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Celeste MurilloArgentina | @rompe_teclas

quinta-feira 26 de agosto | Edição do dia

O quê, como e quando da misoginia

Misoginia define ódio ou desprezo pelas mulheres. A palavra vem do grego " miseo", odiar, e "gyne", mulher. No livro Misoginia: o preconceito mais antigo do mundo, o jornalista Jack Holland traça parte de sua história. Ele explica que, na mitologia grega, Prometeu rouba o segredo do fogo dos deuses para entregá-los aos homens e Zeus, enfurecido, escolhe como punição para a humanidade criar uma "coisa má para seu deleite", que é Pandora, a primeira mulher. Não que os gregos fossem especialmente malvados ou machistas, os mitos estavam relacionados às sociedades onde as mulheres nem mesmo eram consideradas cidadãs

Como este, existem outros mitos e preconceitos que explicam e justificam a opressão ou perseguição de quem a questiona. Por exemplo, acusar as mulheres de feitiçaria na Idade Média também se baseia nesse desprezo e desconfiança para com as mulheres, na construção desse “outro”. A feitiçaria era explicada como produto da luxúria, impossível de se satisfazer por causa de um mal alojado na boca do útero. Esta construção desempenhou um papel muito importante na destruição da vida comunal, na transição do feudalismo para o capitalismo.

Quando apareceu como um termo?

Foi incluído pela primeira vez no dicionário Oxford em 1656. Mas apareceu antes, em 1630, em resposta a um panfleto contra as mulheres escrito por de Joseph Swetnam chamado The Lewd, Idle, Disobedient and Fickle Women Process (O processo das mulheres lascivas, ociosas, desobedientes e inconstantes em tradução livre). Foi muito popular na época e ecoou o debate sobre o lugar da mulher na sociedade.

O panfleto afirmava coisas como: "As mulheres são desonestas por natureza", "as aspirações de sua mente e sua vontade de libertinagem trouxeram a desgraça para o homem."

Surgiram várias respostas ao panfleto, a mais famosa foi uma obra anônima chamada : Swetnam, o odiador de mulheres é processado por mulheres e o personagem que interpretou Swetnam se chamava Misogynos.

O termo não ganhou muita popularidade na época. Mas nos anos de 1970, nos Estados Unidos, em meio à mobilização feminista, uma das intelectuais que lhe deu importância e instalou seu uso no movimento de libertação foi Andrea Dworkin em seu texto de 1974, Woman Hating. Tem havido e há muitos debates sobre as condições em que esse ódio surge e se reproduz, mas algo que se instala e perdura até hoje é que o problema não é um homem mau, o problema é social.

Um longo caminho

A misoginia pode se manifestar de várias formas. Nem todas são violentas e muitas dessas formas são tão naturalizadas que só quando os movimentos sociais e políticos as apontam é que as expressões de misoginia começam a ser vistas, por exemplo: reproduzir estereótipos que apresentam as mulheres como loucas ou emotivas, sugerindo que são incapazes ou irracionais e que não são capazes de tomar decisões (no debate sobre o aborto legal houve muitos argumentos misóginos usados por funcionários do governo e opositores). Vivemos com essas imagens, mesmo tendo várias formas de discriminação sido proibidas por lei como resultado da luta contra a opressão ou, quando expressões de machismo são questionadas é justamente por causa dessas lutas. Não há evolução natural, os estereótipos não evaporam.

Hoje a vida é muito diferente daquela do século XVII. As mulheres conquistaram direitos, mas a sociedade continua a funcionar essencialmente sobre os mesmos pilares: a opressão e a exploração.

O mais interessante das reflexões que as mulheres têm feito ao longo da história é que elas nunca buscaram se vitimizar, ao contrário, essas reflexões são uma forma de entender as raízes do problema e, para muitas, lutar pela construção de outra sociedade na novos pilares.

Texto publicado originalmente em La Izquierda Diario em 06/08/2021




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