COVID-19 / CLASSE TRABALHADORA /

Meu pai morreu porque é pobre, diz filho de primeiro morto em Alagoas por coronavírus

Gilson Dantas

Brasília

sábado 4 de abril| Edição do dia

“A primeira pessoa a morrer em Alagoas por causa do novo coronavírus passou quatro dias de peregrinação entre a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jacintinho, o HGE (Hospital Geral do Estado), e a UPA do Trapiche da Barra, todos localizados em Maceió, esperando uma vaga em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em hospital especializado. O homem tinha 64 anos e era diabético e hipertenso”. [...]

“O filho da vítima, que terá o nome preservado, diz que está sofrendo preconceito e relata que, por três dias, levou o pai para a UPA do Jacintinho, na periferia de Maceió, mas o diagnóstico não foi dado corretamente.

Segundo ele, o primeiro parecer médico foi infecção na garganta. Por três dias seguidos, ele levou o pai à UPA do Jacintinho porque os sintomas na vítima só pioravam e o filho até cogitou com os médicos que atenderam o idoso a possibilidade do novo coronavírus. "Olhei na internet e os sintomas eram parecidos", recorda.

´Depois da infecção na garganta os médicos disseram que meu pai estava com infecção pulmonar, mas não tinha necessidade de ele ir para um hospital. O quadro dele só piorava, ele não conseguia respirar´, relata o filho da vítima. ´Pesquisamos um hospital que poderia internar meu pai em UTI, que seria o hospital Elvio Auto, mas levaram da UPA do Jacintinho para o HGE, na sala 1. Horas depois, meu pai foi transferido para a UPA do Trapiche, onde estava com sintomas claros de Covid-19´, conta.

A família do paciente ainda tentou pagar a internação em hospital particular, "mas não tínhamos dinheiro suficiente".

Meu pai morreu porque é pobre, porque atendimento foi fraco, precisava de suporte avançado de UTI. Não era para ter morrido. Se ele tivesse ido para uma UTI, ele tinha sobrevivido. Infelizmente, foi deficiência de uma UTI, não teve assistência médica intensiva adequada.

Segundo o governo do estado, os familiares estão em isolamento domiciliar e estão sendo monitorados pelo CIEVS (Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde). Entretanto, o filho do homem nega e diz que não está recebendo ajuda ou orientação algum do governo do estado.

´Consegui enterrar meu pai com muita dificuldade. Até agora, não recebemos assistência nenhuma e estamos sofrendo preconceito com os vizinhos. Estamos trancados no apartamento sem apoio da área da saúde", enfatiza. A família também negou que mora há seis meses em Alagoas. ´Viemos do Acre faz cinco anos´, explica”.

Este tipo de notícia [do dia 1/4/2020, Uol], que lamentavelmente se repete cotidianamente, praticamente fala por si só.

É como uma crônica da morte anunciada, ceifando, todos os dias, as vidas do povo pobre, da classe trabalhadora, que brada a plenos pulmões conta essa iniquidade.
Com esse brado de dor e o clamor de que “meu pai morreu porque era pobre”, esse jovem trabalhador pega na veia do sistema. Deixa a nu a ordem burguesa, ordem dos cemitérios e da dor cotidiana das grandes massas em sua luta pela sobrevivência.

Põe por terra a cantilena oficial de um país que vai bem, que faz boa gestão da crise, que está se desenvolvendo ou que vai a algum lugar que não seja o permanente extermínio de negros e pobres nas periferias. A razão de ser desse sistema é a fria e desumana acumulação do capital.

“Meu pai morreu porque era pobre” retrata a realidade de uma democracia dos ricos, de um país espoliado pelos banqueiros: no real, o que existe é a medicina de rico e a medicina de pobre. Se o general Heleno precisa de um teste do COVID-19, basta estalar os dedos, se sua internação for necessária, não vai ter fila, um hospital inteiro, o HFA, está aberto para os oficiais das Forças Armadas. Toda a burocracia política, militar e judiciária que manda na nossa nação em nome da burguesia, vive no na sua bolha de medicina de rico. Por isso não têm o menor interesse nos testes massivos e devolvem o pobre quando infectado para sua comunidade creia de privações.

Ao povo resta morrer à míngua em maca de hospital fétido ou até aglomerado nas filas de atendimento. Ou ser jogado em sórdidos hospitais de campanha, nos quais ninguém jamais vai encontrar nenhum juiz, general ou político.

E a família trabalhadora? Transportes, moradia, esgotos, saneamento básico, descanso, qualidade de vida, nada disso está ao alcance dos pobres.

E essa pandemia está – como nesse caso do pai abandonado `a míngua, que é o que se vê materializado na miséria de todos os milhares e milhões que “morrem porque são pobres” -, ela está deixando bem claro que os trabalhadores estão diante de uma classe dominante reacionária, e racista que desvia os grandes recursos para os bancos enquanto impõe para a classe trabalhadora e sua família, as migalhas do seu grande banquete burguês.

Tampouco se pode deixar de mencionar que, em outra escala, também esse foi o retrato dos governos “progressistas”, que foram favorecendo os tubarões da saúde, os planos de saúde, os hospitais privados, jogando bilhões na falsa dívida pública, às custas do sucateamento e abandono financeiro do SUS. Por isso não é de estranhar que hoje Lula esteja ali, lado a lado com o reacionário Dória, fazendo seus cálculos eleitorais.

É inegável que essa pandemia pegou um sistema de saúde e assistência médica falido [para os pobres]. São os que mais vão morrer com essa pandemia, porque a pobreza, como bradou aquele trabalhador em Alagoas, torna os pobres mais vulneráveis ao vírus. Pobreza que não vem do céu, mas é fruto direto da exploração do trabalho pelo capital.

A doença tem classe social. O vírus pode entrar em todos, mas é a classe dominante quem impõe que os mais pobres paguem o preço mais alto.

Estatizar e centralizar toda a medicina sob controle dos trabalhadores, para levantar um verdadeiro SUS, de qualidade, universal e gratuito, é o primeiro grito de guerra da classe trabalhadora para que não continue morrendo “porque é pobre”, enquanto medicina e atenção médica vira mercadoria de luxo. Mercadoria ao o alcance de generais, juízes e políticos, da classe burguesa, que usam a polícia e as forças de repressão para garantirem que o saque continue. E que sua bolha siga de pé.

Quem produz toda a riqueza da nação, quem produz tudo que se consome no nosso país, não pode ser tratado na base da política sanitária de extermínio, “porque é pobre”, quando os ricos somente são ricos por conta do saque permanente da riqueza produzida, EXCLUSIVAMENTE pelos “pobres”, isto é, a classe trabalhadora.

[imagem do site reporternordeste.com.br]




Tópicos relacionados

Coronavírus   /    Classe Trabalhadora

Comentários

Comentar