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EUA-China | Nancy Pelosi em Taiwan: uma provocação arriscada para o imperialismo

Desembarque da presidente da Câmara dos Estados Unidos em Taiwan abre um cenário imprevisível para a escalada das más relações entre Washington e Pequim.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

terça-feira 2 de agosto | Edição do dia

Nancy Pelosi, presidente da Casa dos Representantes nos EUA, desembarcou em Taiwan na terça-feira à noite (horário local). Essa provocação do imperialismo norte-americano diante das ameaças da ditadura bonapartista chinesa – Xi Jinping havia dito a Biden que “quem brincasse com fogo, pereceria” nos assuntos de Taiwan – é tema de confusão entre os próprios analistas. Em meio à guerra na Ucrânia, não ficam claros os objetivos do governo Democrata em acirrar os atritos entre Washington e Pequim, aliado da Rússia e que até então se comprometeu a não auxiliar militarmente a ofensiva de Putin.

Trata-se de uma nova escalada com consequências indeterminadas. A visita de Pelosi a Taipei, parte de um tour asiático que inclui Singapura, Malásia, Coreia do Sul e Japão, é a presença de mais alto nível de um oficial norte-americano durante décadas, desde que Newt Gingrich o fez em 1997, também enquanto presidente da Câmara. Naquele então, numa situação em que a China era muito mais frágil econômica e militarmente passando pela destruição da restauração capitalista, o governo Bill Clinton havia acabado de receber a visita do líder taiwanês Lee Teng-hui. Tal visita em 1995, entendida pela República Popular como um afastamento de Washington da política de “Uma só China”, provocou a chamada Crise do Estreito de Taiwan, em que a China disparou com uma série de mísseis em águas taiwanesas como represália. O governo dos EUA respondeu encenando a maior exibição do poderio militar imperialista na Ásia desde a Guerra do Vietnã.

Hoje, o governo chinês condenou a visita de Pelosi como uma "violação séria da soberania nacional e integridade territorial" da República Popular.

Antes de sua chegada, o Exército de Libertação Popular encenou manobras aéreas e marítimas no Mar do Sul da China e no Estreito de Taiwan, bem como uma série de exercícios militares em outras áreas costeiras. O perigo de escaramuças militares levou o avião da força aérea que transportava Pelosi e sua delegação a mudar a rota, abandonando o trajeto prévio que ia de Kuala Lumpur para Taipei, fazendo um amplo desvio através de Bornéu e das Filipinas.

Horas antes, o ministro chinês das relações exteriores, Wang Yi, acusou os EUA de “esvaziar” sua política de “Uma só China”, sob a qual reconhece a visão de Pequim de que Taiwan faz parte da China, e sugeriu que Washington atua como “o maior destruidor da paz nos dias de hoje”. A China recebeu o apoio imediato da Rússia, que acusou os EUA de “provocar” a China, em uma aparente reciprocidade pelo apoio tácito de Pequim à reacionária invasão de Putin à Ucrânia. “Tudo sobre esta turnê e a possível visita [de Pelosi] a Taiwan é puramente provocatória”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, segundo a Reuters. A torre de televisão Ostankino em Moscou iluminou-se com uma mensagem dizendo “China, estamos com você!”.

Muitos sinais contrários foram dados pela Casa Branca durante a escalada nas últimas semanas. A imprensa divulgou zelosamente que Joe Biden havia enviado vários altos funcionários, incluindo o conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan, para tentar convencê-la a não viajar para Taiwan. Biden também disse recentemente que os militares dos EUA não achavam a visita “uma boa idéia”, embora as autoridades de defesa tenham afirmado que o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior conjunto das Forças Armadas, tivesse apenas se limitado a expor os cenários que poderiam surgir em torno de sua visita. De outro lado, não menos curiosamente, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby, advertiu a China para não transformar uma possível visita de Pelosi a Taiwan em um “pretexto para aumentar a atividade militar agressiva no Estreito de Taiwan ou em torno dele”.

Não se pode descartar que possamos estar diante de divergências entre o alto escalão do Estado, especialmente em meio à pressão que as eleições de meio-mandato exercem sobre os Democratas, que provavelmente perderão a maioria legislativa para os Republicanos de Trump, que disputam com os Democratas quem tem a retórica mais vociferante contra Pequim. Apesar da continuidade da postura agressiva herdada por Trump, Biden não é visto como um presidente suficientemente firme na condução da política de competição-cooperação com a China. E mesmo na guerra da Ucrânia é criticado por suposta suavidade no trato com Moscou, apesar de estar liderando o comando logístico da OTAN e a interferência militarista (sem tropas no terreno) sobre o exército ucraniano. A postura dos Estados Unidos diante das ameaças chinesas é um forte elemento que afeta a campanha política de Republicanos e Democratas. Apesar dos alertas do Pentágono, Biden reconhece que não poderia simplesmente recuar diante da advertência explícita de Xi Jinping, o que mostraria Washington numa posição defensiva diante da potência asiática, e poderia ser lido como encorajamento aos planos de incorporação militar da ilha pela República Popular.

