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Dom e Bruno presentes | Mobilizar a classe trabalhadora e movimentos sociais por justiça a Dom e Bruno

Com a confirmação do assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira, jornalista e indigenista que atuavam na Amazônia em defesa dos povos originários indígenas, se confirma como tragédia uma série de promessas e discursos de ódio de Jair Bolsonaro e dos militares que governam com ele.

quarta-feira 22 de junho | Edição do dia

Em nome dos ruralistas, Bolsonaro disse que era preciso acabar com o ativismo ambiental, que era preciso acabar com o que chamou de “indústria da demarcação de terras”. A luta por justiça não pode acabar, e acompanhando o caminho da luta indígena e da greve de trabalhadores da FUNAI, é preciso lutar contra o regime político do golpe institucional e contra Bolsonaro, militares e ruralistas que são os responsáveis por esse trágico assassinato.

Com a confirmação do assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira, jornalista e indigenista que atuavam na Amazônia em defesa dos povos originários indígenas, se confirma como tragédia uma série de promessas e discursos de ódio de Jair Bolsonaro e dos militares que governam com ele. Em nome dos ruralistas, Bolsonaro disse que era preciso acabar com o ativismo ambiental, que era preciso acabar com o que chamou de “indústria da demarcação de terras”.

O caso gerou enorme comoção nacional e internacional. Bruno era trabalhador licenciado da FUNAI, a Fundação Nacional do Índio, que atua no reconhecimento de povos indígenas e nas vias institucionais para demarcação de territórios, e por isso foi profundamente sucateada pelo governo Bolsonaro-Mourão. Uma das primeiras ações de governo de Bolsonaro foi justamente a mudança da diretoria da FUNAI, colocando pela primeira vez desde a ditadura militares no comando do órgão. Verbas foram drasticamente reduzidas, fazendo do órgão, como disse o próprio Bruno em entrevista à Folha de SP, “A galera ali [Funai] está preocupante. Tem uns ali que se corromperam e estão fazendo um jogo muito perigoso de escolher o que deve ser entregue para manter os cargos.” Na entrevista, que pode ser lida aqui, fica evidente o aparelhamento do órgão, perseguindo e assediando os trabalhadores que atuavam na defesa dos indígenas Ele próprio foi afastado após ter contribuído com ação da FUNAI que apreendeu e queimou dezenas de embarcações do garimpo no Vale do Javari.

A morte de Bruno Pereira é efeito direto da ação do bolsonarismo sobre a FUNAI, e representa tal qual Marielle Franco, um símbolo do autoritarismo do sistema político brasileiro, que avançou a passos largos desde o golpe institucional em 2016, que aqui nesse diário denunciamos como uma forma de aprofundar ataques contra a classe trabalhadora e todos os setores oprimidos do país, de forma mais acelerada e profunda do que vinha fazendo o próprio governo do PT.

A repercussão nacional e internacional do caso abriram uma crise muito importante para o governo, em um tema que incontornavelmente compromete todo o governo Bolsonaro e os setores econômicos que estão por trás de seu discurso de ódio. Boris Johnson e Teresa May discursaram no parlamento britânico, cobrando o governo pelas buscas e investigação já que Dom Phillips era britânico e isso ampliou a repercussão internacional. O departamento de Estado dos EUA também combrou explicações. Para além da demagogia imperialista, que verdadeiramente não só nunca se importou com os indígenas e o meio ambiente, mas também na história do capitalismo são os maiores responsáveis por sua devastação, o pronunciamento de tantos setores - inclusive de establishment - a nível internacional por um lado são a demonstração da crise que envolve o governo com as declarações e a política para a Amazônia, mas também da intenção de buscar controlar o caminho que possa tomar a luta por justiça a Dom e Bruno, que ao lado de Marielle, são os assassinatos políticos de maior importância do bolsonarismo, marca de um país onde a violência policial cotidiana toma contornos também cada vez mais brutais, como a tortura a gás que levou à morte de Genivaldo, e também o aumento de chacinas policiais que tiram o sono de toda a população pobre do país, que vê em Jacarezinho, Vila Cruzeiro, entre outras, promessas do que o governo está disposto a fazer com qualquer família negra que viva em um bairro pobre.

O assassinato de Dom e Bruno mostram a confluência de atores e forças reacionárias que resultaram no episódio brutal que envolveu os dois.

É possível ver o papel do governo e dos discursos e medidas de Bolsonaro e dos militares; é possível ver o papel das forças policiais e armadas em negligenciar a proteção do território amazônico e dos ativistas, permitindo o desenvolvimento de verdadeiras caças a ativistas e militantes políticos; é possível ver o papel também dos ruralistas e da sua demanda por mais e mais extrativismo, chegando ao ponto de financiar assassinos cruéis para matar em seu nome. Por fim, e não menos importante, é possível ver o inquestionável esgotamento produtivo de um sistema econômico que precisa de assassinato e devastação de territórios para poder sobreviver.

