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Meu nome é Bagdá: mulheres, skate, e o retrato do subúrbio paulistano

Gabriela Farrabrás

Arte colagem feita com imagens do filme e artes do coletivo britney’s crew

Meu nome é Bagdá: mulheres, skate, e o retrato do subúrbio paulistano

Gabriela Farrabrás

Estreou nos cinemas, infelizmente apenas em São Paulo e Rio de Janeiro - devido a uma política pública e privada de precarização do acesso à cultura a nível nacional -, no dia 16 de setembro o filme Meu nome é Bagdá, de Caru Alves.

O filme acompanha o dia a dia de Bagdá (interpretada por Grace Orsato), como é conhecida Tatiana, uma adolescente que passa seus dias andando de skate com os meninos na pista de skate abandonada do bairro da freguesia do ó, periferia da zona norte de São Paulo.

O filme ganha o espectador pelos detalhes, é um retrato do subúrbio paulistano com seus barzinhos comandados por mulheres, famílias sem pais - como a família da personagem principal, chefiada por Micheline (interpretada por Karina Buhr, em seu primeiro filme), mãe de tres meninas fortes e diferentes entre si, mas que se apoiam nos desejos e somhos - , jovens que encontram no skate um refúgio e uma forma de ocuparem o espaço onde vivem, o salão de beleza de uma mulher trans e um homem homossexual - com câncer e com medo de morrer e ser esquecido -, e também os perrengues e os preconceitos que a populacão periférica reproduz.

Algumas cenas se sobressaem e são muito preciosas e delicadas nos questionamentos e ideias que apresentam. Uma delas é a cena em que Bagdá folheia uma dessas revistas que ensinam os 10 passos infalíveis pra conquistar um homem, e se questiona se pra ser mulher tem que seguir o padrão de mulheres presentes nessas páginas, brancas, magras, loiras do olho claro.

Outra cena que fez aquecer um pouco o coração dessa marxista que escreve essa crítica, e sempre vê os trabalhadores como sujeitos políticos capazes de fazer revoluções, foi a cena em que Bagdá se encontra com a mãe de um amigo skatista, uma mulher negra, trabalhadora de uma fábrica, que sabe fazer o parafuso certo para o skate da personagem principal - e com certeza muito mais - e tem orgulho de dizer que ela sabe fazer as coisas, transformar o nada nas coisas que constroem o mundo; a cena termina com os trabalhadores uniformizados entrando por uma porta, e pessoas sem uniforme entrando por outra porta.

A cena do enquadro policial também não fica atrás, mas agora pela violência cotidiana explícita, dois policiais enquadrando jovens andando em uma pista de skate, de forma agressiva, e que ao perceberem que Bagdá é uma menina a ameaçam: se fosse minha filha apanhava até virar mulher de verdade, para logo em seguida fazer o que não deve - mas que podem, já que são eles o braço armado do estado - a revistar, inclusive tocando em suas partes íntimas.

E claro, as cenas em que Bagdá bate de frente com os seus amigos, que tratam as meninas como pedaços de carne, sem pensar no que elas podem ser pra além da beleza física.

A união das meninas skatistas entre elas, pra fazer com que as pistas de skate sejam mais confortáveis para as meninas, para que elas possam também ocupar esses espaços é um grande trunfo do filme, a ideia de que é através da união que se enfrenta as injustiças, a falta de espaço, o machismo sofrido por parte dos companheiros de pista, inclusive os conscientizando do que eles praticam ou são coniventes muitas vezes sem se dar conta do que estão reproduzindo.

Outro ponto forte do filme é sua trilha sonora que passa pela música instrumental, árabe, rap, funk e punk, com protagonismo de mulheres; e talvez, a música Punk Rock da banda de punk feminista Bulimia resuma bem do que se trata o filme:

"O que te impede de lutar?
O que te impede de falar?
Pare de se esconder
Você não é pior que ninguém
(...)
Faça o que tiver vontade
Mostre o que você pensa
Tenha a sua personalidade
Não se esconda atrás de um homem"

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Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle
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