Mundo Operário

Montadoras querem demitir ainda mais em meio à pandemia para assegurar seus lucros

As fabricantes de veículos atualmente possuem quase 7 mil trabalhadores fora das fábricas, com contratos suspensos (lay-off), e a maioria delas acredita não haver demanda que exija o retorno desses trabalhadores. Com base nas medidas reacionárias desse governo, as montadoras seguem lucrando dia após dia, encontrando nos sindicatos apoio em negociações que em nada atende as demandas dos operários.

terça-feira 13 de outubro| Edição do dia

Foto: reprodução Rádio Peão Brasil

Com base nos dados das empresas e dos sindicatos de trabalhadores, o programa de demissão voluntária (PDV) aberto nas últimas semanas têm como meta atrair mais ou menos esse número de adesões. Não significando, no entanto, que as empresas irão conseguir e, a opção, será demitir ou adotar novas medidas de flexibilização. Vale ressaltar que o PDV é um dos ataques mascarados de “bons acordos” sem contar que todo discurso que envolve os bons acordos vem seguido de ameaças a outros ataques, como a demissão ou a famosa flexibilização que tanto se fala, que nada mais é a política de Bolsonaro que reduz os salários em defesa dos lucros dos empresários, contando com ajuda do sindicato que por mais que se coloque como oposição, segue se adaptando ao discurso patronal.

Em meio a uma crise, onde milhares de trabalhadores são atingidos pelos agravos da sede de lucro capitalista, onde os preços de alimentos e moradia, ficam cada vez mais inacessíveis à população e ao conjunto da classe trabalhadora, é contraditório, montadoras alegarem que não há nenhum tipo de demanda que exija o retorno dos trabalhadores, trabalhadores estes, que se encontram com contratos suspensos, o que deixa claro aos trabalhadores, que a garantia do nosso sustento, não é uma demanda aos olhos do empresariado, pelo contrário, para esse setor, quanto mais trabalhadores atingidos, mais lucros recebidos. E não pode ser deixado de lado que o aprofundamento dos ataques surge justamente neste governo, de Bolsonaro, Guedes e companhia que entregam uma arma carregada nas mãos dos empresários contra os trabalhadores, como a MP 936, que legitima esse discurso de “miséria” das multinacionais, estas que atingem lucros líquidos exorbitantes por ano, enquanto trabalhadores enfrentam condições precárias de trabalho, salários reduzidos, cortes em seus direitos, enfim, embasados nesse governo de extrema direita que objetiva seguir entregando nossas vidas de bandeja nas mãos dos empresários e capitalistas.

Comparado ao mesmo período de 2019, a produção de veículos caiu 44,8%, tendo mão de obra reduzida em 4 mil postos, para 103,3 mil trabalhadores, quase 5% a menos do que o total empregado há um ano, sem incluir as empresas de tratores. Olhando rapidamente para tais dados, é natural que chegue à conclusão de que de fato as montadoras atravessam um momento catastrófico em seu histórico de lucro constante no Brasil e no mundo, mas se olharmos profundamente para a questão, chegamos à conclusão de que toda crise alegada pelas montadoras não passa de manobra para manter seus rendimentos e números altíssimos em conta. Exemplo disso, são os impostos sobre veículos no Brasil, que chega um pouco mais de 42%, seis vezes o imposto pago pelos norte-americanos, que por consequência, aumenta o valor cobrado pelos carros brasileiros, sem contar os lucros líquidos adquiridos durante todos esses anos, que daria de fato para manter todos os trabalhadores empregados, sem a necessidade de acordos que não contemplam as demandas operarias, mas ao invés disso, as montadoras se aproveitam da crise pandêmica para vender um discurso de miséria, quando na verdade intentam dia após dia, precarizar cada vez mais as condições de vida dos trabalhadores, seja reduzindo salários, cortando benefícios, propondo programas voluntários ou até mesmo fazendo com que o trabalhador encare a fila do desemprego em meio à crise.

