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Conciliação de classes | Muito além da representatividade: os significados da chapa Lula-Alckmin para os negros

Bolsonaro e Mourão são inimigos dos negros e negras de longa data. Cada ataque destinado a classe trabalhadora, desemprego, fome e o aumento da inflação atinge principalmente os negros, sem contar as inúmeras declarações racistas e o apoio incondicional à repressão policial nas favelas. Nesse cenário de aprofundamento do racismo estrutural e de crise econômica social se reabre o debate de qual a saída para os trabalhadores frente às eleições deste ano.

sábado 16 de abril | 15:12

Foto: Ricardo Stuckert

Esse debate chega em boa hora. As redes sociais inundaram de críticas a foto da reunião entre o PSB e PT que definiu Geraldo Alckmin como vice na chapa de Lula por falta de diversidade, crítica essa que também foi mencionada pela presidente do partido, Gleisi Hoffmann, nessa ocasião: “Bom dia a todos. Ia dizer a todos e todas, mas infelizmente não temos muitas mulheres nessa mesa".

As críticas nas redes se estenderam à falta de pessoas negras na reunião, justamente, na chapa entre PT e PSB que tem chances de vencer o racista e misógino Bolsonaro nas eleições deste ano. O debate sobre a aliança Lula e Alckmin se reduziu às discussões da representatividade. A questão que se levanta é: seria suficiente para os anseios e os problemas que os trabalhadores vivem hoje ter negros e negras nos postos mais altos destes partidos já que a chapa Lula-Alckmin não vai nem mesmo revogar as reformas?

Num país tão racista como o Brasil ficam claras as marcas profundas da escravidão e da democraica racial quando vemos a população negra subrepresentada nos espaços políticos, universidade, cinema, etc. Ao mesmo tempo que a precarização do trabalho, sobretudo a terceirização e o trabalho doméstico tem cara de mulher negra. O debate sobre representatividade negra também se aprofundou à medida em que os negros saiam às ruas contra a violência policial no black lives matter e o bonapartismo institucional, sobretudo a Globo, tentou canalizar o ódio contra o racismo e a polícia dos brasileiro, colocando mais negros e negras em sua programação e debatendo a questão do racismo.

Djamila Ribeiro, uma tenaz defensora do lugar de fala enquanto defendia a representatividade dos negros, fazia propagando pra empresas como a 99 no mesmo momento em que os entregadores paralisavam o país em 2020 no meio da pandemia. E não podemos esquecer que enquanto os coletes amarelos desafiaram o governo de Macron, Djamila tirava foto "prestigiando" o presidente françês.

Temos expressões ainda mais fortes de que a representatividade em não faz avançar as demandas negras, como também pode servir aos que nos atacam, como é o caso do reacionário Sérgio Camargo que ataca sempre que pode a figura de Zumbi dos Palmares, assim como Fernando Holiday (PSDB) que acabou de passar na CCJ da câmara de vereadores de São Paulo um projeto de lei de sua autoria pelo fim das cotas raciais.

As mesmas críticas que fazemos aos setores do movimento negro que dizem falar pelos negros no Brasil enquanto apoiam a classe que nos ataca, isto é, de uma representatividade vazia de conteúdo de classe e que não serve aos trabalhadores e as trabalhadoras se enfrentarem com a burguesia racistas brasileira, estendemos àqueles e àquelas que vêem que o único problema da chapa do PT com o tucano e reacionário Alckmin se limita a que não tenham negros e mulheres compondo a maioria da cúpula desses partidos.

A questão vai muito além da representatividade. Geraldo Alckmin é um tucano representante do neoliberalismo no Brasil, conhecido por reprimir professores e estudantes e que sempre foi um inimigo declarado dos negros neste país. Vale a pena lembrar que em 2001 no início de seu mandato de governador em São Paulo disse que “bandido tem dois destinos: prisão ou caixão”, incentivando a vioLênia policial que recai, sobretudo, na juventude negra e pobre. Alckmin também foi responsável pela maior chacina da história do país onde agentes do estado e grupos de extermínio em 2006 assassinaram 500 pessoas nas periferias de São Paulo, 50% deles eram negros e 94% não tinham antecedentes criminais. Todas as vítimas tinham tiros nas costas ou na cabeça, mostrando que foram executadas sem defesa alguma. Essa brutalidade e covardia do governo Alckmin fez surgir o movimento Mães de Maio, parentes das vítimas dessa chacina que até hoje lutam por justiça e culpam o estado pelo assassinato de seus filhos. Foi entre 2011 e 2017 que o número de assassinatos cometidos pela polícia aumentou em 96%, sendo que neste último ano onde se registrou esse aumento absurdo, a polícia de Alckmin bateu recorde de assassinatos, 939 pessoas, número nunca antes registrado em 22 anos. Soma-se a isso o fato de que tiveram momentos que Alckmin e seu secretário de segurança pública Alexandre de Moraes omitiram dados de violência, como denunciaram entidade dos direitos humanos. Em seu governo não faltaram condecorações, promoções e absolvições a policiais envolvidos em chacinas como a da rodovia Castelinho em 2002 ou frases reacionárias para justificar chacinas como “quem não reagiu está vivo”.