Mas, mesmo dentro de fissuras quase certas no interior do establishment, “há método na loucura”. O regime bipartidário imperialista, e em especial Joe Biden, passam por dificuldades internas para cuja atenuação, tradicionalmente, os Estados Unidos utiliza a política externa como válvula de escape. A economia estadunidense contraiu 0,2% no segundo trimestre de 2022, o que a insere em termos técnicos dentro da definição de recessão econômica (no primeiro trimestre a economia se contraiu 0,4%). A taxa de inflação nos EUA, acompanhando os efeitos da guerra na Ucrânia, subiu a 9,1% este ano, a maior desde 1981, o que obrigou o Federal Reserve a aumentar por duas vezes consecutivas em 0,75 pontos a taxa oficial de juros, um ataque direto ao poder de compra de milhões de trabalhadores e de setores de classe média. A desvalorização do salário e as péssimas condições de trabalho no pós-pandemia, apesar de um nível estável de emprego, levaram uma nova geração de jovens trabalhadores a lutar pela sindicalização em grandes monopólios como a Amazon e a Starbucks, além do surgimento de greves em setores estratégicos como na aviação com a paralisação dos trabalhadores da Boeing. Essa situação tende a se agravar em 2023, em especial pelos planos de economistas de um amplo espectro do establishment, de Jay Powell a Paul Krugman, de tratar de “resolver” a inflação congelando salários e incrementando a taxa de desemprego.

A economia da China também desacelerou no segundo trimestre, impactada por "lockdows" em várias cidades do país por causa da Covid-19, e cresceu 0,4%, segundo dados oficiais (especialistas esperavam que a economia chinesa crescesse entre 0,9% e 1% no mesmo período).

É possível que esses dois fatores atuem de forma combinada. A eles, se agrega um terceiro elemento importante, que é a importância desse ano para o destino de Taiwan. Em novembro se celebrará o 20º Congresso do Partido Comunista Chinês, que entronizará Xi Jinping num inédito terceiro mandato (abrindo caminho possivelmente para um governo vitalício). Desde 2013 a política da República Popular se tornou abertamente mais agressiva contra Taiwan. Em 2019, Xi Jinping declarou que a incorporação da ilha se daria de qualquer maneira ("Não prometemos renunciar ao uso da força, e nos reservamos a opção de todas as medidas necessárias"), assim também em 2021 durante a celebração do centésimo aniversário do PCCh, em que afirmou ser a unificação com Taiwan "uma missão histórica e um compromisso inabalável" do Partido.

Taiwan é a jóia da coroa do sudeste asiático, e é considerada pela China uma parte integrante do seu território, não uma nação autônoma, desde o final da Guerra Civil de 1946-49 em que a derrota de Chiang Kai-shek levou o Kuomintang a migrar para a ilha. A captura de Taiwan, dirigida pela independentista Tsai Ing-wen (do burguês Partido Democrático Popular), é parte do plano de rejuvescimento da nação chinesa, segundo Xi Jinping, por duas razões centrais: sua capacidade de fornecer acesso às águas profundas do Oceano Pacífico (que a China não tem), e a existência de infraestrutura tecnológica avançada, sendo Taiwan a casa produtora dos semicondutores de última geração mais valiosos do mundo – a empresa Taiwan Semiconductor Manufacturing Company. Os Estados Unidos, que acaba de passar legislação no Congresso favorecendo empresas de produção de semicondutores, rechaça qualquer perspectiva de que a China se apodere da estrutura tecnológico-industrial responsável pelo fornecimento de 70% dos microchips de última geração no mundo. A viagem a Taipei seria um sinal contundente contra as intenções chinesas antes do 20º Congresso.

Ainda sobre Taiwan, Biden aumentou a temperatura durante sua primeira visita à Ásia como comandante-em-chefe em maio de 2022. Perguntado se os EUA se envolveriam militarmente em um ataque chinês a Taiwan depois de recusar o envio de tropas à Ucrânia para combater a invasão russa, disse afirmativamente que esse era o compromisso assumido. O Ministério das Relações Exteriores da China atacou Biden quase imediatamente após os comentários, apesar de funcionários da Casa Branca dizerem que a política dos EUA não havia mudado. O ministério disse que Pequim “não tem espaço para concessões” em relação às principais preocupações, incluindo Taiwan, e que tomaria medidas firmes para defender seus interesses de segurança.