A demissão nas montadoras acarreta redução direta no quadro das fábricas de componentes. Fontes do setor calculam que 15 mil cortes já ocorreram nas autopeças, no segmento, formado em sua maioria por empresas de pequeno porte, não há programas de voluntariado como os feitos pelas montadoras, com ofertas em primeira instância, bem mais atrativas, como por exemplo, a Volkswagen, que oferece de 25 a 35 salários extras, dependendo do tempo de casa, para o trabalhador que aderir ao PDV negociado com sindicatos das quatro fábricas do País. O que expressa uma grande chantagem, onde deixam para amanhã os problemas estruturais de um país em profunda crise econômica, sem contar que, alguns carros da própria Volkswagen pagariam esses valores do PDV, o que deixa claro que a intenção do PDV não é beneficiar os trabalhadores e sim economizar em suas folhas de pagamento, reduzir reclamações trabalhistas e diminuir o pagamento de indenização na justiça.

A Volkswagen, de forma covarde, atrai os trabalhadores com um número alto em dinheiro por adesão ao programa de demissão voluntária, o que consideravelmente, agrega bastante aos seus rendimentos. Um trabalhador que receba aproximadamente 3 mil reais na montadora, aderindo ao programa, ficaria com 75 mil à 105 mil para enfrentar a crise social, política, econômica e sanitária. Em um momento onde olhamos para os mercados e visualizamos preços altíssimos, onde andando pelas ruas visualizamos milhares de desabrigados, quando lemos os jornais e pesquisas apontam que o número de inadimplência nos aluguéis aumentaram no último período, o valor que a Volkswagen oferece para que o trabalhador de forma voluntária vá para o final da fila do desemprego, não suprirá todas as necessidades do trabalhador em meio à crise, pelo contrário, por meio de um programa que as montadoras colocam em conjunto com o Sindicato aos trabalhadores como uma forma positiva de encarar a crise, fica cada vez mais claro, que suspensão de contrato de trabalho, assim como demissão voluntária, não é benefício para os trabalhadores, é artimanha capitalista para seguir ceifando as vidas dos trabalhadores e trabalhadoras, enquanto suas contas bancárias extrapolam números, sem contar que, o acordo dado pela Volkswagen, inclui medidas que vão do congelamento de reajuste salarial à suspensão de contratos por até dez meses, deixando claro suas intenções até o final, no início das negociatas, a empresa informou ter 35% de mão de obra excedente, ou 4,7 mil trabalhadores.

Segundo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, mesmo que esse número não seja atingido, não haverá cortes aleatórios, pois, a empresa poderá adotar as medidas de flexibilização. No caso do Lay-off, além de mais longo, que normalmente tem uma média de cinco meses, os trabalhadores irão receber 82,5% dos salários líquidos. Até agora, o governo banca parte dos salários e a empresa paga a diferença, assim o operário recebe o salário líquido integral. Hoje a Volkswagen tem 1,5 mil trabalhadores com contratos suspensos, 1,5 mil trabalhadores sem garantia nenhuma frente a crise e todas essas ausências surgiram por meio de negociações e aceitações do sindicato, que sem delongas aceitam o PDV entre outros ataques, vendendo o mesmo discurso de confiança e mudança por parte da patronal, o que faz cair por terra todo tipo de confiança quando se olha pra trás e visualiza o fechamento da Ford em São Bernardo do Campo, onde de um lado tivemos a patronal decidida a fechar e deixar milhares de famílias nas ruas e do outro o sindicato discursando aos operários da planta que seria um processo de luta, só não disse aos mesmos que a luta seria em mesas redondas a portas fechadas sem a participação dos operários.

