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EUA | Migrantes: a primeira crise do governo Biden

Com Kamala Harris à frente, Biden dá uma continuidade Democrata à política de repressão imperialista e encarceramento em massa de migrantes latino-americanos que vimos com Trump. Aos milhares, a esperança que sua vitória eleitoral trouxe se converte em pesadelo na fronteira.

terça-feira 20 de abril | Edição do dia

A eleição de Biden, acompanhada com ansiedade pelo mundo inteiro no ano passado, trouxe esperança e coragem para milhares de centro-americanos que viam ali uma possibilidade de governo progressista nos EUA. Isto principalmente no marco do maior movimento de massas da história desse país, o BLM e sua luta multiétnica contra o racismo, a extrema-direita e a violência estatal.

Biden pode ter falado de cooperação com o México na fronteira, mas essa cooperação não se distanciaria muito da política de muralha que Trump levou adiante com Lopez Obrador, deportando milhares de imigrantes, segurando-os militarmente no México e ao mesmo tempo aceitando crianças desacompanhadas e colocando-as nos infames e insalubres campos de detenção da ICE - empresas que lucram com a detenção dos migrantes. Trump é um canalha, mas foi muito perspicaz durante os debates presidenciais ao lembrar que foi o governo de Obama (com Biden como vice) que instaurou essa nova fase da política migratória norte-americana, expondo o óbvio por trás da mentira do regime bipartidário.

As estatísticas migratórias estimam que, antes de setembro, 1 milhão de adultos desacompanhados, 820.000 famílias e mais de 200.000 menores de idade desacompanhados chegarão aos EUA. E os números são crescentes, com 18.000 crianças e adolescentes cruzando a fronteira em março, o dobro de fevereiro. O número de migrantes indocumentados que tentaram cruzar a fronteira México-EUA já é o mais alto dos últimos dois anos, e a tendência é que atinja 4 mil detenções diárias, segundo a alfândega norte-americana.

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E para administrar essa crise, Biden escolheu colocar sua vice-presidente, Kamala Harris, como responsável da política migratória e das negociações com o México e com o “Triângulo do Norte” (El Salvador, Guatemala e Honduras, países devastados por 2 furacões no ano passado). “Ela é a pessoa mais qualificada para acabar com a migração na fronteira sul”, disse Biden.

Foi no marco disso que um grupo de 50 imigrantes, entre eles diversas famílias com seus filhos, foram até a frente da casa a vice-presidenta para pedir que haja pelos direitos dos indocumentados e dos que querem migrar para o país. Gritavam “Kamala, escucha, estamos en lucha”, pedindo o fim das deportações e detenções de menores de idade, bem como a regularização dos milhões de indocumentados, muitos deles considerados trabalhadores essenciais durante a pandemia e que não tiveram nenhum auxílio social.

Porém, trata-se de uma nomeação que por si já evidencia a linha política que será tomada. Em pleno ano do maior levante antipolicial da história, Kamala Harris se autodenominou com orgulho uma “policial de elite. De fato, ela representa muito bem essa instituição. A top cop atingiu recordes de encarceramento como promotora da Califórnia, aumentou as penas contra setores pobres e marginalizados, nunca moveu uma palha para combater a corrupção do alto escalão das grandes empresas, ao mesmo tempo que se recusou a processar padres católicos acusados de abuso sexual. E como vice, já mostrou serviço e conseguiu uma nova medalha para sua coleção: é a primeira mulher negra da história dos EUA a bombardear o Oriente Médio

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O presidente mexicano López Obrador e Kamala Harris já trabalham juntos para barrar, prender e deportar os milhares de migrantes latinos que diariamente se arriscam em sua marcha rumo ao norte, fugindo a miséria, da violência e em busca de trabalho e de uma vida digna. A política de imigração Democrata dá todos os sinais de que será a continuidade da era Trump na fronteira.

Trata-se de um dos principais desafios da atual gestão do imperialismo ianque, uma das questões mais delicadas e acompanhadas de perto pela juventude multirracial que se enfrentou com o aparelho repressivo do estado no ano passado por justiça por George Floyd, e que atualmente segue se enfrentando com a Guarda Nacional após novos assassinatos racistas de jovens negros e latinos como Daunte Wright e Adam Toledo.

E também, apesar de seus pronunciamentos demagógicos, é preciso ter claro que a ala “esquerda” do Partido Democrata, como Sanders e Ocasio-Cortez, não representa nenhuma alternativa politica progressista para os migrantes e os trabalhadores e oprimidos nos EUA. Além de sempre apoiarem as diversas intervenções imperialistas em outros países, foram parte de cooptar o BLM e de legitimar a candidatura de Biden-Harris, bem como as instituições da “democracia” racista e imperialista do Estado norte-americano.

A crise humanitária na fronteira dos Estados Unidos é fruto de décadas de intervenção e exploração imperialista na América Central. Na verdade, assim como exploram até a exaustão os recursos naturais dos povos da América Latina, os capitalistas norte-americanos sempre estiveram muito contentes de ter trabalhadores imigrantes precarizados em seu país, podendo assim super-explorar uma mão de obra barata, sem direitos e sujeita a deportação.

Nos Estados Unidos, no México e por todo continente, nós da Fração Trotskista - Quarta Internacional expressamos nossa solidariedade aos explorados e oprimidos da América Central e do Norte que procuram uma vida melhor. Lutamos pela unidade internacional dos trabalhadores a partir de cada país e reivindicamos livre trânsito, residência e emprego aos migrantes, uma demanda que deve ser levada adiante através de uma perspectiva socialista e anti-imperialista.

Confira o Manifesto da Fração Trotskista: O desastre capitalista e a luta por uma Internacional da Revolução Socialista




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