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TRAGÉDIA

Mesmo fora do grupo de risco, quase 900 bebês morreram por Covid-19 no Brasil em 2020

O Brasil apresenta a mais alta taxa de mortalidade do mundo entre bebês por Covid-19. Mesmo fora do grupo de risco, em 2020 centenas de crianças e adolescentes entre 1 e 19 anos perderam suas vidas levianamente, pelo descaso dos governos e o negacionismo de Bolsonaro e Mourão.

quinta-feira 1º de abril| Edição do dia

Foto: SSDF

Ao menos 899 bebês com menos de 1 ano morreram ano passado no Brasil por Covid-19. O dado está no Painel de Excesso de Mortalidade no Brasil e foi apresentado pela organização de saúde Vital Strategies.

Esta é uma das mais altas taxas de mortalidade desta faixa etária no mundo. O número é dez vezes maior que o registrado para o grupo de 0 a 18 anos dos EUA (103 mortes), o país com mais mortes por Covid-19 do mundo.

O Brasil também apresentou excesso de internações de bebês até 1 ano por coronavírus: foram 11.996 em 2020.

Há ainda um grande risco de subnotificação desses dados, já que os sintomas da Covid-19 em bebês são frequentemente diferentes dos apresentados por adultos. Os sintomas de qualquer doença são menos específicos quanto mais novos são os bebês, o que também é o caso do coronavírus.

Mesmo não sendo grupo de risco, portanto, os bebês brasileiros foram afetados pelo descaso do governo Bolsonaro e Mourão que negaram a pandemia desde seu início, e pela irresponsabilidade de governadores e prefeitos ao não estabelecerem protocolos de atendimento específicos a mulheres grávidas e recém-nascidos.


Foto: SSDF

Um estudo de julho de 2020 feito pela International Journal of Gynecology and Obstetrics havia mostrado que o total de grávidas mortas no Brasil por Covid-19 também era um dos mais altos do globo. Das 160 mortes de gestantes em todo o mundo entre o início da pandemia e junho, 124 foram no Brasil. O 2.º lugar era dos EUA, com 16 mortes.

Estas mortes poderiam ter sido evitadas com medidas mínimas de combate a pandemia e de atendimento. A epidemiologista Fátima Monteiro, responsável pelo levantamento dos dados, afirmou ao Estadão que

“O número de mortes entre bebês é absurdo, um massacre (…). Não houve nenhum protocolo para atendimento de gestantes e recém-nascidos, não houve alerta para obstetras, pediatras, não se separou hospitais de referência para gestantes com Covid-19, não houve nada para organizar e orientar os atendimentos(…).Teve casos de parto em gestantes intubadas na UTI.”

A falta de pré-natal adequado também é visto como um dos motivos que levou a esse massacre. A falta de pré-natal leva a que ocorram mais partos de prematuros, bebês mais vulneráveis a infecções em geral, e também a Covid. Isso indica que as causas estruturais dessas mortes são anteriores a pandemia, e se ligam a falta de acesso e de oportunidade de acompanhamento da gravidez pelas mulheres trabalhadoras e pobres.

Óbitos de crianças e adolescentes em 2020

Para justificar o retorno inseguro e presencial das aulas, como em São Paulo, o fato de crianças e adolescentes serem menos suscetíveis aos sintomas fatais do coronavírus antes das variantes foi bastante utilizado. Além de um tremendo descaso com as vidas dos trabalhadores da educação, esse argumento não pode esconder que em 2020 houve centenas de mortes na faixa etária entre 1 e 19 anos.

Segundo dados disponíveis nos Boletins Epidemiológicos do Ministério da Saúde, das mortes confirmadas por Covid-19 em todo o ano de 2020, foram 189 mortes de crianças de 1 a 5 anos, e 614 mortes na faixa etária de 6 a 19 anos.

Chama a atenção, no entanto, que os números de mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) tidos como “não especificados” são altíssimos. Considerando a insuficiência de testagem no Brasil, eles muito facilmente podem estar na conta da subnotificação.

São 417 mortes por SRAG não especificadas entre crianças de 1 a 5 anos, e 817 na faixa etária de 6 a 19 anos.

Por serem comparados com a tragédia absurda da mortalidade entre adultos e idosos, os óbitos de crianças e adolescentes são, em grande parte da mídia, tidas como uma pequena parcela, como um número pequeno. Mas não são apenas números. São crianças e adolescentes que tinham toda uma vida pela frente. Apenas em um sistema como o capitalismo é possível que a morte evitável de cada criança não seja tida como algo revoltante. Por isso mesmo, é preciso destruí-lo, por vidas que subsistam, mas não apenas. Que sejam também dignas de serem vividas.

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