Tudo isso mostra que mesmo que na foto tão criticada por parlamentares da esquerda estivesse repleta de negros em nada mudaria o fato de que Alckmin é um racista e representante do que tem de pior e mais reacionário da elite escravocrata brasileira e isso ficou comprovado em seus anos de governo.

Matheus Gomes (PSOL) e Érica Malunguinho (PSOL) parlamentares que são reconhecidos por sua luta antirracista, alvos da política reacionária, racista e lgbtfóbica do bolsonarismo, criticaram a falta de diversidade e a representatividade da chapa Lula-Alckmin em suas redes sociais. Ao limitar suas críticas a representatividade sem debater o conteúdo político que a chapa Lula-Alckmin representa pros negros e negras, acabam apoiando a chapa e se adaptando ao conteúdo programático dela, leia-se: manter os ataques centrais aos trabalhadores, se subordinando ao capital financeiro e a outros setores como o agronegócio e as igrejas que o PT sempre conciliou.

Mas não podemos esperar muito de Matheus Gomes e de sua corrente interna do PSOL, a Resistência, que já declararam apoio à chapa de Lula. A única coisa que de fato podem criticar é a representatividade porque estão de mãos dadas também com o racista Alckmin e seu programa de conciliação de classes. Esse rumo à direita que o PSOL vem tomando também foi agravado com a federação com a Rede, partido burguês de Marina Silva e do banco Itaú. Marina Silva que em 2016 depois do assassinato de Amarildo e tantos outros trabalhadores ainda apoiava o aumento da violência policial defendendo a ampliação das UPPs que só fez aumentar o assassinato de jovens negros nas favelas e periferias cariocas, além de ter aberto espaço para as milícias, base social do bolsonarismo. Neca Setúbal, herdeira do banco Itaú que teve lucro recorde em 2021 de 28.879 bilhões de reais, 45% a mais do que em 2020, fez demagogia com a questão negra dizendo que quer ao lado dela “um país mestiço e diverso”, enquanto milhões de famílias morriam de fome ou pela covid.

É com esse tipo de gente racista e reacionária que o PSOL está numa federação, ou seja, vai atuar como partido único e com o mesmo programa durante 4 anos. Não se estranha, portanto, o fato de que esses parlamentares não falem uma vírgula sequer da concialiação com setores burgueses e inimigos dos negros que representa a chapa Lula-Alckmin. O que resta a eles é serem os “grandes” defensores da representatividade.

Erica Malunguinho quer dar um “voto de credibilidade” baseado em “críticas” a Lula, fazendo um “chamamento para olhar e se dedicar a temas que são fundamentais” como as opressões. Vamos então dar uma pequena passada na história do PT frente ao tema do racismo e machismo para ver se de fato Lula merece essa "credibilidade" toda. Nos 13 anos de governo do PT o aborto não foi legalizado, Lula fez uma demagogia recente com o tema, mas já teve que voltar atrás e falar a verdade, dizer que é contra o aborto. A ausência desse direito mata em especial as mulheres negras no país. Sobre a questão negra, a estratégia do PT era fazer algumas concessões que no Brasil, o país mais negro fora da África, eram bem significativas, mas ao mesmo tempo não mudava no essencial. Ou seja, mantiveram o racismo como pilar de sustentação do capitalismo e por isso houve um aumento da terceirização nesse período que saltou de 4 milhões para 12,7 milhões e da precarização. O PT também apoiou as UPPs no RJ, decretou intervenção federal no Complexo da Maré em 2015, mandou tropas para intervenção militar no Haiti e no Congo. Tudo isso mostra que Lula não vai se dedicar às pautas das opressões. Gleisi Hoffmann já declarou que o tema das opressões "não serão centrais na campanha de Lula”.

Jones Manoel também utilizou suas redes para se opor à repsentavidade que setores liberais do movimento negro defendem frente a chapa Lula-Alckimin, criticando também o caráter racista das políticas do PSB em Pernmabuco e a composição racial do secretariado municipal de Recife, todos brancos. Ora, que o PSB é um partido dirigido pela oligarquia racista da família Campos que ataca as terras indígenas e fortalece a violência policial contra os negros no estado (em 2021, 96% das pessoas mortas pela PM em Pernambuco eram negras), todos nós sabemos. Mas não dizer uma só palavra sobre o PT mostra o quanto estão dispostos a se adaprtar ao projeto de conciliação petista. Esse silêncio esconde e não deixa claro até onde vão às críticas do PCB a chapa Lula-Alckmin, por outro lado, não é de se espantar que o PCB que já esteve na coligação Lula-Alencar em 2002, na Frente Ampla em 2020 e por seu histórico de conciliação de classes, esteja seguindo o mesmo caminho de sempre, como desenvolvemos aqui.

Frente ao bolsonarismo, a crise econômica e social e aprofundamento da violência policial no Brasil não podemos cair em nenhum projeto de conciliação de classes, ter um programa que concilie com a burguesia brasileira herdeira da escravidão só pode significar mais ataques aos trabalhadores. Por isso chamamos os militantes do PSOL que não concordam com os caminhos do partido a romper com ele e construir um Polo de independência de classe. Hoje, junto a companheiros e companheiras da esquerda que se reivindicam socialistas, nós do MRT construímos juntos pelo Brasil o Polo Socialista e Revolucionário, como forma de apresentar aos trabalhadores e a juventude, um programa de independência de classe e o impulso da organização das e apoio das lutas dos trabalhadores em curso.




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