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CENSURA | Naufrágil: coluna indisciplinada de arte e política

A censura não acabou com a Ditadura Militar, nem a repressão. O projeto Cidade Cinza do Doria é um ataque direto à Arte de Rua, mas não só, começa na rua e depois invade teatros, centros culturais etc. A madeira vai empenar pra todo mundo que questiona. Artistas e intelectuais precisam se organizar, porque se depender da Prefeitura de São Paulo vai ser cadeia ou painel bem colorido a la Romero Britto.

Fábio NunesVale do Paraíba

sexta-feira 27 de janeiro de 2017 | Edição do dia

1984 versão Mansão da Playboy ou Utopia reacionária 24h por dia

Sempre que penso em "Big Brother Brasil" lembro de três filmes: "Jogos Mortais" (2004), "Jogos Vorazes" (2012) e "Salo ou Os 120 Dias de Sodoma" (1975), do diretor italiano Pier Paolo Pasolini.

"Jogos Mortais" é uma série de filmes que conta a história de um "serial killer" que obriga pessoas à participar de um jogo mortal, "Jogos Vorazes", uma mistura de ficção científica e "reality show", apresenta um regime totalitário que promove anualmente um evento voraz entre os "12 distritos" sob sua tutela e "Salo" é o castelo escolhido por 4 senhores fascistas para sediar um ciclo de horrores com dezenas de jovens sequestrados.

Jairo Ferreira: uma estranha aventura cinematográfica

Jairo Ferreira é um crítico e cineasta brasileiro. Nasceu em 1945, em São Paulo, na Vila Carrão, Zona Leste da capital. Jairo, que detestava o sistema educacional, abandonou a escola para assistir filmes e escrever sobre cinema. Seus "cadernos de cinema/cahiers du cinéma" registraram e comentaram 1.200 filmes. Como não tinha grana, o jovem cinéfilo ia de bike da Zona Leste aos cinemas do Centro para ver os cineastas japoneses, Samuel Fuller etc.

Em 1964, ano do "Golpe de Estado" e da instauração da Ditadura Militar (1964-1985) no Brasil, o jovem Jairo Ferreira coordenou um cineclube ligado à Igreja Católica. Neste período conheceu figuras como o poeta beat e estudioso do cinema japonês Orlando Parolini e os futuros cineastas "marginais" Carlos Reichenbach, Carlos Callegaro e Rogério Sganzerla.

Em 1966, Jairo assume com Parolini a coluna de cinema do jornal "São Paulo Shimbun", periódico da colônia japonesa, dirigido nos anos 60 por Mizumoto Kokuro, dono do cinema Nikkatsu, no bairro da Liberdade. Apesar de toda repressão e censura no país, os dois "malucos" dividiram com grande liberdade a coluna até meados de 1967, quando o poeta "transgressivo" deixa o jornal e Jairo assume a coluna. Jairo e Parolini dirigem o curta-metragem em 16mm "Via Sacra", primeira experiência underground do cinema brasileiro, destruída por Parolini em 1968 numa paranóia pós AI-5, que picotou os negativos do filme.

É neste clima de terror ditatorial que jovens alunos da "Escola Superior de Cinema São Luís", como Reichenbach, Callegaro e não-alunos como Jairo e Sganzerla, vão para a Rua do Triunfo, região do centro de São Paulo, conhecida como "Boca do Lixo", pólo cinematográfico da época, na tentativa de realizar seus primeiros filmes, depois chamados de "Cinema Marginal". A "Boca" foi um pontapé inicial para este cinema "pirado" produzido em SP no começo da década de 70.

O crítico Jairo Ferreira acompanhou a criação e a produção deste cinema experimental em suas críticas no "Shimbun" e ao mesmo tempo atuou como co-roteirista e ator no episódio "A Badaladissima dos Trópicos X Os Picaretas do Sexo", de Reichenbach, do filme "Audácia" (1969), assistente de direção em "Orgia ou o Homem que deu cria" (1970) de João Silvério Trevisan e em "O Pornografo" (1970) de João Callegaro.

Em 1973, Jairo deixou o jornal "Shimbun" e realizou o curta-metragem "O Guru e os Guris". Depois vieram os outros curtas "Ecos Caóticos (1975), O Ataque das Araras (1975), "Antes Que Eu Me Esqueça" (1977), "Nem Verdade Nem Mentira" (1979); um média metragem, "Horror Palace Hotel" (1978); e dois longas, "O Vampiro da Cinemateca" (1977) e "O Insigne Ficante" (1980). Destes, apenas o "O guru e os guris" e "Nem verdade Nem mentira" foram rodados em 35mm com produção profissional, todos os outros foram filmados em Super-8 com produção independente sem exibição comercial.

Conforme o crítico de cinema Inácio Araújo, tripulante desta "aventura cinematográfica marginal", este foi um período inventivo e estável para o "vampiro da cinemateca", que trabalhou como crítico de cinema em jornais de grande circulação como "Folha de São Paulo", "Estadão" e "Jornal da Tarde". Mas, o "vampiro" escolheu a liberdade criativa numa época em que a crítica vestiu literalmente o uniforme de funcionária do "entretenimento" e arrumou problemas com os chefões dos grandes meios de comunicação.

