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Homofobia | Maurício Souza quer ter o direito de ser homofóbico no país que mais mata LGBTs no mundo

[E nos culpa por dizer basta!]

Nesta quinta-feira Maurício Souza, ex-jogador de vôlei do Minas Tênis Clube resolveu seguir a máxima “a culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser” e fez isso culpando o “pessoal da lacração”, “galera que não aceita mais opinião contrária” pela sua demissão e por ele não poder dizer abertamente que ele odeia as LGBTQI+ e que nós não deveríamos existir. Com isso tenta eximir o clube e os patrocinadores da responsabilidade pelas suas declarações.

Patricia GalvãoTrabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

quinta-feira 28 de outubro | Edição do dia

Maurício parece seguir numa cruzada contra a liberdade sexual. Sua armadura é a internet. E tal como os soldados cristãos da Idade Média, segue movido pelo obscurantismo e o ódio os infiéis, no caso as LGBTQI+, invadindo terras que não lhe pertence ou não lhe diz respeito (a sexualidade alheia) em defesa dos interesses dos senhores feudais e da igreja (aqui a burguesia e, claro, seu messias Bolsonaro). Nessa excursão desastrosa para defender os ideais da tradicional família burguesa o que gera indignação dos bolsonaristas é um beijo entre dois garotos e não a situação de miséria de boa parte das famílias brasileiras que correm atrás do caminhão do lixo e fazem fila por osso tentando sobreviver a fome e carestia crescente.

Em novo vídeo o jogador saiu em defesa do antigo clube e patrocinadores (nada menos que Gerdau e Fiat). Não nos enganemos. O Minas Tênis, assim como vários clubes esportivos, se preocupa com os patrocínios. O discurso de "aqui não cabe preconceito, homofobia etc" só vale quando gera alguma revolta que possa colocar em risco o lucro das empresas patrocinadoras. Não há preocupação com valores que não sejam monetários.

Tampouco os patrocinadores estão interessados em combater a lgbtfobia. O que os interessa é o pinkmoney e lucro conseguido graças à exploração dos seus milhares de trabalhadores. A Gerdau, por exemplo, é campeã de denúncias de acidentes de trabalho, com mortes de operários, e assédio moral. A Fiat suspendeu o contrato de milhares de trabalhadores na pandemia, transferindo seu prejuízo aos seus funcionários. Por isso, enquanto com uma mão fazem não à homofobia "aberta" (porque homofóbicos enrustidos continuarão a existir), com a outra mão saúdam os ataques de Bolsonaro, homofóbico e misógino declarado, aos trabalhadores.

Quem é a turma da "lacração"?

Sempre que algum conservador quer vociferar algum discurso de ódio e é rechaçado culpa a turma do mimimi, da lacração. Para eles o mundo está ficando chato demais. Por que não podem fazer piadas com mulheres, negros, nordestinos e gays? Por que fazer cantadas gratuitas não são tomadas como elogio, mas são assédio? Por que não podem debochar dos gays? A graça da vida está na manutenção da opressão. Na morte de milhares de mulheres vítimas de feminicídios, ou nas vítimas de abortos clandestinos, nos jovens homossexuais expulsos de casa e entregues a prostituição. Em sermos o país que mais mata LGBTs do mundo. Na precarização e nos assassinatos da juventude negra, pobre e periférica. Aparentemente a vida da turma da TFP (tradição, família e propriedade) anda muito parada.

Esses viúvos e viúvas da ditadura chamam de direito de opinião ser homofóbico, racista, machista. Mas consideram um atentado contra a família e os bons costumes a defesa do aborto legal, da educação sexual nas escolas, chamam "ideologia de gênero" uma HQ onde um garoto gosta de meninos e meninas. Uma pessoa se identificar com um gênero diferente do que nasceu é uma transgressão imoral enorme. Mas espancar até a morte uma pessoa trans é resistência. E esses entusiastas da tortura ainda exigem censura contra as ideias subversivas da esquerda, afinal, onde já se viu alguém ser gay no meio da rua? Abrir uma história em quadrinhos e ter um beijo gay? E se meu filho virar gay por culpa dessa cena? Oh, que crime! Mas nenhuma indignação contra a situação miserável da infância, onde crianças são espancadas a morte por um vereador defensor dos valores familiares cristão, ou estupradas por um familiar, ou assediadas por religiosos. Nenhuma indignação sobre as crianças mortas por balas da polícia ou por causa da patroa impaciente e racista. Nem mesmo um tuíte sobre as crianças nas ruas buscando comida nos contêineres de lixo.

E a história se repete. Marcelo Crivella, ex-prefeito do Rio de Janeiro, já havia censurado outra HQ, dos Vingadores, na Bienal do Livro em 2019 onde um beijo gay revoltou o pastor-prefeito. Em nome de proteger as crianças, Crivella tentou recolher centenas de livros, no melhor estilo nazista. As crianças do Rio de Janeiro, no entanto, permanecem desprotegidas das balas da polícia.

O Clã Bolsonaro, como era esperado, saiu em defesa do seu fiel seguidor chamando um boicote à Gerdau e a Fiat. A defesa do direito a liberdade de expressão vem da boca de quem elogiou torturadores como Ustra e os censores da ditadura. O pedido de boicote a Gerdau não se deu por conta dos trabalhadores mortos em acidentes de trabalho, coisa que a Gerdau é campeã ou contra a suspensão dos contratos dos trabalhadores da Fiat. E com carros custando mais de 50 mil reais, o boicote à Fiat se dá por outros motivos.

O presidente Bolsonaro ironizou o caso, dizendo que “tudo é homofobia” ou “feminismo”. algo como "não pode mais falar nada que já criticam". A tal liberdade de expressão é unilateral. Aqui, nós que não podemos falar nada, sermos quem somos. Para quem a vida das mulheres, das LGBTQI+, dos negros não valem nada, para quem 600 mil mortos é só um número, falar em direitos é mimimi. A vida não está chata, está insuportável.

O medo e o ódio motorizado pelos defensores dos valores tradicionais contra os oprimidos e explorados é para impedir nossa organização e nossa luta. Isso porque puderam ver a potência da luta antirracista, do movimento de mulheres, da luta LGBT. E isso de fato coloca em cheque os valores tradicionais de opressão e exploração.

Imaginem um mundo onde a sexualidade seja livre. Onde o direito ao próprio corpo seja respeitado. Isso é muito subversivo e perigoso para aqueles que defendem o direito de uma minoria manter explorada e submissa a ampla maioria. Porque ao acreditar que é possível batalhar por uma outra sociedade onde o homem não seja explorado pelo homem, onde as relações humanas se construam no afeto mútuo sem entraves, colocamos em risco a vida sem graça dessa burguesia fétida e dessa direita miserável. É disso que eles tem medo e é aí que vamos parar.

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