Cultura

ENTREVISTA

Naufrágil: coluna indisciplinada de arte e política

Entrevista com Gregorio Gananian, diretor do filme/ensaio "Inaudito: com/por Lanny Gordin". A entrevista foi via Whatsapp...pelo microfone. Improvisei uma transcrição.

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

quinta-feira 9 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Naufrágil desta semana é dedicada ao grande guitarrista Lanny Gordin (1951), que comemora 50 anos de carreira. Conversamos com Gregorio Gananian, diretor do filme-ensaio "Inaudito: com/por Lanny Gordin" (2017).

Informação geral

Nome Completo: Alexander Gordin

Nascimento: 28 de novembro de 1951

Origem: Xangai, China (morou até os seis anos em Israel de onde veio para o Brasil)

Profissão: guitarrista

Gênero(s): MPB, jazz, rock, samba, valsa, bolero etc etc

Período em atividade: Quebrando tudo desde o final dos anos 60

Participações em álbuns de alguns artistas: "Nem sim, Nem não" (1968), compacto simples de "Eduardo Araújo & Os Bons"; "Brasilian Octopus" (1969); "Gilberto Gil" (1969), "Caetano Veloso" (1969); "Gal Costa" (1969); "Legal" (1970), Gal Costa; "Fatal - Gal a todo vapor" (1971); "Farinha do Desprezo" (1972), Jards Macalé; "Canibal e a Tribo" (1981), Aguillar e a Banda Performática; "Aos Vivos" (1995), Chico César; "Pretobras", Itamar Assumpção (1998).

Álbuns solo: "Lanny Gordin" (2001), "Projeto Alfa" vol. I e II (2004), "Duos" (2006), "Lanny Duos" (2007), "Lanny’s Quartet & All Stars" (2014)

Recortes de jornal e video: o inventor por ele mesmo.

- Eu sou Lanny Gordin, faço um som, toco guitarra. Eu não sei se eu sou músico, eu não sei de nada, faço um som de leve, um som maneiro de vez em quando. Nasci na China, em Xangai, muito bom. Eu vim para o Brasil com mais ou menos uns seis anos de idade.

- Eu gosto muito de música e tal. Participei de gravações, fui músico da noite, fui músico de cabaré, músico de show, músico de baile, músico de casa de família, ganhei minha graninha.

- Jimi Hendrix? Eu tirei umas coisas dele, mas o que acontece é que eu procuro ser versátil, entende? Eu procuro tocar MPB, samba, bolero, tango, valsa, rock, música contemporânea, música americana, italiana, francesa, chinesa, misturo tudo e to com um novo estilo que eu to aprimorando pra ver o que dá. Vai ser muito interessante pra mim, vai ser uma espécie de loucura ne, loucura muito boa. É isso aí mesmo! Normal. To aqui agora. Eu vou lá e não vou lá.

- Eu tocava na boate do meu pai, a Stardust (lendaria boate no centro de São Paulo). O Hermeto Pascoal trabalhou lá como pianista e sempre falou que eu era talentoso. Tocamos juntos por 15 anos e aprendi com ele a mudar a harmonia das músicas para o jeito que eu gostasse.

- Guitarristas que me influenciaram? Larry Coryell, John McLaughlin, Jimi Hendrix, Wes Montgomery, Jeff Beck, Joe Pass, Jimi Page etc. O Hendrix eu vi só no cinema, eu assisti o filme "Woodstock". Pirei meu, nossa, fenomenal. Dos guitarristas brasileiros eu gosto do Pepeu Gomes, Sérgio Dias, Toninho Horta e outros.

