Internacional

Mianmar e a independência de classe

Os últimos desenvolvimentos da luta dos trabalhadores contra o golpe e da repressão no Mianmar abrem uma nova etapa na crise política do país. Sob pressão de Pequim, os militares avançam violentamente sobre os bairros operários. Qual a importância, que rumos pode tomar e ao lado de quem se colocam os revolucionários num dos principais conflitos da luta de classes do momento?

sexta-feira 19 de março| Edição do dia

O brutal cerco feito pelo exército aos bairros operários de Hlaing Tha Yar deixou cerca de 50 mortos no domingo, após o incêndio de fábricas chinesas na zona industrial próxima da capital. Na terça-feira, na mesma cidade, trabalhadores caíram numa armadilha em uma fábrica chinesa de calçados, onde foram exigir seus salários: acabaram trancados dentro do pátio e a patronal acionou o exército, que assassinou 5 operários.

A nova política de mão dura dos militares vem gerando revolta dia após dia. E se, no primeiro período do golpe, o apoio do governo de Xi Jinping ao regime era tácito, agora já avança em exigência de que os generais acabem com os “distúrbios”. Ou seja, que defendam os interesses do capital chinês e reprimam a classe trabalhadora que luta contra o golpe. Esse alinhamento é cada vez mais evidente para os manifestantes, Pequim precisa de estabilidade na região para concluir projetos estratégicos da iniciativa Belt and Road, e a burocracia do PCCh parece estar convencida de agir para que os birmaneses em luta não atrapalhem seus planos para o país.

O discurso das mídias estatais chinesas é incrível, lembra muito algumas coisas que já ouvimos aqui, vindas do governo Bolsonaro: segundo Pequim, os ataques aos capitais chineses no Mianmar são feitos por birmaneses anti-China, provocados pelas forças ocidentais, ONGs e dissidentes de Hong Kong.

Como escreveu Juan Chingo, os interesses da China no Mianmar são claros. Para além de superexplorar as trabalhadoras e trabalhadores do país com salários baixíssimos, Pequim mantém ambições de abrir o país com suas mineradoras, de instalar uma hidrelétrica enorme para produzir energia para a China, e também um gasoduto de 800 quilômetros até o oceano Índico. Para além disso, Mianmar é um país vizinho da China e localizado no sudeste asiático, região que vem se configurando como o principal centro das disputas e conflitos internacionais - principalmente entre China e Estados Unidos e seus aliados.

Na linha de frente contra o golpe militar não vemos agentes do imperialismo ianque, como gostam de acusar as viúvas do stalinismo, dos tipos do PCB de Jones Manoel, contra todos que criticam as brutalidades do capitalismo chinês e do PCCh. Vemos, na verdade, estudantes e uma classe trabalhadora jovem, formada principalmente por mulheres que vieram se organizando sindicalmente nos últimos anos. Adquiriram experiência no movimento operário em greves por salário e condições trabalhistas, contra as multinacionais. Essas são as trabalhadoras e trabalhadores que passam de fábrica em fábrica convocando seus colegas, sindicalizados ou não, a se unirem às greves e mobilizações contra o golpe.

Veja também: Mianmar: as mulheres na linha de frente

De fato, o movimento ainda é muito influenciado pelo partido da ex-presidente Aung San Suu Kyi, a neoliberal Liga Nacional pela Democracia (LND). Como escreveu Arthur Nicola, se trata de um partido burguês que defendeu principalmente os interesses das grandes potências econômicas, como a instalação das gigantes multinacionais têxteis, e que também apoiou passivamente o massacre dos muçulmanos Rohingyas.

Mas o próprio LND, que agora se organiza na ilegalidade e clama pela ação das potências imperialistas contra a Junta militar, foi quem preservou os poderes políticos e econômicos dos militares após o fim da ditadura. Uma restituição de Suu Kyi no poder vai significar apenas a exploração sob mãos mais democráticas, que logo se voltarão contra o movimento operário, como já faziam.

O principal ponto de apoio contra os golpistas é o protagonismo operário galopante no movimento, e há muita convicção de ir até o fim contra os militares. Não à toa os capitalistas “democráticos” do Mianmar começam a ficar com um pé atrás quanto ao movimento de oposição, como noticiou o Financial Times. Nas primeiras semanas, muitos patrões e até mesmo multinacionais foram coniventes com as paralisações. Essa realidade começa a se fragilizar, ao passo que se completa um mês do golpe e a greve geral não parece retroceder. A burguesia a princípio democrática, tanto birmanesa quanto estrangeira, se vê pressionada entre o movimento de massas, que já mostrou sua resolução, e o colapso de seus investimentos no país.

Gradualmente, os capitalistas passam a temer não pelo autoritarismo militar, e sim pelos seus lucros, ameaçados pelo extenso movimento grevista e pela moralização da classe trabalhadora, o principal sujeito político que enfrenta o regime golpista desde o primeiro dia. É impressionante a força e a extensão da unidade que os trabalhadores birmaneses provam que nossa classe pode apresentar contra seus inimigos. Até mesmo os históricos conflitos étnicos do país parecem ter sido superados na linha de frente do combate aos militares genocidas.

Desde o dia 7, 18 centrais sindicais e associações de trabalhadores do Mianmar se uniram em uma frente única de greve geral nacional contra o golpe. Um grande exemplo que deveria ser apropriado pela classe trabalhadora brasileira, que pena a fome, a violência policial, o desemprego e 3.000 mortes diárias por Covid-19 sob o cinismo de Bolsonaro, dos militares e do conjunto do regime do nosso golpe. Diante da catástrofe nacional brasileira, as centrais sindicais, como a CUT e a CTB (dirigidas por PT e PCdoB), deveriam romper com a paralisia absurda que impõem e levantar um plano de lutas, unificando toda nossa classe, como no Mianmar.

Para apresentar uma alternativa própria dos trabalhadores e enterrar a Junta Militar e a herança neoliberal, a classe trabalhadora de Mianmar deve avançar em métodos de auto-organização e auto-defesa, para poder apresentar uma alternativa política própria, independente do LND, e se proteger dos ataques do exército. É preciso dissolver e punir os militares em júris populares, destruir o regime da constituição de 2008 e retirar dos generais e do capital estrangeiro o controle dos setores chave da economia, estatizando-os sob controle dos trabalhadores. Os capitalistas hipocritamente usarão dos efeitos da paralisação da economia com a greve para pressionar pelo retorno à normalidade, e só a criatividade dos trabalhadores será capaz de garantir o abastecimento de alimentos e bens de consumo e se enfrentar com os empresários e os militares.

Pode se tratar de um conflito em um país pobre e do outro lado do mundo, muito distante do Brasil, mas Mianmar traz lições para a classe trabalhadora inteira, em especial a nossa. O sudeste asiático é o centro da luta de classes hoje, mas, se estivesse acontecendo algo assim aqui na América Latina, estaria ganhando uma importância muito maior por parte da mídia e de todas as organizações políticas.

A falta de internacionalismo e o vazio estratégico de setores da esquerda brasileira são tamanhos que, como mencionamos, não é raro vermos filhotes de burocratas defendendo regimes que apoiam lei marcial em bairros operários mundo a fora e que nada de socialistas têm, seguros de que a distância e a fragmentação de nossa classe encobrirão o absurdo de suas posições. Nós, do MRT e da rede internacional Esquerda Diário, que compomos a Fração Trotskista pela Quarta Internacional, nos colocamos ao lado dos trabalhadores de todo o mundo, reivindicando o internacionalismo operário e a independência de classe, contra todas as frações das burguesias nacionais e do imperialismo.




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