Edvânia e cada uma das vítimas desse sistema miserável devem se fazer presentes de fato em cada uma das nossas lutas, não como mote vazio. Não temos tempo a perder. Não há o que perdoar.




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