- Fui apresentado à Gal Costa àtravés do Gilberto Gil. Fui no apartamento dele, aí fizemos uns 10/15 minutos de blues, aí ele falou, você vai trabalhar com a gente, a turma da Tropicalia. Daí eles me convidaram para gravar um disco com a Gal ne, foi aí que eu conheci a Gal. A gente ensaiou para fazer o show Gal a todo vapor, Gal-Fatal, na época ensaiamos e tocamos ao vivo, e pra mim foi uma experiência fascinante, porque na época eu tinha muita energia, o conjunto inteiro ne, e a gente não tinha regras, era mais a vontade, mais free, a gente inventava tudo na hora do show. É claro que eu tinha aprendido as músicas dela, mas havia uma liberdade de improvisação, eu podia fazer o que eu quisesse. Aquele vapor. Quando eu ouço um destes discos eu tiro um barato, eu penso, olha que brincadeira que eu fazia antigamente e eram interessantes as brincadeiras, era uma boa brincadeira.

- Agora eu to com um novo estilo, estilo contemporâneo free, to pesquisando o instrumento inteiro pra ver todas as possibilidades do instrumento, até chegar à música pura. Tá dando certo, eu to descobrindo coisas que eu nunca havia descoberto na minha vida, é isso aí, a vida continua.

- To pensando em me matricular numa escola de música pra ver se aprendo algumas coisas.

Entrevista com Gregorio Gananian, diretor do filme/ensaio "Inaudito: com/por Lanny Gordin".

Fábio Nunes - Trajetória pessoal e o "Inaudito"

Gregorio Gananian - Bom, sou formado na faculdade de Filosofia da PUC e comecei a fazer cinema aos 10 anos de idade com meu irmão. Em 2010 eu assisti uma entrevista do cineasta Rogério Sganzerla onde ele indica aos novos diretores que o cinema precisa voltar a caminhar com a música. Dai a gente pensa historicamente quando o cinema andava com a Carmen Miranda, Pixinguinha, Noel Rosa, etc. É "Alô, Alô Carnaval" (1936), com Carmen Miranda. Depois teve aquela coisa maravilhosa nos anos 60, aquele encontro magnífico, toda a turma do "Cinema de Invenção". Sem falar nos poetas que estavam lá, como os poetas concretos, Torquato Neto, Hélio Oiticica, os caras fundamentais da virada "Tropicalia". E o Sganzerla é um dos meus heróis, junto com Júlio Bressane, Elyseu Visconti, Glauber Rocha, todos cineastas brasileiros, Mário Peixoto, Humberto Mauro, além dos cineastas fundamentais, paideuma mesmo, como Jean-Luc Godard, Antonioni, Rosselini, Robert Bresson, os cineastas japoneses Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu e por aí.

Neste momento eu meio que tive um delírio. Eu tinha conhecido o cantor e compositor Jards Macalé e dirigi um cine-show-instalação com ele chamado "Sinfonia de Jards", eu dirigi com o Francisco França. Filmamos o Jards em diversas situações, ele de coringa pelo Saara, pelado com um baseado na boca cantando "Hotel de Estrelas" etc, cada câmera pensando uma das telas que estariam no show. Este cine-show aconteceu no Teatro Oficina, foram duas noites mágicas e depois no Sesc e aí foi incrível. To com esse material, vai ser um dos próximos que eu vou montar, não como montagem de show, mas como filme mesmo, além disso, minha companheira e parceira Danielly Omm, roteirista e montadora do filme, a câmera dela tem umas umas coisas de bastidores "estranhas", sabe, mais filmicos mesmo.

No meio de tudo isso existia um cara fundamental para mim que é o Lanny Gordin, o Lanny sempre foi o som que me interessava, sempre me interessei por música experimental, além do Macalé e toda esta música brasileira que é linda. Mas sempre fui muito apaixonado pelo compositor John Cage, participei de um trabalho sobre ele no Tuca Arena, dirigi o maestro e inventor Gilberto Mendes no "Gilberto Mundo", numa opereta que eu criei. Depois da "Sinfonia de Jards" eu e o Lanny criamos uma amizade muito grande. Somos amigos e desde o primeiro momento aconteceu uma sinergia gigantesca.