Em 1986 Jairo publica o livro "Cinema de Invenção", referência no estudo do "Cinema Marginal". O termo "Cinema de Invenção", usado para se referir a diretores como Reichenbach e Sganzerla, foi construído a partir das proposições do poeta norte-americano Ezra Pound em o "ABC da Literatura" ("inventores são homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo"). Em 1993, o critico e cineasta radical realizou o curta-metragem em vídeo "Metamorfose Ambulante ou as Aventuras de Raul Seixas na cidade de Toth". No início de 2000 comeca um romance autobiográfico (inconcluido). Jairo se suicidou em 23 de agosto de 2003, poucas horas de completar 58 anos.

"Audácia" (1969)

Depoimento de José Mojica Marins, o Zé do Caixão

- Em primeiro lugar, não esnobar quando não estamos a altura de esnobar. Não procurar mostrar intelectualidade quando não temos cultura para isso. Não se esconder numa pele de cordeiro, quando na realidade somos lobos mesmo. Em suma, afastar de nós o manto da demagogia e procurar sermos o que realmente somos, dando assim mais expressão ao nosso eu. Se tu tens isso, não tem dificuldade. Ok?

Depoimento do diretor Rogério Sganzerla

- José Mojica Marins é a meu ver, talvez o único cineasta brasileiro trabalhando numa linha absolutamente pessoal e baseado numa descoberta pessoal. Mojica descobriu um caminho e tá desenvolvendo esse caminho radicalmente, sem nenhuma influência subserviente ao cinema moderno, que é o cinema evidentemente que eu não gosto, do qual tento desesperadanente me afastar e me desvencilhar. Mojica então é um cineasta contra o cinema contemporâneo, moderno e exatamente por isso ele é um cineasta moderno, na medida em que é um bárbaro, radical, com grande sentido de poesia, com grande sentido de cinema, com um efeito crítico dos problemas do homem brasileiro, que é um homem recalcado, submisso, pretensioso, o homem dos mil defeitos. Misturando a piadinha infame com o pastel de carne, Mojica sugere o cinema brasileiro do futuro, cinema de invenção e de exportação, um cinema que praticamente não tem nada a ver com o que tá sendo feito hoje. Estamos vivendo um momento muito interessante do cinema brasileiro. Estamos nesse momento entre a pornochanchada e o cinema do futuro que é uma interrogação. Eu tentarei responder esta interrogação acreditando num cinema que me interessa, que eu quero fazer, um cinema popular, visionário e anti-intelectual.

Entrevista com a MC Luana Hansen

Fábio Nunes - Quem é Luana Hansen?

Luana Hansen - É uma DJ MC e Produtora Musical qual atua a 16 anos no Movimento Hip Hop. Mulher Negra Lésbica e Periférica, traz em sua carreira participações com Sandrão do Grupo RZO e A-Força, além de fundar o grupo A-T.A.L composto só por mulheres . Durante sua caminhada, sentiu na pele o Machismo e a Lesbofobia ao assumir publicamente sua orientação sexual . Em 2013, o Movimento Católicas pelo Direito de Decidir impulsionou uma campanha pela legalização do aborto e contou com o talento da rapper paulistana e de Elisa Gargiulo, guitarrista e vocalista da banda Dominatrix, para produção de uma música sobre o tema e assim nasceu o rap "Ventre Livre de Fato", que é interpretado por Luana, com batidas fortes e uma mensagem clara, além de dados sobre vitimas do aborto inseguro. Em 2014 lança "Flor de Mulher" em resposta à letra machista "Trepadeira" do rapper Emicida. Em 2015, Luana lançou o rap "Negras em Marcha", que compôs especialmente para "Marcha das Mulheres Negras", realizada no mesmo ano em Brasilia e em 2016 ela ganhou o prêmio "Lei Maria da Penha" dado em Brasilia pela "ONU Mulheres", ganhou o prêmio Música da Parada LGBT de São Paulo e participou do Festival Feminino de Hip Hop em Cuba.

Fábio Nunes - Trabalhos e projetos futuros

Luana Hansen - Estamos entrando num ano de transformações, estamos com vários projetos como por exemplo a parceira do estúdio E.S.A.P.A.S com a produtora DMNA onde gravamos "Machocidio". Temos a ideia de equipar o estúdio pra poder continuar e melhorar o trabalho que já vem sendo feito no mesmo. O Show terá nova formação de equipe, o palco também promete mudanças, prepare-se, traremos mais peso e mais qualidade pra luta feminista. Farei um tour pelo Nordeste agora em fevereiro, dia 17 em João Pessoa, 18 em Natal e no dia 23 estarei no Festival Rec-Beat em Recife.

Fábio Nunes - Assombrações como Trump, Temer e Doria sobem desastrosamente ao pódio, felizmente muito atacado. Qual o papel da arte neste barulho todo?

Luana Hansen - Olha é assustador ver este avanço do conservadorismo, sobretudo a forma que ele tem, ódio e preconceito. Estamos vendo aos poucos, algumas manifestações importantes, como a marcha das mulheres contra TRUMP, como a luta contra o Eduardo Cunha que travamos aqui no Brasil, as mulheres lideram um grande processo. As respostas da galera contra o Dória, pelo apagamento dos grafites da cidade, isso é importante, estamos vivos e segue a marcha combatendo de frente o racismo, o machismo e o sexismo. E a Arte, como a nossa militância, vem fazendo a conscientização e levando a luta cada vez mais longe e mais ligadas.




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