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Evasão Escolar | "NCOM", a política criminosa de Doria para aprofundar a evasão escolar

Doria, junto com seu secretário de Educação, Rossieli Soares, é bem ardiloso nas suas táticas contra a educação: por um lado, com muita demagogia, tenta passar a ideia de que protege o direito ao ensino dos estudantes estaduais de São Paulo, enquanto por outro, suas “políticas públicas” educacionais são verdadeiros ataques, com um claro objetivo: o da evasão escolar.

terça-feira 31 de agosto | Edição do dia

Foto: MISTER SHADOW/ASI/ESTADÃO CONTEÚDO

Há anos os professores denunciam os governos do PSDB pelo fechamento de milhares de salas de aula pelo estado. Agora os trabalhadores da educação denunciam o cancelamento de centenas de matrículas de alunos da rede pública, os famosos “NCOM” (“não compareceu”). Esse escândalo chegou às páginas de toda mídia e há notícias de que em algumas unidades, dezenas de alunos tiveram cancelamento de matrícula. Um total absurdo, do qual a Seduc (Secretaria de Educação de SP) apenas alegou que está cancelando as matrículas daqueles que estão ausentes das atividades escolares, sejam elas presenciais ou EAD, mas não diz, é claro, que é o próprio governo o culpado pela ausência dos estudantes. Não só o estadual, mas também a sua conjunção com o governo Bolsonaro e Mourão.

João Doria (PSDB) sempre aparece diante das mídias burguesas como aquele que se preocupa com a situação de vida das crianças e jovens, justamente os que vêm sofrendo com um turbilhão de ataques contra seus direitos e vivendo numa enorme degradação da vida, pelas mãos desse governador. E pra isso, Doria tem o seu capacho de direita, cara de pau, Rossieli Soares, que logo perdeu sua mascara de mediador entre as demandas dos trabalhadores da educação e dos alunos e famílias, já que na realidade atua como o garantidor de todos os ataques do governo contra a comunidade escolar de conjunto.

Durante toda a pandemia, Doria e Rossieli não garantiram o acesso a todos os alunos ao ensino remoto emergencial. Criaram o Centro de Mídias de São Paulo - até hoje paira a dúvida da relação do app com políticos bolsonaristas - dizendo ser um meio de organizar o ensino remoto. Apesar de ter viabilizado o acesso gratuito ao CMSP, taparam os olhos para o fato de que a maioria das famílias não tem internet, computadores ou celulares (a maioria tem somente um celular na família) para realizarem um estudo mais completo (para poder fazer pesquisas, acessar outras ferramentas de estudo e de conexão com seus professores, colegas, etc.). Além disso, nos fica a pergunta, como crianças e jovens podem acompanhar o ensino remoto enquanto seus pais e familiares foram perdendo seus empregos por medidas de Bolsonaro, Doria e tantos governos para garantir que as empresas seguissem lucrando, usando a pandemia para precarizar ainda mais a vida de toda a população, ainda mais dos setores mais pobre e oprimido?


Foto: reprodução coletiva de imprensa.

Com as escolas fechadas devido a insegurança sanitária na pandemia, as famílias também perderam a importantíssima merenda escolar, que tantas dependem para que seus filhos possam ter ao menos uma refeição no dia. A fome entrou em grande parte nos lares dos estudantes. Como estudar com fome? Como garantir a participação dos filhos nas aulas, se nem mesmo comida muitos pais estão conseguindo dar? Enquanto o governo deixou de gastar com os custos das merendas e salários das cozinheiras - que também são mães que foram mandadas embora e ficaram sem salários durante toda a pandemia - Doria pagou, ainda com bastante atraso, insuficientes 55 reais/aluno como uma “ajuda” para a alimentação dentro de casa. Isso enquanto hoje uma cesta básica no Estado de SP está no valor de R$1060,10, ou seja, um valor que sequer dá para alimentar uma pessoa durante uma semana. Sem contar o preço do gás e da energia elétrica.

Enquanto Doria faz demagogia na TV, falando de política de combate a pandemia, ele fez questão de que os mais pobres nunca tivessem o direito à quarentena racional. Todas as famílias seguiram todos os dias tendo que se expor para garantir o pão na mesa. Até agora as famílias seguem sem garantia de testes massivos ou produtos de higiene e utensílios de proteção básicos, como máscaras de qualidade. O esquema vacinal para toda a população também segue longe de ser completado. O resultado não poderia ser diferente, além da fome, muitos alunos tiveram que dividir sua atenção com o luto.

As famílias enfrentam o desemprego, tentam lidar com o luto, sofrem com os ataques contra direitos básicos, tiveram redução salarial garantida pelas Medidas Provisórias do governo Bolsonaro/Mourão, apoiadas pelos governadores, Congresso e Judiciário. Com essa situação, muitos estudantes foram obrigados a ocupar empregos ultra precários para ajudar no sustento da família. Vimos relatos de alunos do 8º ano (média de 13 anos) que estavam trabalhando como entregadores e ajudante de pedreiro. Como pode uma criança trabalhar em dois empregos? Viralizou na internet os que tentaram por um tempo acessar as aulas em cima de suas bikes, fazendo entregas por toda cidade horas e horas a fio, ganhando tão pouco e sem nenhum mínimo direito. Em outros casos se acumulam, como do enorme número de meninas que estão ficando com a responsabilidade pelo trabalho doméstico e pelo cuidado de irmãos mais novos, familiares ou vizinhos, para que os adultos possam trabalhar ou buscar empregos, passando o dia todo na rua.


