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Mourão, o cinismo, e o impeachment

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

quarta-feira 17 de março| Edição do dia

Todos estamos vendo país desandar, ou melhor dizendo, escancarar os efeitos do capitalismo predatório que descarrega suas crises sobre os trabalhadores e o povo da forma mais brutal. O dia 16 de março de 2021, pouco mais de um ano após a declaração da pandemia da Covid-19 em escala internacional, o Brasil alcançou a revoltante marca de mais de 3 mil mortes diárias. Mortes que como sabemos não produto apenas das novas cepas do coronavírus, derivadas das mutações, mas acima de tudo de uma política assassina que combina precarização da vida, da Saúde pública, ataques aos trabalhadores com as infames reformas, e claro o negacionismo ultradireitista de Bolsonaro e da ultradireita. Notemos que os ataques aos trabalhadores são uma unanimidade entre Bolsonaro, e a nova oposição que outrora abriu caminho para sua ascensão, conformada por golpistas do Congresso, STF, governadores e prefeitos. Cada qual tem o seu quinhão nessa conta macabra. Afinal “BolsoDória” é difícil de esquecer.

Isso sem falar dos últimos acontecimentos políticos, que estão deixando Bolsonaro na pior situação desde o terrível dia em que se alçou ao poder. A movimentação dos poderes de fato, englobando STF, outrora pilar fundamental do golpe de 2016, Globo, apoiada até por uma parcela do empresariado em restabelecer os direitos políticos de Lula como uma resposta à possibilidade de explosões sociais, está ajudando na queda de popularidade de Bolsonaro. Crescentemente setores começam a desertar das bases bolsonaristas. E mais recentemente uma declaração chamou a atenção. Em primeiro lugar pelo cinismo.

Trata-se do vice-presidente, o general Hamilton Mourão, que declarou que “Bolsonaro é o responsável por tudo o que aconteça”, frente à tumultuada saída de Pazuello, afirmando que o ministro da Saúde apenas executa as ordens do presidente. Em meio à terceira troca de ministro da Saúde, e ao pior momento da crise pandêmica, Mourão assim tenta se desvencilhar da obra nefasta do governo do qual é “só” vice-presidente. Dias antes Mourão já havia dado declarações de que o governo havia falhado ao não ter feito uma campanha “séria” de conscientização. Dizendo que “poderiam ter trabalhado melhor”, Mourão condenou as aglomerações a ausência do uso das máscaras, algo que como sabemos é uma marca registrada de Bolsonaro, Ernesto Araújo e de todo o seu séquito.

Um “mea culpa” que não convence ninguém, e que transborda cinismo, com o qual busca esconder que até bem pouco tempo atrás ele mesmo minimizava a crise, dizendo que o governo havia “lidado muito bem com a pandemia”. Com isso mostra que sua fidelidade a Bolsonaro varia de acordo com os ventos da popularidade de seu presidente. Qual está em alta, Mourão demite o chefe de sua assessoria parlamentar por ter tratado do tema do impeachment de Bolsonaro. Quando está em baixa, busca se descolar. Intento sem sucesso, quando não contam-se apenas as alas da burguesia e do status quo que insiste em ver os militares não como são, mas como um poder moderador e mais racional.

Estes dirão que Hamilton Mourão é conhecido por ter alguns posicionamentos distintos ao de Bolsonaro. Mas não em termos de reacionarismo, seria mais em termos estilísticos, digamos. Na tentativa de golpe de Guaidó à Venezuela, à qual se seguiu a espalhafatosa e ridícula movimentação do clã Bolsonaro, Mourão se opôs à intervenção através da ajuda humanitária. Também adota vez ou outra uma postura distinta a Bolsonaro em relação à China. Mas em vários elementos essenciais Mourão tem alinhamento com o governo e a ação das quais agora quer se desvencilhar. É o seu braço direito. É o seu vice. É cúmplice e responsável pelo que está ocorrendo no país. E também compartilha com Bolsonaro o racismo deslavado, das odes à ditadura militar, da minimização das queimadas na Amazônia em prol do agronegócio, e da defesa de cada uma das reformas que aprofundam ainda mais os sofrimentos da classe trabalhadora, empregada e desempregada, do país. Ah, e como esquecer, também gosta de gastar centenas de milhares de reais do dinheiro público para comprar itens esportivos e de cozinha de luxo. Como Bolsonaro que não vive sem os seus milhões gastos em latas de leite condensado.

Quando Mourão irrompeu ontem buscando se desvencilhar dos efeitos mais terríveis e inegáveis que a política levada adiante por ele trouxe para o país, buscava limpar um pouco a barra de si mesmo e de quebra das Forças Armadas e militares no governo. Mas nas redes sociais não foram poucos os setores da esquerda, mas não apenas, que rapidamente saíram a questionar o cinismo de Mourão. Absolutamente corretos no questionamento. Mas chama a atenção que parte destes eram os mesmos que frente à crise atual reivindicam o impeachment de Bolsonaro como “a” via para reverter as crises superpostas que se instalaram no país.

Pois é, ao ver a enxurrada de tuítes de personalidades políticas da esquerda que reivindica essa saída afirmando contra a manobra de Mourão de que ele “sim é parte desse governo, e não adianta querer fingir que não”, eu não pude evitar um pensamento. Bem óbvio, aliás. O de que então se Mourão é responsável, e sim é parte do governo, porque reivindicar apenas o impeachment de Bolsonaro, e se conformar com uma espécie auto-reforma feita de cima por e para os golpistas de ontem? Por que não colocar as forças para construir uma resposta profunda que varra a partir da luta de classes todos os personagens e instituições, que envolve Bolsonaro e Mourão, mas também os governadores e prefeitos, e o STF que seguem nos atacando? Alguns dirão que isso não é factível. Que não é fácil. Com certeza. Mas muitas vezes na história o que é mais fácil ou factível não é o que traz a verdadeira solução. E que algo que pode parecer impossível em um momento, em outro se torna inevitável. Mas creio que dedicar a vida para construir os caminhos para superar definitivamente cinismos à la Mourão – e de governadores, de prefeitos, e do STF - em um momento em que isso tem efeitos muito mais graves que a mera exasperação, em um momento em isso custa vidas, é algo que vale a pena.




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