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Morre Selma do Coco, aos 85 anos

Nascida em 1929 em Vitória do Santo Antão, na zona da mata pernambucana, Selma do Coco só atingiu a fama e o reconhecimento por sua obra depois de 1996, após aparecer para o grande público com sua participação no festival Abril Pro Rock. Aos 85 anos, Selma morreu no último dia 9.

terça-feira 12 de maio de 2015| Edição do dia

Selma do Coco é dessas grandes artistas que passam a vida ocultas do grande público por não atender aos padrões da indústria musical. Levando uma vida de pobreza, Selma se mudou com dez anos de idade para o Recife com sua família. Trabalhou como vendedora de tapioca, levando a sua arte como uma paixão, organizando as rodas de coco em seu quintal nas horas vagas, e cantando para seus fregueses enquanto fazia suas tapiocas. Foi depois viver em Olinda, onde passou as últimas décadas de vida.

O coco, principal gênero cantado por Selma, é parte do riquíssimo repertório musical do Recife, um verdadeiro caldeirão cultural do país, onde a cultura popular prolifera em paralelo ao desenvolvimento da mesmice da indústria cultural focada no sudeste e na reprodução exaustiva das mesmas fórmulas consagradas de vendas dos grandes sucessos.

Selma e sua excelente produção musical poderiam ter passado incógnitos, como certamente ocorre com tantos grandes artistas sufocados pela impossibilidade de viver de sua arte, de divulga-la, de furar o cerco das restrições que a propriedade privada dos meios de produção impõe à produção artística. Quem ajudou a que Selma, nos anos 1990, furasse esse cerco e aparecesse ao grande público, foram os jovens do movimento Manguebeat, que, resgatando o patrimônio cultural do Recife e articulando ele com as guitarras e o som eletrônico, fizeram saltar à vista do mundo o tesouro musical escondido ali.

Foi assim que Selma chegou ao Abril Pro Rock e, daí, para o resto do mundo. Em 1997, o sucesso de Selma inspirou o documentarista Roberto Berliner a fazer uma das edições de seus documentários em curta-metragem, “O Som da Rua”, no qual Selma fala sobre a origem do Coco e mostra sua música em apenas dois minutos. Em 1998, finalmente Selma gravou seu primeiro disco: “Minha História”, composto em parceria com Zezinho e com o qual ganhou o Prêmio Sharp; e em 2004 saiu o segundo, “Jangadeiro”. O sucesso de Selma ultrapassou a fronteiras do Brasil, e Selma participou, em 2001, do famoso Festival de Jazz de Nova Orleans, além do Festival Lincoln Center, em Nova Iorque, e em diversos países, como Alemanha, França, Suíça, Portugal e Bélgica. Em 2008, Selma do Coco foi considerada Patrimônio Cultural Vivo de Pernambuco.

A internação de Selma no hospital se deu após uma queda dentro de sua casa, em que quebrou o fêmur. Complicações se desenvolveram após a internação, com uma infecção urinária. Por fim, Selma teve uma parada cardíaca, à qual não resistiu. Assim, encerrou-se a carreira paradoxalmente tão curta e tão longa de Selma. A marcante risada de Selma, “Há há!”, que atravessava seus cocos, é parte da história de uma música forte, viva e nossa, que continua lutando para se fazer ouvir. Ela se fez ouvir pelas ruas de Olinda durante seu cortejo fúnebre.

Veja aqui, breve reportagem sobre Selma no Diário de Pernambuco: https://www.youtube.com/watch?t=31&v=uPSSxn_fczY




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