A General Motors tem 2,7 mil trabalhadores em lay-off em cinco fábricas e abriu PDV em São Caetano do Sul e de São José dos Campos (SP), ofereceu também aos trabalhadores salários extras e um carro Onix Joy. Na planta do ABC conseguiu 294 adesões, insatisfeita, reabriu o programa na semana passada e quer mais 500 adesões. Pela precisão dos números dados pela multinacional na reabertura do programa, fica claro que há intenções que os beneficiam e nos desfavorece, e que não vai descansar, enquanto não atingir o que deseja, exemplo disso, é adotar medidas mais severas como demissões, no intuito de amedrontar os demais, e conseguir o quer.

Segundo Paulo Cardamone, presidente da Bright Consulting, consultoria que indica caminhos à soluções a setores públicos e privados, cortes iriam ocorrer de qualquer forma em razão da melhora da produtividade com a adoção de conceitos da chamada indústria 4.0, com robotização e digitalização e que a pandemia acelerou e, talvez, intensificou o processo.

“ Se o mercado continuar a se recuperar no próximo ano, é possível que algumas vagas sejam abertas, mas acho difícil”, afirma Cardamone.

Um parêntese sobre a indústria 4.0 citada por Cardamone, O objetivo de eliminar o trabalho humano do ramo industrial é antes de mais nada uma mera propaganda ideológica, estando muito longe de ser uma hipótese científica, pois desconsidera por completo a própria dinâmica de competição no capitalismo, que necessita da exploração do trabalho humano para sua perpetuação. Isso se vê nas fábricas que implementam a Indústria 4.0, os trabalhadores ainda são essenciais para seu funcionamento.

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Em meio à pandemia da Covid-19 ficou evidente que os são essenciais para o funcionamento de tudo na sociedade e inclusive para enfrentar à crise sanitária. Diversos setores produtivos foram readaptados para responder em primeiro lugar às exigências do combate ao vírus. Assim em alguns países as grandes montadoras passaram a produzir respiradores mecânicos, a indústria química passou a produzir equipamentos de proteção, sabão e álcool em massa, entre outros exemplos. Isso lança por terra o argumento patronal de que é necessário demitir por conta da queda na produção de automóveis, afinal, uma série de itens que podem contribuir ao salvamento de vidas poderiam passar a ser produzidos e não só manter todos os postos de trabalho, mas também abrir novas vagas para ajudar a enfrentar o desemprego recorde.

Nós do Esquerda Diário rechaçamos os discursos de miséria do empresariado, estes que se instalam no país, exploram mão de obra, atacam as vidas dos trabalhadores para assim seguirem lucrando. Rechaçamos as negociatas entre as patronais e sindicatos, que a portas fechadas negociam os direitos de trabalhadores, aplicando ataques que levarão a maioria a uma vida de dificuldade e sofrimento. Rechaçamos esse governo ligado ao STF e golpistas, que legitimam todos os ataques do empresariado a classe trabalhadora de conjunto, onde de motoristas a auxiliares de limpeza, professores à entregadores de aplicativo, seguem sendo alvo de ataques e descaso, assim como o conjunto da população que não teve nenhum aporte do governo com relação ao combate ao novo coronavírus, pelo contrário, teve de Bolsonaro um desvio escandaloso de verba para testes alegando não ser preciso, tiveram seus auxílios emergenciais reduzidos e a fila do desemprego ampliada.

É necessário que os sindicatos, rompam com a paralisia e se coloquem a favor dos trabalhadores, organizando comitês que discutam amplamente os caminhos a serem seguidos no chão de fábrica, reivindicando a abertura do livro de contas, para que seja provado a todos, que não é miséria que o empresariado enfrenta. A medida de reconversão industrial, juntamente à exigência de todas as condições sanitárias, com testes massivos a todos os trabalhadores e seus familiares, licença remunerada com todos os direitos ao grupo de risco, bem como a proibição das demissões, deveriam ser as pautas centrais levantadas pelos sindicatos que de fato estão interessados em defender os trabalhadores. Esse seria um caminho efetivo para que sejam os patrões a pagarem pela crise, atacando seus lucros exorbitantes e não colocando a vida e as condições de existência de milhares de trabalhadores em risco.




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