Foto: BRUNO KELLY/REUTERS

Uma das medidas que Doria e Rossieli impuseram às escolas para demagogicamente “reverter a evasão escolar” foi ordenar que se forçasse os professores a fazerem a tal “busca ativa”, ligando e mandando “zaps” para os alunos, às vezes até irem à casa deles - medida que até a mídia tradicional glorificou como se fosse uma atitude angelical de alguns professores e digna de ser imitada. Os abusos são vários: 1) a única ferramenta dada aos professores para realizar tal trabalho foi um chip com acesso ao whatsapp e poucos minutos para ligação, o que obrigou os professores a trabalharem fora e a mais de seu expediente; 2) a instrução pela tal busca ativa na maioria das vezes era amedrontar os alunos com ameaças de perda de matrícula (como hoje efetivam), e não a valorização de fato do contato do professor com seu aluno, que pudesse contribuir com seu aprendizado e, portanto, com seu vínculo com a escola; 3) criar a ilusão de que, caso o aluno não “estudasse” (que é um eufemismo para a possibilidade que lhes foi dada através do CMSP de qualidade no mínimo duvidosa), seria escolha dele; e assim 4) colocar os professores, depois de tanto trabalharem na busca ativa, contra os alunos, como se fossem os responsáveis pelo governo fechar salas e, portanto, pelos professores terem que se dividirem em várias escolas para completarem as suas jornadas.

Outra medida que Doria declarou como política contra evasão escolar será pagar uma bolsa de 1 mil reais/ano aos estudantes mais carentes, do 9º ano para cima. Isso seria menos de R$85,00 por mês. Uma revoltante piada frente ao que passam os alunos e seus familiares! Enquanto isso, o governo só ganha com a evasão escolar: abre o caminho para fechar ainda mais salas de aula, demitir trabalhadores da educação, atacar a educação pública e fazer da imensa massa de estudantes uma fonte de mão de obra barata e jovem para serem exploradas pelos patrões.

O chão das escolas hoje mostram o caos em que se encontra a sociedade. E os passos dos governos apontam uma consonância entre todos no projeto de destruição de direitos em prol do lucro dos grandes empresários. Por mais que briguem, os políticos estão alinhados para o ataque. O governo federal parte para a MP1045 que garantiria o fim de vínculos empregatícios para a juventude trabalhadora, enquanto o MEC, pelas mãos do reacionário Milton Ribeiro, atua para fechar e elitizar o acesso às universidades, e pela implementação da Reforma do Ensino Médio. Nas esferas estaduais e municipais, governadores - como Doria - e prefeitos se somam a essas políticas federais com outros ataques para garantir ainda mais lucros para aqueles que estão sedentos para explorar ainda mais, mesmo que sejam meninas e meninos, que com essa política do NCOM de Doria, sequer podem ter garantido o direito básico de ter uma vaga na escola. Em São Paulo, Doria ataca com uma reforma administrativa contra também os trabalhadores da educação, porque para derrubar a educação, também é preciso atingir aqueles que a levam nas costas todos os dias.

Por isso, a luta por direitos e para barrar os ataques e revogar aqueles que já passaram, não pode ser pela via de “cada um por si”. Somente a unidade entre os trabalhadores, a juventude e os setores oprimidos que pode barrar esse projeto que todos os governos estão cavando contra a vida de todos nós! Se eles estão juntos contra que os estudantes possam, vejam só (!), estudar, temos que estar juntos para que tenham sim seu acesso a escola garantidos, assim como sua permanência também, e isso significa batalhar para que tenham bolsas e auxílios em valores dignas, alimentação, transporte gratuito e direito ao lazer e a cultura, que para a formação de crianças e jovens é fundamental.

Não podemos permitir que Doria siga nesse plano sujo de se fazer de bom moço, atuando sorrateiramente para dividir os membros das comunidades escolares, colocando professores, alunos e pais uns contra os outros. Podemos, juntos e organizados, construir uma potente força contra os ataques não só à educação, mas aos direitos de toda a classe trabalhadora. Como por exemplo, por meio de comissões em cada escola e comunidade escolar que poderia amplificar força, alcance e voz para todos - composta pelos trabalhadores da educação, estudantes e seus familiares - sendo uma “pequena” preparação, mas ao mesmo tempo enorme na perspectiva de começar a organizar a nossa classe.

Não podemos aceitar nem um NCOM a mais, que deixa aluno sem vaga e nem as excludentes escolas de tempo integral e a reforma do ensino médio, que hoje são o “tripé” cruel da política de Doria e Rossieli de fomentar de forma absurda e criminosa a evasão escolar.




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