Esses fatores não tornam a jogada menos arriscada para o imperialismo, e há controvérsias sobre seus resultados. Thomas Friedman, um dos principais colunistas do The New York Times, órgão vinculado aos Democratas, chama a visita de Pelosi de "completamente imprudente, perigosa e irresponsável". O principal risco que enxerga é dar à China razão para alterar sua postura de apoio passivo à Rússia, e colocar duas potências militares ao mesmo tempo contra a política de Washington na Europa. “Há momentos nas relações internacionais em que é necessário ficar de olho no prêmio. Hoje esse prêmio é muito claro: devemos assegurar que a Ucrânia seja capaz, no mínimo, de mitigar – e, no máximo, reverter – a invasão de Vladimir Putin, que, se bem sucedida, representará uma ameaça direta à estabilidade de toda a União Européia. Para ajudar a criar a melhor chance de a Ucrânia reverter a invasão de Putin, Biden e seu conselheiro de segurança nacional, Jake Sullivan, realizaram uma série de duras reuniões com os líderes da China, implorando a Pequim que não entrasse no conflito da Ucrânia prestando assistência militar à Rússia, e particularmente agora, quando o arsenal de Putin foi diminuído por cinco meses de dura guerra. Biden, de acordo com um alto funcionário americano, disse pessoalmente a Xi Jinping que se a China entrasse na guerra da Ucrânia do lado da Rússia, Pequim estaria arriscando o acesso a seus dois mercados de exportação mais importantes: os Estados Unidos e a União Européia. As autoridades americanas me dizem que a China respondeu não prestando assistência militar a Putin, num momento em que os Estados Unidos e a OTAN têm fornecido apoio de inteligência à Ucrânia e uma quantidade significativa de armas avançadas que têm causado sérios danos aos militares da Rússia, o ostensivo aliado da China”.

Enquanto Friedman se pergunta por que arriscar um conflito com a China sobre Taiwan, “desencadeado por uma visita arbitrária e frívola da presidente da Câmara”, o trumpista The Wall Street Journal afirma, em contrário, que a visita em grande parte simbólica de Pelosi não seria “um bom motivo para desencadear um confronto EUA-China”. Aproveitando a torpeza dos Democratas, o WSJ sugere que seria já tempo de modificar o entendimento sobre a política de “Uma só China” caso Pequim retalie. “Taiwan já se tornou um ponto perigoso de conflito entre os EUA e a China. Durante 50 anos, o entendimento mútuo tem sido que a China esperará pela reunificação pacífica enquanto os EUA reconhecem ‘Uma só China’, sendo ambivalente em relação à defesa de Taiwan. Isso não dá mais. Xi quer unificar a China durante seu mandato presidencial, e a retórica e postura militar de Pequim são cada vez mais beligerantes. Se a China abandonasse sua promessa de reunificação pacífica, que tem feito em comunicados diplomáticos por décadas, isso seria motivo para a administração Biden mudar a política oficial dos EUA para deixar claro que os EUA defenderão Taiwan”.

A situação está aberta para escaladas imprevisíveis. A primeira consequência imediata será uma nova rodada de exercícios militares mais agressivos da China no Estreito de Taiwan, e não é impossível que o faça com a Rússia. Tilman Pradt, que escreveu em 2016 o livro “China’s New Foreign Policy: Military Modernisation, Multilateralism and the ‘China Threat’”, sistematiza a regularidade praticamente anual em que China e Rússia sustentam exercícios navais conjuntos em uma ampla área de abrangência do território asiático, envolvendo inclusive os Mares do Sul e Oriental da China, exercícios dominados por operações anti-submarinos e de defesa aérea. Comentando o exercício militar conjunto de julho de 2021 nos arredores de Taiwan, Song Zhongping, um antigo instrutor do Exército de Libertação Popular, disse que este exercício – embora apenas uma pequena parte de uma operação real para assumir Taiwan – aumentou ainda mais a capacidade de combate do ELP e refletiu a crescente confiança da China na implementação de uma missão militar holística (ou seja, de desembarque, invasão e conservação do controle insular). “A dissuasão não pode resolver problemas, somente ações concretas podem funcionar para defender a soberania e a integridade territorial de Pequim”, disse Song.

As disputas se exacerbam num cenário de crise econômica inflacionária em praticamente todo o globo, e que vem dando crises agudas de regimes políticos e queda dos governos, mesmo em países centrais (Boris Johnson no Reino Unido, Mario Draghi na Itália) e tendências a rebeliões (Sri Lanka no Sul da Ásia, Panamá na América Central, Equador na América do Sul, manifestações contra a fome em vários países africanos: Gana, Serra Leoa, Moçambique e África do Sul) além de lutas operárias (greves com amplo apoio popular na Grã-Bretanha, greves de estivadores e aeronautas na Alemanha). Um cenário que se torna um barril de pólvora diante do conflito EUA e China.




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