O Lanny tinha vibrado muito com o trabalho sobre o Macalé e ficou muito a ideia de fazer um filme com ele. Mas eu não queria fazer um documentário concentrado mais numa linearidade ou discursos sobre o Lanny, com cortes de arquivo, num caminho mais jornalístico, que eu acho fundamental. Numa conversa com um amigo eu pensei, poxa, o Lanny tá nessa fronteira entre a música e o som, lugar que também me interessa e aí caiu a ficha mesmo, sabe, o acorde perfeito, aquela dissonância sem resolução consonante, atonal, eu percebi que muito do que me interessava no Lanny não é só daquele dos 17 aos 22, mas sim ele hoje, como um artista, como uma cura para esta claustrofobia acachapante que a gente vive.

Daí veio a ideia considerada maluca de ir com o Lanny e uma equipe reduzida para Xangai, China. Danielly Omm na direção de arte, Toni Nogueira na fotografia, Maria Cristina Zucchi, companheira do Lanny, os produtores locais e o Guilherme Shinzi no som. Fomos para a China. Depois de três anos de pesquisa, que vão desde coisas como "Anti Edipo: capitalismo e esquizofrenia" e "Mil Platôs", de Gilles Deleuze e Felix Guattarri, até uma pesquisa histórica da China, caiu a ficha de que o filme não seria uma história, mas algo geográfico, na verdade geopolítico, uma geopolítica atonal. E depois de muita espera conseguimos o financiamento reduzidissino, 1/4 de um documentário feito hoje em dia, mas com os equipamentos atuais a gente não precisa folclorizar o subdesenvolvimento. Lanny é um sábio que me transformou, me fez ser uma pessoa delicada, menos machista, mais atento às sutilezas.

Por que a China se o filme não é histórico? Penso em Oswald de Andrade quando ele disse que do alto da Torre Eiffel ele descobriu o Brasil. Eu senti que indo pra outro país, primeiro, outra língua, saindo um pouco do significado e indo mais para o significante, sonoridades, o filme é transpassado por diálogos chinês-português. Decidimos que não ia ter uma câmera filmando o Lanny a todo momento, porque seria algo invasivo para uma pessoa tão delicada como ele. Trabalhamos com uma forma de decupagem, uma outra organização fílmica, mais próxima da ficção, mas não estas ficções atuais com 40 mil pessoas no set de filmagem, pensamos os enquadramentos, sempre tinha uma conversa com o Lanny sobre as cenas etc. Eu queria filmar, por um lado, fora de um certo produtivismo capitalista e por outro, sem cair numa veneração do trabalho de um certo socialismo que não funcionou, Coréia do Norte, por exemplo. A gente trabalhou em outra linha, na linha da contemplação, de me permitir ter o tempo, sabe?

Quando eu digo ficção também, num texto sobre tradução, o poeta Haroldo de Campos pega o poema do Fernando Pessoa, "o poeta é um fingidor, finge a dor que deveras sente" e o Haroldo vira e fala: o poeta é um fingidor e fingidor vem da palavra fictor, que significa ficção. O poeta é um inventor de mundos, de novos mundos, de novas possibilidades e neste sentido o Lanny é um poeta. Então decidimos fazer este filme com caráter de ficção, seguindo a frase famosa do Godard quando ele diz que no cinema moderno a ficção é filmada como documentário e o documentário com uma certa ficção.

E vivemos estas filmagens, que mistura tanto a antropofagia de um certo cinema chinês, oriental, a luz é outra e isso influenciou o filme. Mas daí teve a volta pra São Paulo e quando a gente chegou aqui, a primeira coisa que me fez perceber essa cidade foi estas pinturas rupestres da pixacao. A São Paulo que existe neste assalto da vitalidade. Ainda existe os ingovernaveis e o centro da cidade tem essa potência. Então aconteceu das filmagens serem totalmente libertadoras e aí um cinema um pouco mais perto do Sganzerla, mas sem ser vintage, entende? Tudo isto são fragmentos destes cineastas que surgem e quando digo cineasta incluo a poesia concreta, o pintor José Roberto Aguillar, John Cage e a Tropicalia, não o neotropicalismo.

