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REGIME DO GOLPE | Manaus sufoca, Apagão no Amapá e Amazônia em chamas: o Norte agoniza sob o regime do golpe

Os três eventos que atravessaram a região Norte do país recentemente não podem receber outro adjetivo que não barbárie; uma barbárie que é expressão direta da degradação do regime, produzida pelos protagonistas do golpismo em nosso país. A angustiante crise causada pela falta de oxigênio no Amazonas, os quase 30 dias de apagão no Amapá e as chamas que ardem na Floresta Amazônica são todas catástrofes de proporções assombrosas, engendradas pela sanha de lucros do agronegócio, pelo descaso do centrão e pelo negativismo bolsonarista.

terça-feira 16 de fevereiro | Edição do dia

A degradação do regime brasileiro que testemunhamos desde a consolidação do golpe institucional no país tem dado origem a sintomas mórbidos que são a expressão do quadro de barbárie social que os atores golpistas têm como projeto para o país. Nesse sentido, nenhuma região tem sido submetida de forma tão intensa às catástrofes sociais, sanitárias e climáticas produzidas por esse decadente regime quanto o Norte do país. A região da chamada Amazônia Legal sempre foi alvo de diversos planos para viabilizar o seu desenvolvimento, de Getúlio Vargas e a criação da SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia) ao Plano Amazônia Sustentável dos governos petistas; mas agora são as forças do regime do golpe que mostram suas garras na região.

O desejo de transformar o Brasil na fazenda do mundo coloca a região amazônica como a fronteira agrícola para expansão dos latifúndios do agronegócio. Um obstáculo está no caminho, a Floresta Amazônica. Mas para isso o agronegócio conta com o fogo, uma poderosa bancada reacionária no Congresso e o caminho aberto pela política de devastação ambiental de Bolsonaro e Ricardo Salles, prontos para deixar "passar a boiada" da flexibilização e do apetite voraz por mais terras, colocando não só a fauna e a flora, mas também os indígenas e a grande população ribeirinha da região em rota de colisão com esse projeto incendiário.

Os militares que durante a Ditadura tinham um projeto "desenvolvimentista" para a região, que também serviu de cobertura para os elefantes brancos e esquemas de corrupção da ditadura, criando a Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia) e fortalecendo o polo industrial da Zona Franca de Manaus, hoje oferecem cobertura para a penetração do agronegócio, aparecendo como moderadores do antiambientalismo de Bolsonaro e como interventores na região, na figura do general Mourão a frente do Conselho Nacional da Amazônia Legal. A criação da chamada Operação Verde Brasil 2 foi a solução do governo Bolsonaro para colocar uma fachada de combate ao desmatamento diante da explícita política de incentivo à destruição ambiental do presidente, que produziu barbáries como o Dia do Fogo. Ao custo de R$ 410 milhões até o momento, a operação, que foi declarada encerrada e terminará no próximo dia 30 de abril, intensificou a presença dos militares na região, tomando o protagonismo dos órgãos civis como Ibama, ICMBio e Funai.

Outro ator protagonista do golpe e que está sempre presente nos rincões e no Brasil profundo, como o interior da região amazônica, é o centrão. Um exemplo é o estado do Amazonas, em que o resultado das últimas eleições escancara esse peso do centrão na região, MDB (13), PSC (13), Republicanos (8), PP (7), PSC (6) lideram o número de prefeitos eleitos. Outro exemplo é o Amapá, reduto eleitoral do senador e até pouco tempo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que passada a eleição da Casa já disse que um dos seus focos será reestabelecer o domínio no estado, após ver seu irmão perder a eleição para a prefeitura da capital Macapá. O Estado, que foi imerso por mais de 20 dias na escuridão de um apagão causado pela negligência de uma companhia privada de fornecimento, em que seus habitantes pereceram sem energia elétrica para iluminação, conservação de alimentos e até fornecimento de água. Crise que impactou diretamente na candidatura de Josiel Alcolumbre, favorito nas pesquisas mas que apoiado pelo governador e pelo então prefeito, viu seus votos sumirem por ser a continuidade da desastrosa gestão privatista que arrastou o Amapá às trevas.

A crise da Amazônia deixou evidente como a região está no centro de um tabuleiro de xadrez em que se lançam não só movimentações e pretensões nacionais, com Bolsonaro, agronegócio, militares e centrão, mas até interesses internacionais com intimidações de Biden e de Macron em torno da política ambiental para a região. Entretanto, nenhum dos projetos em disputa leva em conta as demandas e necessidades dos trabalhadores e habitantes da região, submetidos a tantas carências como a pandemia escancarou. A região Norte possuía disparadamente o sistema de saúde mais precário, com a pior relação de leitos de UTI por habitantes de todo o país, uma questão estrutural que os ajustes neoliberais implementados por Bolsonaro, Guedes, Maia e os governadores só ajudaram a aprofundar. Como reverter esse enorme gargalo na assistência médica na região, sendo que o Teto de Gastos roubou bilhões da saúde que poderiam ser investidos para isso?

Por essas carências estruturais, se escancara a ausência completa de uma perspectiva de desenvolvimento social nos planos desses atores, pelo contrário existe um projeto de precarização da vida, atacando o meio ambiente, os povos originários e até a indústria da região. O paradigma de desenvolvimento que querem impor é de liberar toda a fúria predatória do agronegócio e da mineração, sem oferecer qualquer contrapartida de bem estar social. O próprio polo industrial de Manaus é alvo desse desmonte, com a ameaça de demissão de várias empresas da região sob o pretexto da pandemia, mesmo com um lucro no ano passado de R$ 95,49 bilhões, um acréscimo de 9,71% a 2019. De 2013 para cá, ano de recorde de empregos no polo com 120 mil postos, foram fechadas quase 40 mil vagas de trabalho, hoje são 85 mil. Um sofisticado parque industrial que em meio a crise de falta de oxigênio poderia ter várias plantas facilmente reconvertidas para a produção desse bem essencial que serviria para salvar diversas vidas.

A Amazônia Legal se torna o espelho do projeto do regime golpista para o país. Não podemos aceitar que Bolsonaro, o agronegócio, o centrão, os militares sigam ditando os rumos da região, a arrastando para novas barbáries. Segue necessária a formulação de um novo projeto de desenvolvimento da região, não o projeto predatório do agronegócio em contraposição à sua imensa biodiversidade, tampouco o discurso oco de um "capitalismo verde", mas de uma nova alternativa pensada a partir de suas populações indígenas, assim como dos milhares de operários do seu polo industrial. Uma alternativa socialista que empregue todo o domínio da técnica, das forças produtivas da humanidade, não para a destruição ambiental, mas para sua conservação.


Foto: Bruno Kelly/Reuters

Por todos esses elementos, a Amazônia Legal é também a expressão de que não é apenas Bolsonaro que conduz o país à barbárie. Desponta todo um novo regime com o golpe institucional em que outros atores, as Forças Armadas, o Centrão, o Agronegócio são cúmplices de todas essas catástrofes. São tragédias que mostram de maneira icônica o que esses atores políticos querem para o conjunto do país. São símbolos de um país sob um regime que serve a latifundiários, capitalistas e ao capital estrangeiro. Mas também são amostras concretas da realidade da falência capitalista e da urgência de um outro projeto de país, criado por e para os trabalhadores.




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