O assassinato violento de Dom Phillips e Bruno Pereira é símbolo do regime político autoritário e carcomido brasileiro ao mesmo tempo em que simboliza a podridão que é o sistema capitalista. A obsolescência programada de celulares e computadores que nos obriga a comprar novos a cada um, dois ou três anos. A troca de veículo pelo carro do ano. A roupa nova para agradar a chefia. A produção incessante de novas mercadorias que alimenta a extração de mais e mais minérios cuja existência é limitada. Esgotados os recursos desse território, depois de assassinados indígenas e quilombolas no próximo, é pra lá que vão pegar mais ferro, manganês, cobre, alumínio, zinco, níquel, cromo, titânio, fosfato, ouro, prata, platina, paládio. A Amazônia desmatada, atacada em nome de mais lucro, despedaçada e esquartejada tais quais os corpos dos que lutaram pela defesa dos recursos naturais limitados que existem ali.

É preciso tomar as ruas e organizar a classe trabalhadora, ao lado das massas indígenas, para apresentar a sua resposta tanto pra esse crime brutal como para a proteção dos territórios indígenas e quilombolas e enfrentar ruralistas e agronegócio que esquartejam terras e pessoas em nome dos lucros. A greve de trabalhadores da FUNAI, em resposta ao assassinato de Bruno mostra o caminho. A negligência, expressão da política dos militares na busca foi um escândalo desde o início, e por isso dizemos: as investigações não devem parar. Exigimos do Estado brasileiro todas as condições para que se mantenha uma investigação independente, apoiados na mobilização indígenas, os únicos aos quais se pode agradecer por saber o paradeiro de Dom e Bruno. Foram eles que levaram adiante uma busca cuidadosa, antes mesmo de haver a presença de militares enviados para as buscas na região.

Isso não ocorre por uma casualidade. As Forças Armadas e militares tem negócios históricos na Amazônia, atuando publicamente na defesa de garimpeiros e madeireiros, como revelou a imprensa mostrando Heleno diretamente comprometido com eles. As forças armadas são estruturalmente comprometidas com esse tema, desde uma política de extermínio de povos inteiros durante a Ditadura Militar. Outro indigenista, que trabalhou com Bruno na Funai e hoje é exilado na Noruega para não ser morto, denunciou a perseguição da própria Abin por denunciar policiais militares e civis no assassinato e perseguição contra indígenas no Maranhão.

É preciso também unificar nossas forças contra o Marco Temporal que corre no STF, uma lei que geraria a expulsão de mais de 300 povos originários de suas terras, acompanhando o caminho que já percorreram as massas indígenas, que fizeram uma mobilização multitudinal no Acampamento Terra Livre, com dezenas de milhares de indígenas e centenas de povos acampando em Brasília contra essa lei.

Essa luta é preciso levar sem nenhuma confiança no judiciário, um aliado também de garimpeiros e ruralistas na destruição e perseguição dos povos indígenas. Foi o próprio Sérgio Moro, quando ministro da Justiça, que assinou o afastamento de Bruno do cargo de coordenador da Funai. É preciso arrancar justiça com a força da luta, impedindo que as investigações parem com a confissão dos três envolvidos.

Falamos aqui dos militares, de Bolsonaro, das cúpulas das forças armadas e do judiciário, mas não é possível finalizar essa declaração sem compartilhar da lembrança que vários setores tem feito de Ricardo Salles, que teve uma atuação marcante favorecendo garimpeiros e madeireiros durante sua estadia como Ministro do Meio Ambiente. Ele surgiu na vida política através de Alckmin, como seu secretário do meio ambiente em São Paulo, quando ainda era governador. Salles não é o único membro da extrema direita, muito menos único defensor dos ruralistas e dos garimpeiros, que surgiu da assim chamada “centro direita”, a tradicional direita liberal brasileira. Agora, esse mesmo Alckmin, com todos os seus aliados que sabe-se lá qual futuro terão - faz parte de uma chapa com Lula para concorrer à presidência em outubro. A justificativa petista é de que isso seria o necessário para combater a extrema direita, mas como mostramos aqui, é desse lugar, das alianças com a direita “moderada” (um termo que quando descreve Alckmin é um disparate total, em se tratando do governador da desocupação do Pinheirinho, da chacina da baixada santista, ladrão de merenda, etc…) que se fortalece e nasce a extrema direita. Nenhuma aliança com a direita jamais fortaleceu a luta dos povos indígenas, da classe trabalhadora, das massas negras, do movimento de mulheres. O que ocorreu foi o exato oposto.

Nessa quinta-feira, chamamos a que por todo país, atendamos ao chamado de ir às ruas que fazem os trabalhadores da FUNAI. E nas ruas, é preciso dizer: justiça por Dom e Bruno! Bolsonaro, militares e ruralistas são responsáveis! E para isso, chega de trégua das centrais sindicais. É preciso que a UNE, a CUT e CTB, dirigidas pelo PT e PCdoB convoquem mobilizações urgentes que permitam que toda a classe possa expressar com luta essa comoção e esse grito que está em nossa garganta. Uma luta que acreditamos se fortalece com a participação da juventude, que está vendo o seu futuro ser esmagado também pela destruição ambiental. A Amazônia vale mais que o lucro deles, e ela é nossa: da classe trabalhadora, dos povos indígenas, quilombolas, da juventude que quer seu direito ao futuro.




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