E foi interessante perceber que toda aquela psicodelia, hoje em dia diluída por uma estilização quase enjoativa, o que seria a psicodelia já numa espécie de fim de mundo. Então o filme "Inaudito" trabalha com esse esgarcamento psicodélico, uma Tropicalia de beira de estrada, as bananas estão na estrada, existe, não é só um clichê, tem banana pra caralho, tem côco no centro de São Paulo, só que carregado de poluição, poeira. Isso tudo ta presente no filme e o Lanny surge como um expressionista tropical.

A música que o Lanny faz atualmente é inclassificável. É uma relação direta com a matéria da corda da guitarra, o puro ato de poder encostar nas cordas, quase a vibração das super cordas. Acho que estas sejam umas das influências hoje porque está próximo do agir, um agir quase autista, o artista autista, da mesma forma que a aranha ao soltar suas teias.

Fábio Nunes - Estréia e distribuição

Gregorio Gananian - Fragmentos do "Inaudito" foram exibidos num show-tributo realizado no Sesc Pompéia (02/03 fev), em comemoração aos 50 anos de carreira do guitarrista. O filme estréia este ano. Eu quero fazer o máximo possível para divulga-lo. Estamos em contato com distribuidoras, porque a gente quer que o filme seja visto. Na contracapa do álbum "Tropicalia ou Panis et Circenses" tem uma frase do maestro Rogério Duprat que ele diz assim: afinal, você sabia que o disco é para ser vendido? O filme é para ser visto, não sei por quanto tempo, mas vamos conseguir algumas salas, o filme vai passar por alguns festivais, os festivais libertaram o cinema. As séries também acabam ajudando o cinema de alguma forma, a série é a prosa, onde as pessoas podem contar dez mil histórias e tudo para esta coisa mais narrativa, o cinema fica mais enxuto, ele vai para a poesia e isso é bom.

Fábio Nunes - Cinema no Brasil: dificuldades e possibilidades

Gregorio Gananian - Bom, as dificuldades são milhares, financiamento, a demora, os atrasos etc. A atriz Helena Ignez responde muito bem isso numa entrevista. Eu não peguei aquele momento da Ancine, um momento que tava maravilhoso, 2016, o financiamento estava em aberto e era possível fazer muitos filmes, acredito que vai ser cada vez mais difícil filmar num formato com equipes gigantescas. Eu estou me encaminhando cada vez mais para um "cinema de guerrilha", nos próximos filmes, minha vontade é subir a América Latina de carro, apresentando uma peça de teatro. Pra mim, neste exato momento, o importante é transformar estas dificuldades em libertação do processo criativo. As dificuldades já são as possibilidades.

Fábio Nunes - O ato criativo

Gregorio Gananian - Lanny Gordin não é simplesmente um músico, é arte e vida juntas, uma voz que tem que ser escutada. Umas das coisas mais maravilhosas que o Lanny me fez perceber neste filme como o cinema também é natural. Porque a música sempre me pareceu algo natural, o som dos pássaros, da natureza etc, mas um dia, olhando pra lua da forma que ele vê a música, eu percebi que o sol é o projetor e a lua é a tela. Se bobear o homem chegou na ideia de cinema olhando pra lua.

Fábio Nunes - Inaudito

Gregorio Gananian - Pra mim o cinema deve dar voz a estas pessoas, estes seres, que não trabalham com uma ideia de lindeza eugenica. O cinema, a câmera, tem algo mágico, o algo mágico quem diz é o cineasta Orson Welles, ela opta por aquilo que não é considerado belo (Cidade Linda como diz o Doria) e transforma em vitalidade, então o motivo de fazer cinema para mim é este, estes momentos aberrantes, que saem desta curva, dessa ideia de Cidade Linda, o cinema permite mostrar a vitalidade disso, permite mostrar a vitalidade da cidade de São Paulo, com suas pinturas rupestres.




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